Evolução humana: a dieta conta nossa história


Índice das partes publicadas até o momento:
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Desde cedo fui muito questionada sobre ser vegetariana, em especial quando fui matriculada no ensino fundamental aos seis anos. Ouvi muita coisa absurda como “você não pode viver sem carne” e, ainda que estivesse viva, assustava um pouco. Hoje sei que eram bobagens. O que me causa interesse é entender como ainda existem dúvidas a respeito deste estilo de vida tão saudável. Certamente, naquela época, o que eu deveria ter ouvido é: se você quer viver de forma realmente saudável, passe de uma dieta ovolactovegetariana para o vegetarianismo estrito, evitando agrotóxicos e industrializados.
Minha compreensão por “vida saudável” envolve tudo o que se pode fazer para facilitar a saúde, não apenas de quem pratica esta vida saudável, mas também a de toda a sociedade e do planeta. Sabemos que comendo de forma correta adoecemos muito pouco e, em grande parte, não sustentamos a indústria farmacêutica, a alimentícia ou a agropecuária, não participamos da degradação do meio ambiente e ainda promovemos um DNA saudável para nossos descendentes.
Veja: o ser humano primitivo caminha sobre a Terra há aproximadamente 195 mil anos, sendo que sua dieta foi de grãos e legumes durante o maior período desse tempo. Nossa cultura evoluiu muito mais rápido do que nossa biologia é capaz, o que explica em grande parte as doenças que apresentamos ao ingerir alimentos aos quais nosso organismo não é adaptado, como carnes, derivados de produtos animais e produtos químicos/industrializados. Claro que não é só isso que nos move em busca de uma melhoria no estilo de vida, tem ainda toda a questão do sofrimento animal e da saúde mental.
As dúvidas que insistem em me perseguir, principalmente devido ao discurso utilizado pela grande maioria das pessoas ao longo da minha vida, me levam, nesse momento, a fazer pesquisas científicas. Infelizmente, não é raro vermos que mesmo os profissionais da área não seguem suas descobertas, seja por questões financeiras ou sociais.
Será uma destas pesquisas que publicarei ao longo das próximas semanas, buscando trazer maior compreensão sobre como era a alimentação primitiva humana, e quais foram suas necessidades e mudanças devido a alterações ambientais. Encontraremos estudos e referenciais científicos, muitos deles traduzidos do inglês, já que pouco é produzido no Brasil a esse respeito. Também será abordada a questão social e econômica que domina as sociedades atuais, fortes motivadores e cultivadores de valores culturais nocivos ao planeta e a nós todos. Poderemos identificar o vegetarianismo como uma preocupação antiga, anterior à Grécia Clássica, perpassando os tempos até os dias atuais. Veremos ainda todo o complexo pensamento que envolvia as antigas crenças espirituais da transmigração da alma e do que chamaram de ética animal. Tentaremos entender o que em nós evita pensarmos e aprendermos com o nosso corpo.
Por ser uma pesquisa muito extensa, as partes serão publicadas separadamente aqui no Vida Vegana, e este post será utilizado como um índice a todas elas. Espero que gostem e aprendam bastante, tanto quanto eu aprendi durante sua realização.

Como os veganos podem superar o debate do Abolicionismo contra o Bem­-estarismo


Durante anos me silenciei a respeito do “debate do Abolicionismo contra o Bem-estarismo”, por acreditar que meus escassos tempo e energia enquanto ativista seriam melhor empregados de outras formas. Mas eventos recentes me levaram a testemunhar a profunda ira, incerteza, culpa, cansaço e desespero que essa questão desperta em veganos – cujo comprometimento e compaixão nunca deixam de me surpreender e inspirar. Por isso eu não poderia, em sã consciência, deixar de tocar nesse assunto e de compartilhar minhas reflexões.
Muito tem se escrito sobre o conteúdo da questão – as ideias e argumentos específicos que compreendem cada posicionamento. De fato, praticamente tudo que tem se discutido em relação ao “debate” é baseado em conteúdo, e haveria uma pressão para se conseguir mais conteúdo para trazer para um “debate” que se encontra em um impasse desde que surgiu. Então não vou defender um posicionamento aqui, mas sugerir uma nova forma de pensar a questão – um reenquadramento que eu espero que ajude a liberar um pouco da energia que tem sido gasta nesse impasse, tornando, assim, as nossas vidas mais pacíficas e o nosso ativismo mais eficaz.
O que eu sugiro é voltemos nossa atenção do conteúdo para o processo da questão. O processo é o “como”, mais do que o “o quê”; é a forma como nos engajamos com o conteúdo, como nos comunicamos (por exemplo, podemos ser argumentativos ou cooperativos). E nosso processo é moldado pela nossa consciência. Nossa consciência é nossa mentalidade; são as intenções, princípios e estado de espírito que conduzem nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos e determinam como nos relacionamos com nós mesmos, com os outros e com o mundo. Nossa consciência e nosso processo podem espelhar a cultura especista-carnista que estamos lutando para transformar, reforçando assim, por exemplo, rigidez ideológica, falsa dicotomia, defensividade, assédio moral, auto-justificação e hostilidade. Ou pode refletir os princípios fundamentais do veganismo, tais como compaixão, reciprocidade, justiça e humildade – essência de uma consciência (e processo) “libertadores”, uma forma de ser (e de se relacionar) que é fundamentalmente libertadora e que eu acredito que pode fortalecer significativamente as importantes conversas estratégicas nas quais precisamos continuar a nos engajar.

Equiparando Diferença e Deficiência: fazendo desacordos saudáveis parecerem debates segregadores
Há muitas formas através das quais nós, como indivíduos e como um movimento, incorporamos uma consciência libertadora. Tive o privilégio de conhecer milhares de veganos pelo mundo, e de testemunhar a coragem e convicção com que eles levam suas vidas. Eles se mantêm firmes em seus valores apesar da hostilidade e discriminação com que lidam diariamente, do isolamento que vivenciam, da frustração que sentem ao perceber a irracionalidade evidente nas atitudes e comportamentos dos outros para com os animais, e da dor, tristeza e raiva que sentem com os constantes sinais de brutalidade e injustiça que os cerca. Também tive a oportunidade de testemunhar o desdobramento e florescimento global do movimento vegano. Dadas as dimensões da atrocidade contra a qual estamos, temos muito do que nos orgulhar.
E dadas as dimensões da atrocidade contra a qual estamos, também temos muito trabalho a fazer.
Embora tenhamos conseguido trazer uma consciência libertadora para muitas áreas de nosso ativismo e do nosso movimento – particularmente para as nossas áreas de convergência – muitas vezes trazemos uma consciência não libertadora para nossas áreas de desacordo. Se nossa força está na diversidade – quanto mais ideias e experiências trazemos para nosso movimento, mais rico e multidimensional ele se torna – quando equiparamos diferença e deficiência, quando acreditamos que as diferenças são obstáculos e não oportunidades, estamos tratando nossas diferenças de uma forma que enfraquece em vez de fortalecer a nós e a nosso movimento. Passamos a ver nossos desacordos como debates segregadores e não como conversas construtivas.
O problema central não é as nossas diferenças, e sim a forma como nos referimos a elas. Em outras palavras, embora possa haver diferenças em termos de quão eficazes são certas estratégias para acabar com a exploração animal – algumas podem até ser contraproducentes – não podemos decidir em que abordagens focar nossos esforços se somos incapazes de discutir tais diferenças abertamente. Devemos aproximar nossas áreas de divergência de uma forma que cultive o tipo de diálogo produtivo que nos capacite a explorar completamente os métodos mais apropriados para pôr um fim à terrível maré de brutalidade para com seres não-humanos – que não cessa enquanto estamos discutindo uns com os outros.

Debate contra diálogo: processos radicalmente diferentes
O modelo de debate, embora amplamente aceito para além do mundo acadêmico, também tem sido criticado por muitos intelectuais, pelo menos já desde Sócrates. Geralmente, quando estamos debatendo, buscamos “ganhar” uma “discussão”, “defender” nosso posicionamento, demonstrar que ele é “certo”. Dessa forma, nossa meta é, inevitavelmente, fazer o outro “perder” e demonstrar que o posicionamento dele está “errado”. A meta do debate é, normalmente, não aprender e desenvolver um maior entendimento de um assunto, mas promover nossa própria visão contra um “oponente” que está igualmente empenhado em promover o ponto de vista dele. O ato de debater se baseia em, e encoraja, um pensar dualista: muitas vezes somos levados a escolher entre dois pontos de vista (opostos) e não conseguimos enxergar os muitos pontos de vista alternativos que podem existir. Também podemos deixar de valorizar as nuances do assunto, ou fato de que podem haver interpretações múltiplas e igualmente válidas para a mesma situação.
A meta de dialogar, por outro lado, é compartilhar ideias e tomar conhecimento de perspectivas múltiplas. É compreender e ser compreendido pelo outro, a fim de ampliar o entendimento. Através do diálogo somos encorajados a avaliar nossas próprias certezas, considerar as limitações de nossa perspectiva e contemplar explicações alternativas ou planos de ação para a questão que estamos explorando. O modelo de diálogo reflete muito mais uma consciência libertadora, uma vez que requer curiosidade, empatia e compaixão, e tem como objetivos compreensão mútua e fortalecimento coletivo em vez de criar “vencedores” e “perdedores”.
Além da conscientização gerada por cada modelo, se considerarmos o puro valor prático dessas abordagens para acabar com a exploração animal, podemos perceber como o debate pode ser um sério obstáculo a essa meta. Alcançar nosso objetivo de libertação dos animais depende de desenvolver uma abordagem estratégica que seja compreensiva, complexa, sofisticada e flexível, a fim de atingir uma forma de opressão institucionalizada que é compreensiva, complexa, sofisticada e dinâmica. É improvável que a retórica redutora e dicotômica do debate possa jamais produzir tal nuance e riqueza analítica. Nossa força está nas nossas diferenças.

O impasse do debate: estratégia disfarçada de ideologia
Considerando a natureza problemática do debate, por que continuamos a aplicar este modelo para lidar com nossas diferenças? Uma das razões é que temos confundido ideologia e estratégia, ao acreditar que nossas diferenças são ideológicas e não estratégicas. Ideologia é um termo moralmente carregado, que muitas vezes gera uma mentalidade de “certo/errado”, e é interpretado de forma subjetiva, o que pode levar a deliberações sem limites e, no fim das contas, a um impasse.
Embora diferenças ideológicas naturalmente existam entre veganos, para muitos deles há, muitas vezes, uma falta de clareza em relação aos pontos em comum entre ideologia e estratégia. Por exemplo, ao debatermos se é mais eficaz promover uma reforma institucional do que uma divulgação do veganismo (supondo que são abordagens mutuamente exclusivas, o que não são) estamos muitas vezes supondo que a divergência é puramente ideológica, que se é ou “abolicionista” ou “bem-estarista”. No entanto, a maioria dos veganos de fato compartilha do objetivo da abolição da exploração animal, e quando conseguimos separar a ideologia da estratégia podemos redirecionar a discussão para a melhor forma chegar a esse objetivo sem sermos desviados por argumentações morais.
Quando sobrepomos a ideologia à estratégia, perdemos a objetividade necessária para desenvolver uma análise estratégica intacta. Por exemplo, tratamos teoria como se fosse verdade, defendendo veementemente uma abordagem que não se baseia em qualquer evidência empírica. Exemplos históricos de outros movimentos abolicionistas, como o movimento para acabar com a escravidão africana, são referências úteis, mas que em nada
se aproximam dos dados concretos necessários para demonstrar a eficácia de uma abordagem estratégica para abolir a exploração animal contemporânea. Também não temos quaisquer dados confiáveis que provem que reformas bem-estaristas irão, de fato, resultar na abolição, em vez de, na verdade, minar os esforços empregados neste objetivo. E também tratamos fato como se fosse teoria, rejeitando, por exemplo, o grande número de pesquisas que examinam os fatores motivacionais e comportamentais que influenciam a mudança individual e social. É incrível como Change of Heart, de Nick Cooney, uma compilação de 220 páginas de estudos psicossociais, tem sido às vezes tratada como se fosse mera conjectura.
A análise estratégica é um dos – se não o – esforços mais importantes nos quais podemos nos envolver enquanto veganos. Questionar a forma mais rápida e eficaz de conquistar mudanças para os animais é vital para a nossa missão. Faz sentido perguntar, por exemplo, se as reformas bem-estaristas que aumentam a conscientização sobre a exploração de animais de criação trazem mais benefícios ou consequências. São questões válidas que exigem um diálogo permanente. O modelo de debate, no entanto, não é útil quando se discute a estratégia; nossa preocupação em estarmos certos pode nos impedir de sermos eficazes.

O mito do Grande Debate: “Bem-estarismo contra Abolicionismo”
Outra razão pela qual os veganos empregam o contraproducente modelo de debate é porque muitos de nós acreditamos que exista um “debate do Abolicionismo contra Bem-estarismo” fundamental dividindo nosso movimento, e que estamos, portanto, automaticamente de um lado ou de outro. Em outras palavras, nós compramos o mito do Grande Debate.
No entanto, enquanto há aqueles que procuram debater esta questão, o debate em si é, em grande parte, uma construção. Em um debate, geralmente se supõe que existam (pelo menos) dois lados “opostos”, cada um igualmente empenhado em promover sua posição como certa. E para se empenhar na promoção de um posicionamento, deve-se, geralmente, estar identificado com o mesmo. Um debate é como uma partida de futebol: tem de haver
dois grupos, identificados como equipes, ambos comprometidos a “ganhar” o jogo.
Se examinarmos a história do “debate do Abolicionismo contra o Bem-estarismo”, no entanto, veremos que a grande maioria dos veganos não se vê em um “lado” do “debate”, porque não se identifica com um posicionamento específico – eles não se rotularam e não construíram uma identidade em torno de um posicionamento. Eles simplesmente se veem como “veganos”. Muitas vezes, eles só irão considerar sua posição no “debate” quando forem confrontados com a “escolha” de um “lado”, mas, geralmente, eles não sentem qualquer identificação com seu suposto “lado”, nem percebem aqueles do outro “lado” como em oposição a si mesmos e a seus esforços. A identificação com uma posição tem sido, em grande parte, a província de um pequeno grupo de veganos que construíram uma identidade em torno de sua abordagem estratégica-ideológica e que criaram rótulos para si mesmos e para o outro “lado”. Em nossa analogia do futebol, é como se houvesse apenas uma equipe que tenta ganhar o jogo; o resto das pessoas nem sequer se vê como uma equipe e está simplesmente correndo pelo campo, apenas chutando a bola quando ela entra no caminho.
Na verdade, só porque apenas uma minoria dos veganos tem uma identidade de “equipe”, não significa que a maioria não desempenhe um papel na construção do debate. É inteiramente possível que a pequena minoria tenha desenvolvido uma identidade de grupo coesa, porque sentiu que as suas preocupações, válidas e urgentes, não vinham sendo levadas a sério pela cultura vegana mais ampla. Ambos os “lados” devem se esforçar para neutralizar o mito do Grande Debate.

O mito da Grande Divisão: unidos e divididos, estamos firmes
Um dos perigos de aceitar o mito do Grande Debate é que ele pode nos levar a acreditar no mito da Grande Divisão – que há uma profunda brecha em nosso movimento que prejudica os nossos esforços e mina o nosso ativismo. E embora seja verdade que “o debate” é divisionista e constitui um obstáculo ao nosso crescimento, uma rápida análise da evolução do movimento nos últimos anos demonstra, sem dúvida, que estamos crescendo
exponencialmente em tamanho e força. A fenda não é um abismo.
Também podemos acreditar no mito da Grande Divisão porque, enquanto minorias ideológicas, somos muitas vezes retratados pela cultura dominante como um grupo homogêneo e unidimensional. E, como outros grupos não-dominantes, podemos nos sentir pressionados a apresentar uma frente unificada, a fim de obter poder social. Por isso, é importante que nos lembremos de que não somos menos diversificados do que os não-veganos, e não temos que – nem deveríamos – compartilhar dos mesmos valores, crenças e abordagens. Quando olhamos para nós mesmos através da lente da cultura dominante, podemos temer que, se não estamos unidos, estamos divididos, e transformar isso em uma profecia autorrealizável. Mas podemos ser, e somos, simultaneamente semelhantes e diferentes.

Rotulagem segregadora
Nossa percepção de nós mesmos como fundamentalmente divididos é reforçada, pelo menos em parte, através da construção e apropriação de rótulos para veganos. Embora análise linguística e precisão sejam essenciais para o crescimento contínuo de qualquer movimento social, quando os rótulos são criados e aplicados unilateralmente – quando aqueles que os recebem nem foram participantes no processo, nem consentiram em receber os rótulos atribuídos a eles – o resultado é confusão, frustração e um profundo enfraquecimento da dignidade pessoal e da solidariedade do grupo.
Nada enfatiza mais essa dinâmica que o uso dos rótulos “abolicionista” e “bem-estarista”. Muitos veganos acham esses rótulos ofensivos porque eles são involuntariamente atribuídos ou negados – lhes dizem que eles não são quem pensam ser, ou que eles são quem pensam não ser. Por exemplo, a definição técnica de “abolicionista” é aquele que favorece a abolição de uma prática ou instituição; no caso do veganismo, isso significaria qualquer um cujo objetivo final é a abolição da exploração animal. E mesmo que a maioria dos veganos se veja, sem dúvida, como abolicionista, o termo foi redefinido para se aplicar a um pequeno grupo daqueles que defendem uma ideologia e uma estratégia de abordagem particulares para chegar a esse objetivo. Assim, qualquer um cuja abordagem difira, mesmo que seu objetivo seja a abolição da exploração animal, é rotulado de “bem-estarista”, o que sugere que ele simplesmente procura aliviar, em vez de eliminar, essa exploração. Embora existam, certamente, advogados de proteção dos animais – e executivos de greenwashing do agronegócio – que não almejem a abolição, a grande maioria dos veganos almeja e se sente, portanto, ofendida quando lhe é negado o direito à auto-identificação.
Uma maneira simples de resolver o problema da rotulagem segregadora é escolher termos que sejam mais inclusivos e precisos. Na verdade, é provável que tais termos tenham sido criados originalmente para promover uma maior precisão e que a exclusão tenha sido uma consequência não intencional. No entanto, o processo pelo qual a rotulagem foi implementada é de ainda maior preocupação que os próprios rótulos. Impor aos outros rótulos não solicitados que são incongruentes com seu próprio autoconceito é definir sua realidade. É negar ao outro o direito à sua própria orientação filosófica. Quando nós definimos a realidade do outro, estamos, no fundo, afirmando que sabemos melhor do que ele quais são as suas motivações e metas centrais. Definir a realidade de outro é um processo fundamentalmente enfraquecedor (não-libertador). Sempre que nos nomeamos peritos na experiência do outro, nós tiramos o outro de sua subjetividade, tornando-o objeto de nossas projeções. Nós apagamos o seu ser, projetando sobre eles nossas próprias suposições sobre o seu mundo interno. Este tipo de consciência é antitética para todos nós que nos definimos como veganos. Pense nisso: a nossa defesa se baseia em impedir seres humanos de definir a realidade de outros animais, de rejeitar ou minimizar a senciência e sofrimento de outros seres. Nos esforçamos para compreender a experiência subjetiva dos animais e encorajamos os outros a fazerem o mesmo. Este testemunho de outros seres, validando em vez de definir a sua realidade, é a base de uma consciência vegana – uma consciência libertadora.

Uma consciência vegana de libertação: indo além do debate e cruzando a fronteira
O veganismo se baseia em princípios que formam uma consciência libertadora, e a essência da filosofia vegana é respeitar o valor intrínseco de todos os seres, incluindo os humanos. Não há forma de criarmos o mundo que reflete os nossos princípios se praticamos nossa filosofia de forma seletiva e não de forma holística. Devemos nos comprometer a trazer uma consciência libertadora para nossas vidas diárias, tanto para nossos relacionamentos mais próximos como para nossas interações com estranhos, tanto para com aqueles com quem podemos discordar veementemente como para com aqueles que chamamos de companheiros. Desta forma, estamos dando aos não-veganos o exemplo que estamos pedindo para seguirem, cultivando vidas mais plenas e sustentáveis como veganos e como ativistas, e criando um movimento mais unificado e fortalecido.
Uma consciência libertadora reflete curiosidade – uma mente aberta – em vez de rigidez e defensividade ideológica ou intelectual. O objetivo é buscar a verdade, para aprender e compreender, em vez de estar “certo”. Se valorizamos a curiosidade como um princípio fundamental de uma consciência libertadora, então valorizamos, ao invés de menosprezar, aqueles cuja busca pela verdade possa gerar ideias das quais discordamos. Por exemplo,
James McWilliams foi alvo de duras críticas por mudar sua posição sobre determinadas questões depois de examiná-las mais profundamente. No entanto, independentemente de concordarmos com suas ideias, a abertura de McWilliams a informações que desafiam os seus pontos de vista existentes, e seu compromisso em buscar (e falar) a verdade acima de estar “certo”, refletem verdadeira integridade intelectual.
Uma consciência libertadora reflete compaixão – um coração aberto – em vez de julgamento, humilhação e intimidação. O objetivo é conectar, criar empatia com o outro, fortalecê-lo. O julgamento é sempre constrangedor, pois reflete uma atitude de superioridade e faz com que o outro se sinta inferior, “menos”. E o assédio moral é o uso de agressão para intimidar o outro a fazer (ou acreditar em) o que se quer. Podemos até defender um sistema que pregue a libertação total, mas se nossas ações são condenatórias, constrangedoras e assediadoras, estamos oprimindo em vez de libertar. Além disso, quando praticamos a compaixão nós desarmamos a nossa raiva, e a raiva é um sério obstáculo ao diálogo produtivo. A raiva é uma resposta normal e adequada à injustiça, mas quando deixamos de examinar e processar a nossa raiva, ela pode crescer e se tornar crônica. E quando nos comunicamos partindo da raiva, inevitavelmente projetamos hostilidade. Nossas palavras – faladas ou escritas – ficam carregadas de indignação e sarcasmo. A raiva é uma emoção profundamente distanciadora; ela cria muralhas defensivas em nós mesmos e naqueles com quem estamos nos comunicando. Se o nosso objetivo é sermos ouvidos, precisamos que o outro se abra para nós e sinta uma conexão conosco – sinta a nossa compaixão.
E uma consciência libertadora reflete a coragem de praticar curiosidade e compaixão em nossas interações e em nossas vidas. Qualquer interação que não reflete curiosidade e compaixão é intrinsecamente não libertadora.
Enquanto veganos, estamos pedindo ao mundo algo que nunca foi pedido antes. Estamos buscando uma transformação social radical, uma verdadeira revolução de consciência. Nosso movimento, nossa voz, é fundamental para salvar o mundo. E, embora estejamos fazendo a nossa voz ser ouvida, imagine quanto mais alto nossa mensagem soaria se parássemos de gritar uns com os outros. E imagine o tipo de mundo que poderíamos criar se nos comprometêssemos a falar a linguagem da libertação.

Créditos do texto e fotos: Melanie Joy
Tradução: Isiane de Paula

Eutanásia; mais do que uma injecção



Iniciemos com as definições “oficiais”:

Eutanásia ou “boa morte” é a prática pela qual se abrevia a vida de um doente incurável de maneira controlada e assistida por um especialista.

Occisão é o acto de matar; assassínio.

Abate é a morte/matança por sangria.

A palavra eutanásia aplicada à morte de animais não-humanos, nomeadamente cães e gatos, vulgarizou-se de forma tal, que é utilizada de uma maneira completamente abusiva e nada factual. Generalizou-se, inclusive, no seio do movimento de defesa dos animais, a ideia de que eutanásia é a forma como o animal é morto, ou seja, como se uma injecção de pentobarbital fosse a definição de eutanásia. Isto é falso. Um animal até pode ser morto com um tiro e isso ser considerado uma eutanásia, portanto, não é o método que define a eutanásia, mas sim o que leva à produção da morte desse animal. Administrar uma eutanásia a alguém é aliviar esse alguém de sofrimento que NÃO pode ser aliviado de outra forma, alguém que está absoluta e inequivocamente condenado a morrer, que não tem qualquer hipótese de sobrevivência e que está em sofrimento, sem qualquer qualidade de vida. A eutanásia é, geralmente, administrada através de sedação completa do animal e de seguida uma injecção de pentobarbital que fará com que ele já não acorde. Contudo, e consoante os casos, pode ser administrada através de outros métodos.

Não nos enganemos. Sejamos honestos para connosco e respeitadores da dignidade daqueles cuja morte por vezes temos que decidir. Tirar a vida a alguém é uma das decisões mais penosas que pode existir. É algo que nos perseguirá para o resto da vida e que requer muita ponderação, de preferência mais do que apenas uma opinião médica, e, acima de tudo, consciência do acto. Não deve ser uma decisão leviana nem baseada apenas em emoções momentâneas. A regra de ouro da ética deve ter um papel vital (literalmente vital) numa decisão deste calibre. De forma muito simplificada, é importante que façamos este exercício: “se eu estivesse naquela posição o que quereria que me fosse feito?”. Sejamos também muito rectos aquando da aplicação desta regra. Façamos uma introspecção e percebamos o que REALMENTE quereríamos que nos fosse feito numa situação similar.

Infelizmente, os casos com os quais lidamos referem-se a animais que não podem falar por si, não podem dizer-nos se querem ou não que a sua morte seja acelerada, por isso, temos que ser nós, devidamente aconselhados pelo médico veterinário assistente, a tomar essa decisão. Importa que nunca esqueçamos o que estamos realmente a fazer, e a importância que tal passo tem. Aquilo que deve ser um acto de misericórdia não pode, nem deve, segundo o meu ponto de vista, ser banalizado. É esta banalização que encontro com frequência no movimento de defesa dos animais que me preocupa e até assusta. A forma por vezes precipitada com que se trata este tema é chocante e essa visão leva muitas vezes ao término de vidas com potencial.

Indivíduos que, independentemente de termos no momento uma família preparada para si ou não, que independentemente de estarmos assoberbados e a sentir que não vamos conseguir encontrar-lhes famílias ou suportar os encargos financeiros dos seus cuidados ou não, podem vir a ter uma hipótese! Mas, para isso, têm que estar vivos! Matar alguém só deve ser uma hipótese se realmente essa morte for uma eutanásia.

Insisto uma vez mais que se tratem as coisas pelos nomes. Não, não se trata de preciosismo, mas sim de aperfeiçoamento. Quanto mais nos habituarmos a chamar os verdadeiros nomes ao que fazemos, mais aprendemos acerca do seu real significado, das suas consequências e até de nós próprios, e melhores e mais ponderadas decisões poderemos tomar. Sejamos leais aos princípios que advogamos e sobretudo àqueles cujas vidas pretendemos salvar, melhorar, ou até mesmo terminar, para o seu próprio bem.

É preferível salvar uma vida e dar-lhe o melhor possível, a, à força de querer salvar muitas, acabar por não salvar nenhuma. Para aquele indivíduo salvo, o facto de ter continuado vivo valeu tudo! E como se diz: “quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”. Salvemos o mundo inteiro; uma vida de cada vez.

Este artigo foi escrito em Português de Portugal e sem recurso ao Acordo Ortográfico.

O Veganismo como Mudança Cultural



Como diversos sites sobre veganismo já registraram, a Hallmark, tradicional empresa norte-americana mais conhecida pelos seus cartões para datas comemorativas, lançou no final do passado um comercial natalino em que apresenta uma família realizando uma ceia totalmente vegana. Tudo parece estar indo bem, até que o vovô pira ao perceber que não há pernil na mesa. Pobre vovô, feliz porco.

Independente do comercial em si, que não consegue evitar as brincadeiras com veganos – um prato com algas marinhas e lavanda? WTF? – o que mais importa é o que ele representa em termos de avanços culturais. A Hallmark não é uma empresa qualquer (são 105 anos de existência e uma receita de quase 4 bilhões de dólares em 2014) e o fato de ter registrado em uma de suas campanhas uma família optando pelo veganismo demonstra que ser vegano já não é exatamente um ponto fora da curva.

Analisando de um ponto de vista maior, optar pelo veganismo é tomar uma posição consciente de mudança da cultura humana, transformando seus valores, tradições, tendências, comportamentos e preferências. E como qualquer mudança cultural, não ocorre da noite para o dia. Não nos alimentamos de animais atualmente devido ao seu valor nutricional ou por não termos outras alternativas. Nos alimentamos de animais porque isso faz parte da cultura vigente. Desde pequenos nos servem carnes, leites, queijos e ovos, e aos poucos nosso paladar vai sendo definido por estes “ingredientes”. Quando crescemos e podemos nos dar conta do que realmente significa usar animais como fonte de alimentos, achamos que é “tarde demais”: aqueles sabores já fazem parte de quem somos, de nossas convivências sociais e, mesmo sem apoiarmos a violência direcionada ao animais, a possibilidade de transformação da dieta nos parece uma mudança muito grande. E isso tratando apenas da alimentação, que é somente uma parte do veganismo.

Felizmente o final desta história não é sempre o mesmo. Os que desenvolvem a motivação necessária acabam sendo os pioneiros, criando a base que permitirá outros também participarem desta mudança cultural. É neste estágio que nos encontramos com relação ao veganismo, onde é cada vez mais fácil tomar parte da ação devido ao esforço dos que já o optaram. Há toda uma cultura sendo criada em torno do veganismo e o resultado disso se dá através de sua aparição cada vez mais frequente no nosso dia a dia. Lembro bem quando assisti Scott Pilgrim Contra o Mundo e apareceu o personagem vegano em cena. Eu ainda era ovolactovegetariano na época, mas ver um vegano em uma grande produção destas me deixou muito feliz. Nesta semana também encontrei o cartaz abaixo no jogo Life is Strange, sendo que uma das personagens principais parece ser vegana – ou ao menos não usa produtos que façam testes em animais. Considerando desenhos, o Apu Nahasapeemapetilon, funcionário do Kwik-E-Mart nos Simpsons, é vegano, assim como a Draculaura, do Monster High. Diversos outros exemplos poderiam ser demonstrados aqui e a propaganda da Hallmark é só mais um caso, comprovando que o esforço dos veganos não está sendo em vão e a mudança já pode ser sentida em nossa cultura.

Ainda estamos muito distantes do mundo que desejamos, mas podemos afirmar com satisfação: o veganismo definitivamente não é mais um ponto fora da curva. =)

Veganismo e ambientalismo



A produção mundial de animais para alimentação quadruplicou nos últimos 50 anos. Na verdade, o facto de se aumentar a criação de animais para consumo contribui não só para cada vez mais a forma como as pessoas se nutrem ser mais pobre, mas também para o aumento da poluição, aquecimento global, desflorestação, escassez de água, entre outros problemas. Tendemos a preocupar-nos em controlar a electricidade que gastamos, em fecharmos as torneiras, fazermos apagões mundiais durante uma hora, gastarmos menos papel… em suma, sermos mais eficientes no uso dos recursos e assim diminuirmos a nossa “pegada”, mas, curiosamente, esquecemo-nos de examinar o factor mais marcante nesta nossa “pegada ecológica”: aquilo que comemos!

Um relatório da FAO (The United Nations Food and Agriculture Organization) datado de 2005 reporta que mais de 5 milhões de crianças morrem de fome por ano. Estima-se que em 2050 a população mundial humana seja de 9 mil milhões. Este número é extremamente preocupante! Como vamos diminuir a fome no mundo?

A terra disponível para cultivo é uma das maiores dificuldades para a produção de alimento. A Terra não tem terreno ilimitado e nem todo o terreno é fértil. Vários estudos indicam que uma dieta vegana variada requer apenas um terço da terra que é usada nas dietas ocidentais convencionais. Isto significa que não temos terra suficiente para alimentar todos os habitantes do Planeta com uma dieta de origem animal. O facto é que enquanto quase 1 bilião de pessoas não tem comida suficiente, o resto do mundo continua a desperdiçar terra fértil onde poderiam ser cultivados vegetais para alimentação de todas/os, a criar vegetais que vão alimentar animais que posteriormente vão ser mortos para alimentar humanos… Algo está muito errado com esta equação! Estamos a desperdiçar em vez de sustentar.

A população mundial está a crescer de uma forma assustadora e os terrenos viáveis para cultura não estão a acompanhar esse crescimento. Se queremos evitar a escassez de víveres que cada vez mais se torna um problema real devemos procurar formas mais sustentáveis de utilizarmos os nossos recursos naturais. A exploração e utilização de animais não só não é moralmente justificável como também não é sustentável!

Cerca de 40% da terra para cultivo do mundo está degradada. Prevê-se que se a perda de terra continuar – devido à forma como a usamos – cerca de entre 150 a 360 milhões de hectares deixarão -até 2020 – de ter capacidade para serem cultivados. Este prognóstico deveria ser assustador, mas ainda assim as mudanças necessárias para preveni-lo não estão a acontecer.

Como é que a sua dieta pode ajudar?

O sobrepastoreio é um dos principais culpados pela degradação dos solos e pela desflorestação. As principais causas para a existência deste sobrepastoreio estão directa ou indirectamente relacionadas com a produção e consumo de produtos de origem animal. À medida que os solos vão deixando de estar capazes as pessoas vão procurando novas terras e isto cria um ciclo vicioso de “destruir – procurar – destruir”.

E as florestas?

As florestas estão a ser dizimadas pelas indústrias papeleira, madeireira e petrolífera, mas não só! Estima-se que entre 20 a 30% da área florestal mundial já tenha sido convertida em terreno de criação de animais para consumo ou plantação de cereais para alimentação desses mesmos animais que depois serão consumidos.

Um relatório da FAO intitulado “Livestock’s Long Shadow” diz-nos que em 2010 cerca de 24 milhões de hectares de terreno neotropical que era floresta em 2000 se transformaram em pastoreio de vacas para consumo! Este processo é chamado de “hamburgarização” das florestas. Mudar para uma dieta vegana pode fazer toda a diferença na inversão deste processo de destruição.

E a água?

Estima-se que uma pessoa que come animais é responsável pelo gasto de pelo menos 3 vezes mais água do que uma pessoa vegana. Sabemos também que a produção de animais é a responsável número um pela poluição das águas. O estrume dos animais contém níveis altos de fósforo e nitrogénio que ao chegarem a lagos e rios são responsáveis pela morte de inúmeros peixes e outros animais marinhos, já para não mencionar as descargas ilegais que tantas vezes são feitas directamente para estes cursos de água. A própria amónia da urina destes animais pode ser responsável pelo fenómeno das “chuvas ácidas”.

Pense nisto:

– Continuar a manter os animais e os alimentos de origem animal como as fontes principais de alimentos para a população humana do planeta é condenar milhares de milhões de pessoas à fome;

– Criar animais para serem transformados em carne ou para gerarem ovos e leite é um grande erro de economia alimentar. Os animais que são explorados com fins alimentares consomem muitas mais calorias do que aquelas que se produzem em forma de carne ou outros alimentos animais;

– Se os terrenos agrícolas actualmente usados na criação de animais fossem usados na produção de vegetais, gerariam uma quantidade substancialmente maior de alimentos para consumo humano do que actualmente geram, permitindo alimentar um número muito superior de humanos do que actualmente permitem fazer – e de modo ética e ecologicamente mais correcto;

– A produção de vegetais poderia, com alguma facilidade, gerar uma quantidade de alimentos completos, de muito mais fácil, menos dispendiosa e de mais eficaz produção e distribuição. Poderia ser suficiente para alimentar todos os humanos que existem na Terra, tanto os famintos como os não famintos, gerando alimentos mais baratos, mais acessíveis, de mais fácil produção e mais saudáveis.

Sabia que:

São usados cerca de 2000 litros de água para produzir um quilo de carne, enquanto são usados apenas cerca de 50 litros de água para produzir um quilo de trigo?

A exploração de vacas, porcos, ovelhas, galinhas e outros animais com fins alimentares tem tido efeitos preocupantemente importantes no aquecimento global?

10% da emissão de todos os gases nocivos, incluindo cerca de 25% das emissões de gás metano (que é considerado um dos mais potentes gases que tão nefastamente influencia o aquecimento global), provêm da exploração pecuária?

Se estima que, todos os anos, cerca de 13 mil milhões de toneladas de dejectos sejam produzidos pelos animais explorados na indústria pecuária?

Na América Central e na América do Sul, imensas florestas tropicais de enorme importância ecológica, com uma enorme diversidade de espécies animais e vegetais que nelas habitam, têm extensas áreas dizimadas e desflorestadas para darem lugar a pastagens para vacas que serão transformadas em carne e a plantações de soja para alimentar estes animais?

Uma área de terreno com as mesmas dimensões de sete campos de futebol é destruída a cada minuto que passa. 55m2 de floresta tropical podem ser destruídos para serem usados na produção de apenas cerca de 125g de “carne”;

Tome nota:

Cada vegano, pelo simples mas importante facto de ter uma dieta exclusivamente à base de produtos vegetais, ”salva” cerca de 3.000m2 de floresta por ano, que já não serão destruídos e convertidos em explorações pecuárias.

Em jeito de conclusão, a questão que se coloca é: se a exploração e produção de animais é uma das actividades mais poluentes, cruéis, ambientalmente catastróficas e humanamente insustentáveis do Planeta, pode realmente intitular-se ambientalista e comer animais? Importa reflectir e, eventualmente, mudar a forma de ver e viver o ambientalismo. Se realmente nos importa a deterioração do Planeta, assumamos essa nossa preocupação por inteiro, em vez de nos deixarmos ficar pela metade.

A Terra é de todos. Não acredito em tal coisa como “fazer a minha parte”. Fazer a minha parte é ir até à máxima extensão do possível para respeitar quem aqui habita. Não é porque não podemos fazer tudo que não devemos fazer tudo o que nos é possível fazer. Pense nisto.

Rita Silva
Activista em defesa dos direitos dos animais, Presidente da ANIMAL, Coordenadora Ibérica da Cruelty-Free International
www.animal.org.pt
www.crueltyfreeinternational.org

Fontes: Vegan Society; FAO; ONU;

Como tratamos os “nossos” animais



Enquanto defensores dos animais sentimos que já sabemos tudo acerca de como devemos manter e viver com os “nossos” animais. Na verdade, ainda não é muito o que sabemos acerca desses animais maravilhosos com quem partilhamos a vida: os cães e os gatos. Muitos de nós acreditam que basta colocar comida e água a um cão ou um gato, dar alguns passeios com o cão, que um gato facilmente se acomoda desde que haja um espacinho, que devemos levá-los ao veterinário quando estão doentes e brincar com eles quando temos tempo. Assim, parece que já fizemos “a nossa parte” ao têrmo-los adoptado, e é bem melhor que estejam connosco do que na situação em que os encontrámos, certo?

Pois bem, gostava então de analisar simples e brevemente o que acabo de escrever:

1 – Não existe tal coisa como fazer “a nossa parte”. A nossa parte é fazermos o máximo possível todos os dias da nossa vida, e o que quer que façamos continuará a não chegar;

2 – Não é necessariamente verdade que os nossos pequenos estejam melhor connosco do que estavam antes ou do que estariam se estivessem com outra pessoa. Pensarmos assim é o que *nos* faz sentir bem e *nos* conforta pensar.

Adoptar alguém (o mesmo se aplica à adopção de crianças) deve ser, em primeiro lugar, um acto de altruísmo. Adoptar para cuidar, para proteger, para acompanhar, para respeitar. As responsabilidades da adopção são demasiado importantes para serem descuidadas e uma má adopção pode significar a ruína na vida de um indivíduo. Adoptar um animal implica aceitar *todas* as consequências que possam advir dessa decisão, ou seja, todos os imprevistos e todas as boas e más surpresas. Para sempre! Não imaginaríamos fazer nascer ou adoptar uma criança e depois passá-la para os cuidados de outra pessoa se ela ficasse doente, implicasse despesas, se nascesse/entrasse um novo membro da família, se chorasse ou falasse muito alto, ou se trabalhássemos muitas horas. Se seria socialmente reprovável fazê-lo com um humano, porque é então tão melhor tolerado se for com um cão ou um gato? Será o especismo também um empecilho na vida dos cães e dos gatos? É, mas não tem que ser assim!

Os cães e os gatos conforme os conhecemos (domesticados) dependem imensamente de nós. Um cão deve ser passeado *pelo menos* três vezes por dia, deve ser exercitado, estimulado, acompanhado, e jamais deve ficar mais do que 6 horas sem urinar. Privar um animal daquilo que lhe é fisiologicamente natural (urinar foi apenas um exemplo) causa-lhe sofrimento/desconforto e é – ainda que não seja sempre propositado – uma forma de crueldade. Não é verdade que os gatos em qualquer canto se acomodam. Um gato precisa de explorar, de arranhar, de poder esconder-se se quiser, etc. Ambos precisam – tal como os humanos precisam – de estímulos e de uma vida social; com outros animais e com humanos.

Manter animais em transportadoras, “boxes”, espaços apenas com cimento, quartos fechados ou outros espaços semelhantes, não é protegê-los, nem faz de nós melhores apoiantes dos animais. Pelo contrário, perverte a essência da Causa, retirando-lhe dignidade.

Posto isto, é urgente começar (e já começamos tarde) a mudar a forma como “executamos” aquilo a que chamamos protecção dos animais. É urgente que façamos um esforço para mudarmos a ultrapassada forma como os vemos e cuidamos deles. Conforme disse no início, ainda sabemos pouco acerca das características dos outros animais, mas o que sabemos hoje é muito mais do que sabíamos há 60 anos. Assim, não é aceitável que continuemos a usar as mesmas fórmulas, infraestruturas e “mindset” dessa altura.

Mudar é extremamente difícil e implica muito trabalho. Implica sobretudo vontade e uma enorme dose de humildade para reconhecermos que o que estamos a fazer não está a funcionar e que pode, realmente, melhorar. Se reconhecermos isto o primeiro passo estará dado!

O exemplo deve partir de nós. Não é demais relembrar que não é porque não conseguimos fazer/mudar tudo que devemos esmorecer e abster-nos de tentar. Os nossos queridos companheiros agradecem e a Causa engrandece.

Este artigo foi escrito em Português de Portugal e sem recurso ao Acordo Ortográfico.

Veganismo e a Fome no Mundo



Tire um momento do seu dia para pensar nisto, principalmente nesta época das festas em que o Mundo parece ser tomado por uma brisa de compaixão.

– Continuar a manter os animais e os alimentos de origem animal como as fontes principais de alimentos para a população humana do planeta é condenar milhares de milhões de pessoas à fome;

– Criar animais para serem transformados em carne ou para gerarem ovos e leite é um grande erro de economia alimentar. Os animais que são explorados com fins alimentares consomem muitas mais calorias do que aquelas que se produzem em forma de carne ou outros alimentos animais;

– Se os terrenos agrícolas actualmente usados na criação de animais fossem usados na produção de vegetais, gerariam uma quantidade substancialmente maior de alimentos para consumo humano do que actualmente geram, permitindo alimentar um número muito superior de humanos do que actualmente permitem fazer – e de modo ética e ecologicamente mais correcto;

– A produção de vegetais poderia, com alguma facilidade, gerar uma quantidade de alimentos completos, de muito mais fácil, menos dispendiosa e de mais eficaz produção e distribuição. Poderia ser suficiente para alimentar todos os humanos que existem na Terra, tanto os famintos como os não famintos, gerando alimentos mais baratos, mais acessíveis, de mais fácil produção e mais saudáveis.

Pelos animais, por si e por quem passa fome, considere o veganismo.