A dieta vegetariana e a prevenção de cânceres do sistema reprodutor



Atualmente, se aceita que até 80% dos cânceres sejam causados por fatores que podemos controlar: ambiente, tabagismo, dieta, atividade física, consumo de álcool, exposição a radiações, poluição e medicamentos, sendo que a nutrição é um fator determinante para risco ou proteção. Portanto, é importante considerar junto a outros hábitos de vida saudáveis também a opção por uma dieta vegetariana, pois ela é especialmente poderosa como fator de prevenção.

Muitos estudos já demonstraram a relação entre a incidência de câncer e uma dieta rica em produtos animais. As dietas muito ricas em proteína animal estão relacionadas aos cânceres do intestino, fígado, mama e rins e as dietas muito ricas em gordura (com ou sem proteína animal) estão relacionadas à incidência de cânceres de intestino, mama, próstata, e pâncreas. Para citar um exemplo, a revista médica British Journal of Cancerpublicou um estudo realizado com mais de 35 mil mulheres britânicas (sendo 28% vegetarianas) com idades entre 35 e 69 anos. O estudo apontou que aquelas mulheres que consumiam carne vermelha em maiores quantidades tiveram o seu risco de desenvolver câncer de mama aumentado em até 64%.

Isso acontece porque uma dieta rica em carne é mais rica em gordura saturada, o que favorece um aumento na produção do hormônio estrogênio pelo organismo, cujo excesso está diretamente relacionado à incidência do câncer de mama, por exemplo. Além disso, a cocção da carne forma um composto chamado amina heterocíclicaque está relacionado ao desenvolvimento do câncer. As carnes processadas contêm ainda compostos nitrosos que já demonstraram ter o mesmo efeito de promoção do câncer.

Outro estudo, publicado na revista médica Archives of Internal Medicine, também relacionou o consumo de carne vermelha a um aumento no risco de desenvolver o câncer de mama. Esse estudo envolveu mais de 90 mil mulheres com idades entre 26 e 46 anos que foram acompanhadas por um período de 12 anos. As mulheres que consumiam diariamente uma porção e meia de carne vermelha tiveram dobrado o seu risco de desenvolver câncer de mama quando comparadas àquelas que consumiam apenas três porções ou menos de carne vermelha por semana.

Mas as carnes, em especial a carne vermelha, não é o único produto animal que está no banco dos réus quando o tema é o câncer. Um estudo Sueco publicado em 2005 evidenciou a relação entre o câncer de ovário e o consumo de laticínios. Para cada 13 gramas de lactose consumida (equivalente a um copo de leite), o risco de desenvolver câncer de ovário aumentava em 13%. Investigações anteriores demonstraram que a lactose e a galactose (um produto da digestão da lactose) podem ter um efeito tóxico no tecido ovariano. Em um estudo publicado em 2006, o consumo de laticínios foi também relacionado a um aumento no risco de desenvolver o câncer testicular. Este estudo, que foi conduzido na Alemanha e envolveu mais de 1.000 homens, constatou que aqueles que consumiam mais de 20 porções de laticínios por mês tiveram aumentado em 37% o seu risco de desenvolver câncer testicular. O estudo sugere como culpadas a galactose e a gordura presentes nos laticínios. A relação entre o consumo de laticínios e o câncer de próstata também já foi estabelecida em estudos anteriores.

Além de ter potencialmente reduzida a quantidade de substâncias que favorecem o desenvolvimento do câncer, uma dieta rica em alimentos vegetais também possui uma quantidade maior de substâncias que o previnem. Quando falamos em uma dieta rica em alimentos vegetais, entenda uma dieta vegetariana, que por razões óbvias permite incluir na dieta uma quantidade maior de alimentos vegetais se comparada a uma dieta onívora (que inclui carnes). Uma dieta vegetariana atua portanto por duas vias, pois além de reduzir o estímulo nocivo, ainda aumenta a oferta de substâncias protetoras.

Os componentes dos alimentos vegetais podem prevenir o câncer de diferentes maneiras: eliminando os radicais livres e melhorando o sistema imunológico são dois exemplos, além de serem capazes de reduzir a conversão das substâncias cancerígenas à sua forma ativa.

Os fitoquímicos presentes em alimentos vegetais têm um papel importante na prevenção de algumas formas de câncer, especialmente o de mama. A genisteína, encontrada na soja e derivados, é um exemplo destas substâncias de efeito protetor. Já contra o câncer de próstata encontramos um fator de proteção no licopeno, presente em frutas vermelhas como o tomate, a melancia e a goiaba vermelha. Outras substâncias que dão coloração às frutas e vegetais, chamadas de flavonóides (presentes em abundância no suco de uva e no açaí, por exemplo), também protegem as células contra o câncer. Vegetais como o brócolis e o repolho contêm fatores que previnem o câncer ao favorecerem a remoção de substâncias cancerígenas que se acumulam e concentram no interior da célula. Por ser rica em selênio, a castanha-do-Pará fortalece o sistema imunológico e bloqueia a iniciação e promoção de tumores.

Os alimentos vegetais fornecem uma imensa gama de fatores de proteção que vão muito além das fibras, vitaminas e minerais. Os produtos animais, por outro lado, contêm substâncias que são capazes de promover o câncer. Quanto mais rica em vegetais e mais pobre em produtos animais for a dieta, mais próximos estaremos da prevenção do câncer. Uma dieta vegana, balanceada para garantir a boa nutrição e rica em variedade e cores para garantir a proteção, é a tradução de uma dieta poderosa na prevenção do câncer.



A dieta vegetariana e a prevenção de cânceres do sistema reprodutor

Dr George Guimarães, nutricionista especializado em dietas vegetarianas

Atualmente, se aceita que até 80% dos cânceres sejam causados por fatores que podemos controlar: ambiente, tabagismo, dieta, atividade física, consumo de álcool, exposição a radiações, poluição e medicamentos, sendo que a nutrição é um fator determinante para risco ou proteção. Portanto, é importante considerar junto a outros hábitos de vida saudáveis também a opção por uma dieta vegetariana, pois ela é especialmente poderosa como fator de prevenção.

Muitos estudos já demonstraram a relação entre a incidência de câncer e uma dieta rica em produtos animais. As dietas muito ricas em proteína animal estão relacionadas aos cânceres do intestino, fígado, mama e rins e as dietas muito ricas em gordura (com ou sem proteína animal) estão relacionadas à incidência de cânceres de intestino, mama, próstata, e pâncreas. Para citar um exemplo, a revista médica British Journal of Cancerpublicou um estudo realizado com mais de 35 mil mulheres britânicas (sendo 28% vegetarianas) com idades entre 35 e 69 anos. O estudo apontou que aquelas mulheres que consumiam carne vermelha em maiores quantidades tiveram o seu risco de desenvolver câncer de mama aumentado em até 64%.

Isso acontece porque uma dieta rica em carne é mais rica em gordura saturada, o que favorece um aumento na produção do hormônio estrogênio pelo organismo, cujo excesso está diretamente relacionado à incidência do câncer de mama, por exemplo. Além disso, a cocção da carne forma um composto chamado amina heterocíclicaque está relacionado ao desenvolvimento do câncer. As carnes processadas contêm ainda compostos nitrosos que já demonstraram ter o mesmo efeito de promoção do câncer.

Outro estudo, publicado na revista médica Archives of Internal Medicine, também relacionou o consumo de carne vermelha a um aumento no risco de desenvolver o câncer de mama. Esse estudo envolveu mais de 90 mil mulheres com idades entre 26 e 46 anos que foram acompanhadas por um período de 12 anos. As mulheres que consumiam diariamente uma porção e meia de carne vermelha tiveram dobrado o seu risco de desenvolver câncer de mama quando comparadas àquelas que consumiam apenas três porções ou menos de carne vermelha por semana.

Mas as carnes, em especial a carne vermelha, não é o único produto animal que está no banco dos réus quando o tema é o câncer. Um estudo Sueco publicado em 2005 evidenciou a relação entre o câncer de ovário e o consumo de laticínios. Para cada 13 gramas de lactose consumida (equivalente a um copo de leite), o risco de desenvolver câncer de ovário aumentava em 13%. Investigações anteriores demonstraram que a lactose e a galactose (um produto da digestão da lactose) podem ter um efeito tóxico no tecido ovariano. Em um estudo publicado em 2006, o consumo de laticínios foi também relacionado a um aumento no risco de desenvolver o câncer testicular. Este estudo, que foi conduzido na Alemanha e envolveu mais de 1.000 homens, constatou que aqueles que consumiam mais de 20 porções de laticínios por mês tiveram aumentado em 37% o seu risco de desenvolver câncer testicular. O estudo sugere como culpadas a galactose e a gordura presentes nos laticínios. A relação entre o consumo de laticínios e o câncer de próstata também já foi estabelecida em estudos anteriores.

Além de ter potencialmente reduzida a quantidade de substâncias que favorecem o desenvolvimento do câncer, uma dieta rica em alimentos vegetais também possui uma quantidade maior de substâncias que o previnem. Quando falamos em uma dieta rica em alimentos vegetais, entenda uma dieta vegetariana, que por razões óbvias permite incluir na dieta uma quantidade maior de alimentos vegetais se comparada a uma dieta onívora (que inclui carnes). Uma dieta vegetariana atua portanto por duas vias, pois além de reduzir o estímulo nocivo, ainda aumenta a oferta de substâncias protetoras.

Os componentes dos alimentos vegetais podem prevenir o câncer de diferentes maneiras: eliminando os radicais livres e melhorando o sistema imunológico são dois exemplos, além de serem capazes de reduzir a conversão das substâncias cancerígenas à sua forma ativa.

Os fitoquímicos presentes em alimentos vegetais têm um papel importante na prevenção de algumas formas de câncer, especialmente o de mama. A genisteína, encontrada na soja e derivados, é um exemplo destas substâncias de efeito protetor. Já contra o câncer de próstata encontramos um fator de proteção no licopeno, presente em frutas vermelhas como o tomate, a melancia e a goiaba vermelha. Outras substâncias que dão coloração às frutas e vegetais, chamadas de flavonóides (presentes em abundância no suco de uva e no açaí, por exemplo), também protegem as células contra o câncer. Vegetais como o brócolis e o repolho contêm fatores que previnem o câncer ao favorecerem a remoção de substâncias cancerígenas que se acumulam e concentram no interior da célula. Por ser rica em selênio, a castanha-do-Pará fortalece o sistema imunológico e bloqueia a iniciação e promoção de tumores.

Os alimentos vegetais fornecem uma imensa gama de fatores de proteção que vão muito além das fibras, vitaminas e minerais. Os produtos animais, por outro lado, contêm substâncias que são capazes de promover o câncer. Quanto mais rica em vegetais e mais pobre em produtos animais for a dieta, mais próximos estaremos da prevenção do câncer. Uma dieta vegana, balanceada para garantir a boa nutrição e rica em variedade e cores para garantir a proteção, é a tradução de uma dieta poderosa na prevenção do câncer.



George Guimarães
Nutricionista e ativista pelos direitos animais. Dedica-se à pesquisa, aconselhamento e consultoria em nutrição vegetariana em seu consultório e dirige a NutriVeg Consultoria em Nutrição Vegetariana, onde orienta pacientes vegetarianos ou aqueles em transição para o vegetarianismo. Também dirige as duas unidades do VEGETHUS Restaurante Vegetariano, que promove cursos e eventos com o objetivo de difundir o veganismo. Também ministra cursos e palestras sobre o tema da nutrição vegetariana e veganismo em universidades e para o público em geral. Sua formação em nutrição vegetariana é composta em parte pela participação em congressos científicos e conferências no exterior. É docente da primeira disciplina de nutrição vegetariana em um curso de pós-graduação e tem trabalhos publicados em revistas científicas de alcance internacional. Seja no consultório, na colaboração em estudos científicos ou nos restaurantes que dirige, todas suas atividades profissionais são voltadas para a difusão do veganismo. Desde 2006 dirige o VEDDAS, grupo que vem ganhando destaque no movimento de defesa animal. Vegetariano desde os quatro anos de idade e vegano desde 1994.
Membro fundador da Sociedade Vegana.

Dietas vegetarianas e longevidade: vivendo mais e melhor



Eliminar a carne do cardápio aumenta a longevidade? Esta pergunta vem sendo feita por leigos e cientistas há muitos anos. Enquanto há uma série de evidências que apontam para um “sim” como resposta, há muitas considerações a serem feitas antes que possamos afirmar isto com propriedade científica. Isto porque fatores não-dietéticos também afetam a longevidade e a qualidade de vida e com isso um estudo perfeitamente conclusivo ainda está distante de ser desenhado. No entanto, é vasta a quantidade de evidências, tanto históricas quanto científicas, que apontam no sentido de que a exclusão das carnes da dieta humana resulta em maior longevidade associada a uma melhora na qualidade de vida.

A observação de populações que vivem tradicionalmente com dietas compostas por pouca ou nenhuma carne nos traz boas referências de como uma dieta vegetariana pode aumentar a longevidade. Esse é o caso de populações rurais que vivem em áreas geograficamente isoladas que vão desde o Himalaia ao Equador, da Turquia à Rússia. Nessas populações, que adotam uma dieta com pouca ou nenhuma carne, a expectativa de vida ultrapassa facilmente a média de 70 anos atualmente observada nas populações ocidentais. Em contraste, outras populações rurais que apresentam um desenvolvimento tecnológico semelhante como é o caso dos esquimós e de outras comunidades na África, Groenlândia e Rússia apresentam uma expectativa de vida média de apenas 40 anos. Em todas estas podemos constatar um alto consumo de carnes.

A partir da observação de eventos históricos também é possível comprovar como a redução no consumo de carne afeta positivamente a saúde da população. As I e II Guerras Mundiais são um bom exemplo disto. Durante a I Guerra Mundial, cerca de três milhões de dinamarqueses foram forçados a eliminar quase que completamente a carne de suas dietas. O que se observou foi uma redução equivalente de 6.300 indivíduos por ano na taxa de mortalidade durante o período. Durante a II Guerra Mundial, foi a vez dos Noruegueses e Suecos serem colocados à prova. Durante a ocupação alemã que teve início em 1939, observou-se um declínio na taxa de mortalidade semelhante àquela constatada na Dinamarca durante a I Guerra Mundial. Com a normalização da oferta de alimentos a partir de 1943, as taxas de mortalidade retornaram às mesmas observadas antes do início da guerra.

A simples análise da composição das dietas onívora e vegetariana pode ajudar a explicar como a última promove maior longevidade. Entre os principais componentes das carnes encontramos a gordura, especialmente a do tipo saturada. Diversos estudos já relacionaram de maneira bastante direta o consumo excessivo de gordura saturada ao risco de desenvolver doenças cardiovasculares e o diabetes. Alem das gorduras, alguns compostos presentes nas carnes, como os nitratos e a amina heterocíclica, já foram citados como sendo fatores causais para o câncer e muitos estudos já relacionaram o consumo de carne vermelha à incidência de cânceres de cólon, próstata e mama.

Não é difícil estabelecer uma relação entre um peso corporal apropriado e um aumento na longevidade e qualidade de vida. A constatação de uma menor prevalência de obesidade entre a população vegetariana é clara e nada surpreendente, haja vista por exemplo que uma porção de carne pode conter até o dobro de calorias se comparada a uma porção de um substituto da carne (como o tofu ou uma porção de vegetais protéicos). Outro nutriente cuja redução na ingestão pode afetar positivamente a saúde dos vegetarianos é o ferro. Enquanto uma ingestão adequada deste mineral é desejada para a manutenção da saúde, uma ingestão excessiva de ferro pode ter o efeito inverso. Por ser um elemento altamente oxidativo, o ferro é um eficiente produtor de radicais livres, que são compostos relacionados ao processo de envelhecimento e à incidência de doenças cardiovasculares. A carne é especialmente rica no ferro heme, um tipo de ferro que é até 10 vezes mais bem absorvido do que o ferro encontrado nos vegetais, aumentando assim em muitas vezes o seu potencial nocivo quando consumido em excesso.

Os hormônios, antibióticos, pesticidas e metais pesados presentes nas carnes somam-se à lista de fatores que afetam negativamente a saúde e consequentemente a longevidade daqueles que a consomem. Completam a lista as doenças causadas pela ingestão de vírus, bactérias e parasitas, que vão desde as infecções alimentares causadas por E. coli e Salmonella, a gripes aviárias e doenças da vaca louca e cisticercose. As doenças causadas pela ingestão de carne contaminada, muitas delas fatais, podem ser evitadas ou severamente reduzidas quando a carne é excluída do cardápio.

Havendo visto um pouco sobre os mecanismos pelos quais a ingestão de carnes pode reduzir a expectativa de vida e tendo notado alguns exemplos históricos, resta-nos finalmente saber o que nos dizem os estudos científicos sobre o impacto que a dieta vegetariana tem na longevidade. Estudos importantes apontam com resultados bastante significativos em favor da dieta vegetariana. Em uma análise de 6 grandes estudos prospectivos realizados na Europa e nos EUA, totalizando mais de 109.000 pessoas, podemos notar que quase a totalidade deles demonstra uma redução na mortalidade entre os vegetarianos quando comparados aos seus semelhantes onívoros. Um estudo britânico conduzido com 11.000 pessoas aponta para uma redução de 20% nas causas de morte e alguns estudos estadunidenses mostram números semelhantes. Um estudo conduzido na Itália aponta para uma redução de 45% na mortalidade entre vegetarianos e um estudo alemão realizado com 1.904 pessoas aponta para uma redução de 47% na mortalidade para mulheres vegetarianas e 56% para homens. Estes dados atestam para o poder que têm as dietas vegetarianas como instrumento de redução do risco de doenças e o conseqüente aumento na longevidade e na qualidade de vida.

No campo científico, resta-nos ainda investigar qual é exatamente o aspecto que impacta tão positivamente a saúde das populações vegetarianas: seria o estilo de vida que muitas vezes vem agregado a esta opção alimentar, seria a exclusão das carnes da dieta, seria a inclusão de mais vegetais na dieta (quando tiramos as carnes do cardápio, damos lugar para mais vegetais que trazem consigo elementos protetores como fibras, antioxidantes e fitoquímicos) ou seria ainda uma combinação destas três possibilidades? Para quem já é vegetariano, ou para aqueles que desejam se aventurar por este mundo de descobertas tão diversas (filosóficas, sociais, culinárias), as respostas a estas perguntas não são de maior importância nesse momento. Pois independentemente do tempo que levaremos para poder apontar quais são exatamente os mecanismos pelos quais uma dieta vegetariana oferece maior proteção, as evidências científicas demonstram que, por uma diversidade de fatores, esta opção alimentar, quando praticada com critério, reduz significativamente a mortalidade e o risco de doenças, resultando em um aumento na longevidade e uma importante melhora na qualidade de vida.

George Guimarães
Nutricionista e ativista pelos direitos animais. Dedica-se à pesquisa, aconselhamento e consultoria em nutrição vegetariana em seu consultório e dirige a NutriVeg Consultoria em Nutrição Vegetariana, onde orienta pacientes vegetarianos ou aqueles em transição para o vegetarianismo. Também dirige as duas unidades do VEGETHUS Restaurante Vegetariano, que promove cursos e eventos com o objetivo de difundir o veganismo. Também ministra cursos e palestras sobre o tema da nutrição vegetariana e veganismo em universidades e para o público em geral. Sua formação em nutrição vegetariana é composta em parte pela participação em congressos científicos e conferências no exterior. É docente da primeira disciplina de nutrição vegetariana em um curso de pós-graduação e tem trabalhos publicados em revistas científicas de alcance internacional. Seja no consultório, na colaboração em estudos científicos ou nos restaurantes que dirige, todas suas atividades profissionais são voltadas para a difusão do veganismo. Desde 2006 dirige o VEDDAS, grupo que vem ganhando destaque no movimento de defesa animal. Vegetariano desde os quatro anos de idade e vegano desde 1994.
Membro fundador da Sociedade Vegana.

Dietas vegetarianas: primeiras perguntas e a pergunta mais importante



São muitos os motivos que podem levar uma pessoa a optar por uma dieta vegana. Seja esse motivo a saúde, o meio ambiente, a religião ou os animais, a opção sempre causará mudanças em seu hábito alimentar diário, o que impactará a sua saúde. Por esse motivo, todos os veganos, mesmo os que não fizeram essa opção por saúde, devem observar alguns cuidados nutricionais.

A primeira questão que vêm à mente dos iniciantes é com relação à ingestão de proteína. Questionar a proteína em uma dieta vegana é como um reflexo involuntário, haja vista que a nossa sociedade tende a considerar a carne como sinônimo de proteína, o que não é verdadeiro. As proteínas são formadas por aminoácidos e todos os aminoácidos essenciais à nutrição humana podem ser encontrados nos alimentos de origem vegetal. Todos. O termo aminoácido essencial refere-se àqueles aminoácidos que precisam ser consumidos, pois não podem ser fabricados pelo corpo. Uma vez digerida a proteína e transformada em aminoácidos, o corpo não diferencia se esse aminoácido veio de um animal ou de um vegetal, pois a substância final é uma só.

É fato que existem aminoácidos que só estão presentes na carne, mas esses não são do tipo essencial, ou seja, não precisam ser ingeridos, pois há outras vias para a sua obtenção, como por exemplo a sua fabricação a partir de aminoácidos essenciais. Já que as proteínas podem ser obtidas em uma dieta vegetariana, resta saber quais são os alimentos fonte. Castanhas, nozes, amêndoas, sementes (como a de gergelim e a de girassol), feijões, grão-de-bico, lentilha, ervilha, soja e derivados são todos fontes riquíssimas de proteínas. A chave para conseguir todos os aminoácidos essenciais é variar ao máximo esses alimentos, optando a cada dia por duas ou mais fontes e alternando-as a cada dois ou três dias.

O ferro é tido como outro quase sinônimo da carne, mas isso também não é verdadeiro. É fato que a carne é muito rica em ferro, mas isso não significa que ela seja a única fonte útil desse mineral. O ferro pode ser encontrado em todos os alimentos citados acima (fontes de proteína) e ainda nos vegetais verde-escuros, no melado-de-cana e nas frutas secas. O ferro encontrado nas carnes pode ser mais bem absorvido do que o ferro encontrado nos vegetais. No entanto, o ferro encontrado nos vegetais será mais bem absorvido quando o estoque de ferro estiver baixo, ou seja, desde que haja demanda, o ferro encontrado nos vegetais é mais bem aproveitado, o que o caracteriza como sendo uma fonte adequada. Esse fato pode ser comprovado quando constatamos que a incidência de anemia entre a população vegana não é maior do que a incidência de anemia entre a população onívora.

Se comparados aos ovolactovegetarianos, os veganos têm uma taxa de ferro melhor. Isso porque os veganos excluem da dieta os laticínios, que além de serem uma péssima fonte de ferro, ainda prejudicam a absorção do ferro que possa estar presente em outros alimentos que compõem a refeição.

O cálcio é outro nutriente que à primeira vista pode parecer um nutriente de risco, mas essa preocupação se deriva de outro mito semelhante aos anteriores, que é o mito de que o cálcio seja sinônimo de leite, o que não passa de mais uma confusão. Na verdade, se observarmos a natureza, podemos facilmente constatar que o ser humano é o único animal que consome leite depois de passado o período de amamentação. Mesmo se considerarmos apenas a nossa espécie para essa observação, podemos constatar que há poucos séculos nós não fazíamos uso dos laticínios com a mesma intensidade com que fazemos hoje. Muitas civilizações nativas preservam até hoje o hábito de não fazer uso de qualquer laticínio passado o período de amamentação. Sendo assim, de onde a nossa espécie obteve o cálcio ao longo da evolução? Do mesmo lugar de onde os veganos o obtém hoje em dia. O cálcio pode ser obtido de fontes vegetais como as leguminosas, as oleaginosas, os vegetais verde-escuros, o melado-de-cana e as frutas, em especial as frutas secas. Ou seja, o cálcio pode ser encontrado nas mesmas fontes que fornecem o ferro. Desse modo, contando com fontes exclusivamente vegetais, ao ingerir o cálcio o vegano estará ingerindo também o ferro e vice-versa, o que já não ocorre quando as carnes e os laticínios estão presentes, pois ambos se colocam em único extremo: ou são fontes de ferro, ou são fontes de cálcio.

É justamente esse o motivo que explica o fato de os veganos terem um risco muito baixo de desenvolver anemia, pois os alimentos vegetais são sempre muito ricos em ferro e vêm acompanhados do cálcio. Já o leite é um alimento rico em cálcio e pobre em ferro e a carne tem característica oposta, sendo rica em ferro e pobre em cálcio. Sendo assim, para obter ambos o ferro e o cálcio, o onívoro deve consumir dois alimentos diferentes, ambos ricos em gordura, especialmente gordura saturada, e colesterol, além de serem pobres em fibras e substâncias antioxidantes. A conclusão é que para obter esses dois minerais em uma dieta onívora é preciso comer mais calorias, com mais gorduras e sem substâncias protetoras. Já em uma dieta vegana, esses nutrientes podem ser obtidos nos mesmos alimentos, acompanhados de menos calorias, menos gordura e uma abundância de fibras e substâncias com efeito antioxidante.

A única questão nutricional verdadeira para os veganos relaciona-se à vitamina B12, pois essa vitamina, que é produzida por bactérias, de fato não pode ser encontrada nos alimentos de origem vegetal, sendo necessária a sua suplementação na forma de suplemento oral. Isso não denota uma inadequação da dieta no sentido de ela não ser adequada à espécie humana. Ocorre que ao nos distanciarmos da natureza, deixamos de consumir bactérias em quantidade suficiente, o que é bom por vários motivos de saúde, mas em contrapartida prejudica a ingestão da vitamina B12. a solução p[ara esse problema moderno é o uso de uma solução igualmente moderna, que é a suplementação da vitamina, que pode ser obtida de fontes sintéticas.

Quando uma dieta vegana é praticada com critério, temos essas características positivas e o resultado, além de ter garantida a ingestão dos nutrientes essenciais, é a redução do risco de desenvolver doenças crônicas e degenerativas tais como diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e algumas formas de câncer. Na verdade, já faz mais de 20 anos que a investigação científica acerca do tema das dietas vegetarianas deixou de ter como foco as possíveis carências nutricionais e passou a se interessar mais pelos efeitos protetores da dieta vegetariana. Apesar de ainda prevalecer entre o público leigo as questões acerca das carências alimentares na dieta vegetariana, a investigação científica atual já esgotou o tema em sua maior parte, superando a pergunta “é possível ser vegetariano?” para dar lugar à pergunta “por que os vegetarianos gozam de melhor saúde?”.


George Guimarães
Nutricionista e ativista pelos direitos animais. Dedica-se à pesquisa, aconselhamento e consultoria em nutrição vegetariana em seu consultório e dirige a NutriVeg Consultoria em Nutrição Vegetariana, onde orienta pacientes vegetarianos ou aqueles em transição para o vegetarianismo. Também dirige as duas unidades do VEGETHUS Restaurante Vegetariano, que promove cursos e eventos com o objetivo de difundir o veganismo. Também ministra cursos e palestras sobre o tema da nutrição vegetariana e veganismo em universidades e para o público em geral. Sua formação em nutrição vegetariana é composta em parte pela participação em congressos científicos e conferências no exterior. É docente da primeira disciplina de nutrição vegetariana em um curso de pós-graduação e tem trabalhos publicados em revistas científicas de alcance internacional. Seja no consultório, na colaboração em estudos científicos ou nos restaurantes que dirige, todas suas atividades profissionais são voltadas para a difusão do veganismo. Desde 2006 dirige o VEDDAS, grupo que vem ganhando destaque no movimento de defesa animal. Vegetariano desde os quatro anos de idade e vegano desde 1994.
Membro fundador da Sociedade Vegana.

O que é Educação Vegana?



Desde os primórdios a educação faz parte das relações humanas. O ato de educar (educare, educere) é levar uma pessoa humana de um estado psicofísico ao outro, modificando-a, amamentando-a.

Nosso sistema de ensino modifica, conduz a criança e o adolescente no processo de assimilação de nossa herança cultural, nutrindo-os com aquilo que “acham” que é bom transmitir porque faz parte da tradição.

Alguns valores fazem parte do corpo de conhecimentos necessários para se formar um cidadão crítico e autônomo, os mais citados são: justiça e igualdade. Esse é o objetivo de uma grande porção da literatura pedagógica nas últimas duas décadas, formar cidadãos autônomos e críticos, guiados pelos ideais de justiça e igualdade. O que nossos deuses do campo pedagógico, os docentes (em alguns Estados, verdadeiros bóias-frias da educação) e a quase totalidade dos pais não percebem é o perigo que se corre ao ensinar/transmitir um conceito de justiça e de igualdade restrito aos adultos da espécie humana dotados de razão, consciência de si e linguagem.

É para expandir o ideal de justiça e igualdade para além do “reino dos fins”, e formar cidadãos verdadeiramente críticos e autônomos no sentido grego dos termos que nasce a educação vegana.

A educação vegana é a ruptura com um ensino transmissor de um ideal de justiça restrito e excludente, de um ideal de igualdade fechado nos possuidores da posse plena da razão e linguagem como apregoado pela filosofia moral tradicional.

Educação vegana é o ensino do respeito a todos os animais sencientes. É o ensino de um modo de vida ético cujo princípio é a filosofia dos direitos animais, um modo de vida que reconhece a inclusão dos animais não-humanos na comunidade moral, única forma para que seus interesses sejam respeitados.

Educar para o veganismo é levar o individuo humano do estado de heteronomia moral (ou seja, da lei externa a si, criada há séculos pelos exploradores dos não-humanos) para o de autonomia moral, de coerência ética.

Educação vegana é formação de uma nova consciência, de um novo olhar e interação com o mundo que nos circunda. É um ensino pautado no respeito aos interesses dos não-humanos em não terem suas vidas abreviadas, em não perderem sua “liberdade ou autonomia para buscar livremente os meios para sua sobrevivência,” em não serem objetos de propriedade dos humanos. Educar para o veganismo é formar uma nova geração livre do especismo, consciente de que cada animal não-humano é um indivíduo e que possui valor em si mesmo, independente da espécie que pertence.

Diferente de várias pedagogias anti-racismo e anti-sexismo que no mundo prático infelizmente não tem suas teses aplicadas como deveriam, a pedagogia anti-especismo da educação vegana é vivenciada diariamente pelos representantes desse novo paradigma educacional. É uma práxis vegana. Quem se propõe educar para o veganismo, vive o veganismo.

Leon Denis
Professor de Filosofia da rede estadual de ensino do Estado de São Paulo,autor do projeto Arte Suave na escola e co-autor do projeto Mens sana in corpore sano, pioneiro no ensino de Direito Animal e Veganismo em escolas públicas no Brasil.
Membro fundador da Sociedade Vegana.












Educar para o veganismo: enfrentar ou recuar?



"Como introduzir o veganismo em sala de aula?"

Essa é a questão que intriga uma grande parcela de docentes do Ensino Fundamental e do Médio após sua adoção do modo de vida vegano.

Tendo sempre como norte a definição e importância desse modo de vida ético para todos os seres vivos do planeta, a pergunta que me intriga sempre é outra: "como não introduzir o veganismo em sala de aula?"

Ao folhear os livros de Ciências do Ensino Fundamental e os de Biologia do Médio vejo o veganismo em todos os capítulos e penso: "Ah, se eu fosse um biólogo". O mesmo acontece ao folhear os livros de Geografia. Que ciência formidável, é possível demolir o especismo, tanto com a geografia física quanto com a humana, em especial a geopolítica. História! E a História? Em todas as culturas, em todas as épocas, a supremacia do antropocentrismo sufocando o legado estrategicamente escondido das vozes dissidentes. Língua Portuguesa, Química, Artes, Educação Física... Filosofia, a disciplina que ministro, essa eu exploro bem.

Acredito que na maioria das vezes a preocupação maior dos docentes veganos não é sobre que material didático usar, porque isso, é "mamão com aveia" (popularmente se diz "mamão com açúcar", mas como não sou simpático ao uso desse doce veneno, fico com a aveia). Pois, mesmo com material não vegano é possível dar uma bela aula sobre os direitos animais1.

É visível que o que mais preocupa os docentes veganos é a reação dos colegas de trabalho, da direção da escola e dos pais após o tema ter sido introduzido em aula. Minha experiência particular mostra que qualquer tentativa, a mais sutil que seja de falar de veganismo nas escolas de nível médio será recebida com hostilidade por parte dos outros professores e com represália da direção e dos pais.

Professores e professoras, se vocês são veganos de fato e têm consciência dos "desafios do modo de vida vegano"2, que magnificamente foram apresentados pela eticista Sônia Felipe no lançamento da Sociedade Vegana, qual o temor? O que lhes falta? Coragem?

Coragem é uma das principais virtudes ensinadas por muitas das artes marciais orientais. Em Jiu-Jítsu, por exemplo, coragem é representada pela "arte de não andar para trás"3. Na edição 157 da Gracie Magazine há um artigo sobre essa arte de não recuar perante um forte oponente ou obstáculo. Vemos uma foto de um encontro entre um cão husky siberiano e um urso negro numa floresta coberta pela neve. Diante desse hercúleo obstáculo o husky, diferentemente do que muitos de nós faríamos, não recua um passo no seu trajeto. Como o bravo husky defronte o urso negro, o docente vegano deve posicionar-se com uma base sólida diante do gigantismo do mundo escolar especista e não recuar no propósito de educar para o veganismo. Veganismo também é um esporte de combate.

No caminho do husky havia um obstáculo, um grande obstáculo. Na longa jornada do educador vegano também sempre haverá grandes obstáculos. Enfrentar ou recuar? Seguir ou andar para trás?

Não defendo o confronto direto com o corpo burocrático, docentes e pais especistas. Não recuar não é bater o pé contra a oposição aberta ou dissimulada deles, mas não recuar no objetivo de passar o veganismo adiante.

Em outra arte marcial, o Judô, aprendemos a usar a força do adversário contra ele mesmo. Quando digo que mesmo com material didático não vegano é possível dar uma boa aula sobre os direitos animais, falo fundamentado nesse princípio judoca. Como ainda não dispomos de livros didáticos de todas as disciplinas revisadas de modo a

adequar seu conteúdo ao veganismo, retirando-lhes todo o conteúdo especista, cabe ao educador vegano usar o especismo dessa disciplina contra ela mesma. Como? Mostrando a gritante contradição e incoerência do discurso e afirmações especistas. O antropocentrismo não se sustenta lógica, biológica e filosoficamente.

O educador vegano não pode recuar diante da repressão do corpo burocrático escolar, representante dos pais e dos docentes esquizofrênicos morais. Represálias, coações e ameaças surgirão. No entanto, se o objetivo é educar para por fim ao biocidio defendido pela incoerente moral tradicional. O educador deve começar a praticar "a arte de não andar para trás". Comece com o que é fundamental: muito conhecimento sobre a filosofia dos direitos animais. O conhecimento traz coragem e segurança. Educar para o veganismo é ter coragem de desfazer primeiro as próprias pregas, rugas e dobras morais que a tradição nos legou. Sócrates chamaria de "conhece-te a ti mesmo"; depois é só mostrar maieuticamente as crianças e adolescentes o caminho do modo de vida eticamente refletido.

Acredito que a pergunta inicial sobre como introduzir o veganismo em sala de aula, foi respondida.

Notas

1. Esse não ter material vegano para usar na escola não se aplica à filosofia, mas as outras disciplinas.

2. FELIPE, Sonia T. "A desanimalização do consumo humano: desafios da ética vegana". In: http://www.sociedadevegana.org

3. NOGUEIRA, Raphael. A arte de não andar para trás. Gracie Magazine, Rio de Janeiro, 157, p.24, mar. 2010.

Leon Denis
Professor de Filosofia da rede estadual de ensino do Estado de São Paulo,autor do projeto Arte Suave na escola e co-autor do projeto Mens sana in corpore sano, pioneiro no ensino de Direito Animal e Veganismo em escolas públicas no Brasil.
Membro fundador da Sociedade Vegana.

Limites éticos e práticos dos discursos transversais na defesa do veganismo



Na defesa dos animais, muitos ativistas adotam, de modo irrefletido, uma postura de que vale tudo para convencer as pessoas a se tornarem veganas/vegetarianas. Não se dão conta do quanto essa atitude pode ser prejudicial à sua própria causa, contribuindo para o seu descrédito em função de informações falsas, incompletas ou parciais que são assim veiculadas.

Essa abordagem se vale, quase sempre, de argumentos marginais à questão central envolvida no debate do veganismo e dos direitos animais, que é a ética. Por isso, costumo chamá-los de “discursos transversais”, que entendo como aquele discurso que usa de subterfúgios e mascara ou minimiza a motivação principal do veganismo para tentar ser mais palatável à audiência, conquistando assim mais adeptos.

Trata-se de assunto extenso, pois para cada questão fundamental do veganismo existe uma espécie de discurso transversal. No caso da experimentação animal, por exemplo, muitos privilegiam a discussão sobre os equívocos e riscos da experimentação animal, deixando de lado a questão ética – o aprisionamento, tortura e morte de seres que deveriam ser livres. Aqui, no entanto, vou me concentrar nos exemplos de discursos transversais usados na defesa do vegetarianismo estrito. Naturalmente, a partir dos exemplos que irei mencionar, os veganos poderão recordar outros exemplos de discursos transversais.

A lista de razões não-relacionadas aos direitos animais para ser vegano é enorme, e todas elas têm uma coerência interna. Tentarei sintetizar seus principais argumentos, para em seguida mostrar o que há de problemático em cada um deles.

Saúde e nutrição. Os benefícios de uma alimentação vegetariano são bem documentados, e já têm o respaldo de profissionais e associações importantes – não necessariamente vinculados ao vegetarianismo. É o caso da Associação Dietética Americana, dos Estados Unidos, que declarou que a dieta vegana é segura e saudável, inclusive para crianças, idosos, gestantes e atletas. Eis o link:

www.adajournal.org/article/PIIS0002822303002943/fulltext

Além disso, há também muitos estudos vinculando o consumo de carne a diversos males de saúde, incluindo câncer, diabetes, hipertensão, doenças coronárias.

Meio Ambiente. A criação de animais para corte é ineficiente do ponto de vista econômico e insustentável do ponto de vista ambiental. Gera poluição do solo, de rios e lençóis freáticos e emissão de gases do efeito estufa, além de desperdício de água em toda a cadeia produtiva, da criação do animal ao tratamento da sua carcaça. Além disso, a pecuária está fortemente associada ao desmatamento e conseqüente perda de biodiversidade, pois a produção extensiva requer vasta extensão de terra para produzir uma grande quantidade de carne, assim gerando pressão sobre as zonas florestais ainda existentes. Todos esses danos da pecuária sobre o meio ambiente foram investigados e detalhados no relatório “Livestock’s Long Shadow” (A Longa Sombra do Gado) da FAO, a Organização para a Alimentação e Agricultura, vinculada à ONU. Este relatório pode ser consultado através do link abaixo:

www.virtualcentre.org/en/library/key_pub/longshad/A0701E00.pdf

Problemas sociais. Uma das conseqüências da ineficiência da pecuária, acima citada, é ter sérias implicações na organização da sociedade: concentração de renda, superexploração da mão de obra, dependência das importações de alimentos de países que poderiam ser autossuficientes para alimentar sua população, consequente dependência das flutuações do mercado e seus fatores políticos, além do risco de escassez ao comprometer grande massa de recursos naturais na criação de animais. Alguns chegam mesmo a dizer que a pecuária provoca fome.

Espiritualidade. Reduzi-lo a um só é um recurso simplificador. Existem, na verdade, vários discursos transversais baseados na espiritualidade, que diferem de acordo com a religião que se toma por base. É comum, no caso de espíritas ou hare krishnas, por exemplo, alegar que o ser humano que come animais, come morte, dor, sofrimento, comprometendo a sua evolução espiritual; que o consumo de carne prejudica também práticas como a meditação ou a conexão com formas de vida e conhecimento mais “sutis”. Em outros casos, de acordo com as interpretações, alguns alegam mesmo que o consumo da carne é condenado na Bíblia e outros livros sagrados, e que grandes líderes espirituais como Jesus ou Buda eram vegetarianos.

Somente depois dessas afirmações, lá na nota de rodapé, pode ser que o adepto dos “discursos transversais” venha a mencionar a preocupação ética com os animais. E é assim que os veganos/vegetarianos rapidamente passa a ser associados, pejorativamente, a “naturebas”, “ecochatos” ou “crentes”.

Existem alguns problemas estruturais com esta estratégia de abordagem. A primeira delas é que eles falham em seus próprios argumentos.

Saúde e nutrição. Ninguém nega os benefícios que a dieta vegana pode trazer, menos ainda os riscos do consumo de carne e outros produtos de origem animal. Porém, em primeiro lugar, há o problema desse argumento ter de confrontar-se com um grande contingente de médicos e nutricionistas que defendem o consumo moderado de produtos de origem animal. Estes são profissionais que, por sua formação, detêm uma autoridade que a maioria dos ativistas não possui, mesmo quando são ignorantes em nutrição vegetariana – como em geral é o caso. Além disso, a nutrição não é uma ciência exata, e não há base para argumentar que um consumo muito reduzido de carne ou produtos de origem animal (uma vez por semana? por mês? por semestre? por ano?) não é suficiente para uma pessoa se manter saudável e livre dos riscos do consumo excessivo. Assim, pensaria a maioria dos onívoros, porque iriam recorrer a medidas radicais como a eliminação completa desses produtos?

Meio Ambiente. De novo, o problema pode ser de escala, mais que de estrutura. E se o consumo de animais fosse reduzido? Ou se a tecnologia e a seleção genética – que fatalmente causarão mais violações de direitos – resolverem ou mitigarem os problemas ambientais da criação de animais? Sabe-se que há pesquisas em andamento visando a redução do impacto ambiental da pecuária. O próprio relatório da FAO, acima mencionado, malgrado a extensa lista de danos registrada, não preconiza, em momento algum, o abandono da pecuária por completo e a adoção de uma dieta estritamente vegetariana.

Problemas sociais. Embora de fato a pecuária contribua para diversos problemas sociais, ela não criou nenhum deles. No caso da fome, por exemplo, sabemos que a quantidade de alimento produzida hoje no mundo é suficiente para alimentar toda a humanidade. A criação de animais não faz parte da estrutura do problema, é subsidiária. Os problemas sociais derivam fundamentalmente de fatores políticos e econômicos, e somente nestes campos a solução poderá ser encontrada, na transformação das estruturas de poder e da organização econômica, na distribuição equânime de recursos e renda, e assim por diante. As pessoas não são pobres, desiguais, desprovidas de poder, por comerem carne. Embora, como qualquer outra atividade econômica, a pecuária encerre um elemento de criação de distinções de poder e riqueza, o problema é, aqui, estrutural do capitalismo, não de uma atividade específica. Se o capitalismo fosse vegano, ainda haveria fome, pobreza, desigualdade. Pois continuaria havendo distribuição desigual de riqueza e de recursos, além da assimetrias de poder entre os Estados. Desse modo, todo o discurso transversal dos problemas sociais fica comprometido e se mostra extremamente frágil.

Espiritualidade. Esses discursos transversais esbarra em vários problemas. O primeiro deles, e por si só já suficiente para neutralizar boa parte deles é, como dito, de interpretação. Se há controvérsias sobre como interpretar textos sagrados, ensinamentos de gurus e profetas, etc., dificilmente se conseguirá convencer outra pessoa de que a SUA interpretação é a correta. Especialmente porque as pessoas acreditam naquilo que lhes é mais conveniente e mais adequado à sua forma de agir e pensar de um modo global. Portanto, impulsionar uma mudança requer um trabalho muito mais profundo, de levá-las a questionar seus pressupostos e hábitos, e não apenas de apresentar uma interpretação diferente de ensinamentos espirituais.

O segundo problema é o da veracidade e comprovação. Pode-se dizer que Jesus ou Buda eram vegetarianos, e até apresentar “provas” disso (por exemplo, dizer que o termo “peixe” é uma tradução errada, e que Jesus multiplicou algas). Porém, essas provas não são definitivas e, não havendo nenhum documento fidedigno que comprove as alegações, elas perdem qualquer validade argumentativa.

Um terceiro problema é que vincular o veganismo/vegetarianismo a outro tipo de crença (religiosa, no caso), pode limitá-lo e torná-lo dependente. É comum, por exemplo, vermos jovens que, ao abandonar uma determinada tribo que possui um certo “estilo de vida”, mudam inteiramente seus hábitos – sua forma de vestir, penteado, acessórios, e mesmo alimentação. Se uma pessoa adota vegana/vegetariana por razões espirituais, estará mais propensa a abandonar o veganismo/vegetarianismo se vier a abandonar a fé que motivou essa adoção.

Além disso, é muito comum o uso de subterfúgios para escapar de restrições terminativas. Por exemplo, dizer que só devemos evitar a carne três horas antes da meditação, ou na quaresma, ou Sexta-Feira da Paixão.

Por fim, o dogma religioso pode ser – e geralmente é – antes um entrave do que um convite à discussão do vegetarianismo. O dogma hindu, por exemplo, comanda não o vegetarianismo estrito, mas o lacto-vegetarianismo. Desse modo, convencer um hare krishna a se tornar vegano pode ser tarefa muito mais árdua do que convencer um onívoro que nunca havia parado para refletir sobre as implicações de seus hábitos alimentares. Por isso, penso que é melhor antes evitar por completo o discurso religioso, ao contrário dos demais, que podem ser argumentos subsidiários.

Conclusões. A primeira conclusão a que podemos chegar é que não há razões fortes por trás de nenhum desses argumentos. Mostre a um onívoro que ele pode ser saudável, próspero e viver em ambiente são, comendo só um pouquinho de carne ou produtos animais, e ele jamais irá contemplar ser vegano. Como já ouvi de um onívoro: “Eu não como bacalhau mais que uma vez por ano, mas não quero deixar de comer bacalhau. Gosto de saber que tenho esta opção”. Comer menos carne pode estar no horizonte de um onívoro. Mas do menos ele não vai passar para o zero, a menos que haja uma mudança estrutural na sua mentalidade.

Algumas pessoas poderão até ser convencidas por estes argumentos. Porém, convencer uma pessoa por meio de alegações falsas fará com que ela abandone o veganismo/vegetarianismo assim que for confrontada com alegações que consigam refutar as anteriores, ou simplesmente interpretações distintas que sejam mais convincentes. Se o veganismo/vegetarianismo se funda sobre argumentos frágeis, está mais propenso a sucumbir, mesmo que os contraargumentos também sejam frágeis – e em geral o são. Assim, por exemplo, um vegetariano “pela saúde” por exemplo, muito provavelmente estará propenso a abandonar o veganismo/vegetarianismo em caso de ser acometido de uma doença que rompa com o mito do vegetariano que nunca adoece – substituída, prontamente, por médicos e familiares, pelo mito do vegetariano eternamente sob o risco de adoecer.

É muito provável que a pessoa que se deixe convencer por esses argumentos desista do novo caminho tão logo cessem suas motivações, ou mostrem para ela que “não é bem assim”, o que fará com que se desiluda com a nova descoberta. Muito mais provável que, através dele, ela subitamente desperte para as implicações éticas da exploração animal.

O que nos leva à segunda conclusão. Se torcermos todos os argumentos anteriores até extrairmos o essencial, veremos que todos eles são motivos estritamente EGOÍSTAS: apenas destacam o que há de ruim para o próprio ser humano no hábito de comer carne. Não devemos comer carne e produtos de origem animal, afinal, por que NOS prejudica (espiritualmente, em termos de saúde), ou ao meio em que vivemos – que, no fim das contas, só importa também na medida em que dependemos dele para NOSSO bem estar. Tais discursos, portanto, têm como único efeito reforçar o antropocentrismo que os verdadeiros defensores dos direitos animais devem combater.

Essa é, portanto, a conclusão mais importante, uma vez que, por si só, resume o motivo porque não podemos concentrar nosso discurso nesses argumentos transversais. Como podemos esperar colher maçãs ao plantar bananas? Como podemos esperar que as pessoas se importem com os animais, e os respeitem, ao tirá-los de suas vistas na hora de defender o veganismo? Como podemos esperar derrotar o antropocentrismo reforçando-o com nosso discurso? Não há como.

Daí, claro, podem argumentar (e muitos assim argumentam) que o discurso ético é muito menos palatável, aceito, respeitado. Que o antropocentrismo é tão forte que temos que apelar para ele, pegando os seres humanos onde eles são sensíveis. A minha resposta é que em 20 anos de vegetarianismo vi muitas pessoas deixarem de comer carne por questões transversais - especialmente saúde. Não vi nenhuma delas perseverar. É muito comum que Vegetarianos “pela saúde” ou “pelo meio ambiente” ou “espiritualistas”, por não serem vegetarianos éticos, não seguirem à risca essa dieta. É comum ouvir deles que “não devemos ser radicais”, e assim eles se permitirem a ingestão ocasional de produtos de origem animal – ou seja, não são vegetarianos de fato. Afinal, se não há nada de errado em si em comer animais, que mal há em abrir esta ou aquela exceção em ocasiões especiais?

O que não quer dizer que não possamos usar estes argumentos nunca. Podemos e devemos – usá-los como argumentos auxiliares. É importante que nosso interlocutor saiba, em primeiro lugar, que o veganismo é viável, sua dieta é saudável e saborosa, assim como são viáveis os demais aspectos do veganismo não abordados aqui (por exemplo, demonstrar que a ciência não depende da experimentação animal para progradir). Porém, para que uma pessoa desperte para as razões ÉTICAS do veganismo/vegetarianismo, ela precisará, constantemente, confrontar-se com elas – JUSTAMENTE por causa do antropocentrismo, que funciona como um véu a encobrir a realidade e embotar o raciocínio. A reflexão ética precisa ser estimulada, enfatizada, e não escamoteada.

Assim, nossa última e mais importante conclusão é que a ÉTICA deve ser SEMPRE o fio condutor das nossas conversas sobre veganismo. O que quer dizer que o veganismo/vegetarianismo deve estar apoiado sobre a filosofia dos direitos animais. Veganismo são os direitos animais na prática, nunca podemos nos esquecer disso. Com algum tempo de experiência no ativismo pelos animais, posso garantir que consegui muito mais adeptos com o meu discurso ético, do que em anos tentando disfarçar minha preocupação central pelo medo de não ser ouvido ou aceito. Uma vez que a pessoa rompeu com o padrão antropocêntrico, o retorno é muito mais difícil, bem menos provável. O caminho ético pode ser o mais tortuoso, o menos popular, mas é também o mais bem fundamentado, o mais coerente – e, portanto, o mais duradouro.


Bruno Müller
bfmuller@gmail.com
Bacharel em História pelo Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense, doutorando em História das Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tradutor ocasional de textos acadêmicos (inglês-português). Colunista da Agência Nacional de Direitos Animais. Vegano e ativista independente desde 2007, na cidade do Rio de Janeiro, onde ministra palestras e faz ações de conscientização em prol dos direitos animais.
Membro fundador da Sociedade Vegana



A desanimalização do consumo humano: desafios da ética vegana



Há milênios, humanos possuem animais, usam, escravizam e matam animais para atender a qualquer propósito seu. Há milênios, os humanos inventaram uma ética para justificar a animalização de seus hábitos e servir igualmente a seus propósitos, a ética antropocêntrica. Humanos inventaram não apenas a escravização de animais, alegando que eles são inferiores. Eles inventaram um modo de justificar suas práticas escravizadoras, ao argumentarem que seres inferiores a eles nascem para servi-los, e, por isso, são objetos passíveis de apropriação.

Chegou a hora de redefinir a concepção moral antropocêntrica, colocando-a em seu devido lugar: ela deve limitar-se a conceber os humanos como fonte da moralidade, definindo o fim último da ética como sendo o bem que os humanos podem fazer ao desanimalizarem seu consumo.

Por animalização da alimentação, vestuário, lazer, ciência e linguagem humanas, entendo toda prática levada a efeito às custas do bem próprio, da liberdade e da vida de animais não-humanos e humanos. A ética precisa partir do valor maior impregnado à existência dos seres vivos: poder viver em liberdade.

Na perspectiva ética vegana, humanos perdem o estatuto de proprietários e beneficiários da vida alheia. Reconhecer direitos fundamentais à vida e ao bem próprio de cada ser vivo é o modo razoável de resguardar a singularidade do bem próprio à vida deles, sendo indiferente ao agente moral a espécie à qual o animal pertence. Assumindo uma posição no âmbito do movimento vegano, o indivíduo orienta-se por um sentido positivo de expressão de si, compartilhado pela comunidade formada por outros que também assumem a perspectiva da ética animal não-antropocêntrica como eixo existencial de seu projeto de vida. Olhar os interesses animais com o mesmo respeito com que se olham os interesses humanos exige admitir para si mesmo e afirmar publicamente que a justiça genuína não será alcançada enquanto permanecer amordaçada e algemada por linhas divisórias tirânicas que desqualificam o valor inerente à vida de espécies diferentes da nossa.

A convicção que ilumina a atitude vegana é a de que não se pode ser ético e ao mesmo tempo negar que o bem próprio de outros seres vivos importa para eles, tanto quanto importa o nosso, para nós. Pensar com essa clareza conceitual motiva a agir em prol da construção de um modo de vida que afirma os direitos animais, ecossistêmicos e humanos, sem que, para cada um desses âmbitos tenha-se que forjar uma ética antagonista às demais. Nossa moralidade tem sido pautada até o presente momento sobre uma espécie de tricotomia moral: ela nos ensina a distinguir e discriminar interesses animais e de ecossistemas naturais, ao priorizar e privilegiar os interesses humanos, como se os humanos não fossem constituídos de tecidos, necessidades orgânicas e interesses naturais da mesma ordem em que o são os outros animais.

Ainda que, por um lado, a atitude vegana requeira um conceito claro da finalidade para a qual a ação é orientada, qual seja, resguardar o bem da vida, para todo indivíduo que a vive, sem especismos eletivos, tal radicalidade não inclui a proposta de que o veganismo deva impor-se como um modo de vida aos demais. Cada um de nós tornou-se vegano motivado por ideias, convicções e exemplos recebidos, sem imposição, do legado social e pessoal contra hegemônico. Em vez do padrão autoritário e conservador que tem caracterizado a moralidade até os dias de hoje, o veganismo adota um padrão não impositivo nem proibitivo, embora sua atitude siga com firmeza e coerência a prescrição inerente ao princípio ético fundamental da não-violência contra quaisquer indivíduos vivos.

Reconhecer, à própria biografia, que o uso de produtos de origem animal está definitivamente interditado, é uma conclusão natural para quem não admite que o bem-estar, a felicidade, o prazer ou qualquer outro benefício pessoal na vida, sejam alcançados à custa de dor, sofrimento, privação de liberdade e morte de outros, não importando o formato no qual esse outro aparece na esteira da vida.

Antes de seguir simplesmente a corrente vegana, cada indivíduo precisa entender o propósito dessa escolha, seu desdobramento e consequências. Sem compreender que o veganismo visa exclusivamente a libertação animal de todas as formas de exploração, uso, abuso e assassinato praticadas por humanos, não há uma atitude vegana genuína. Mas, achar que essa conquista será obtida de mão-beijada fere a intuição. A cultura na qual veganos têm que viver é absolutamente animalizada, no sentido exposto acima.

A decisão de tornar-se vegana ou vegano implica disponibilizar-se para enfrentar a própria formatação moral e os embates inevitáveis no âmbito da família, da escola, da atividade profissional e das demais práticas sociais, incluindo nelas o hábito de sair com amigos para comer fora, comprar presentes, organizar festas de final de ano, de aniversário, divertir-se e até mesmo escolher uma profissão.

Entender a natureza do ideal vegano como prescritiva, no sentido ético de ordenar as próprias ações à luz de um princípio moral válido no âmbito da própria biografia, mas não impositiva nem proibitiva à biografia alheia, e compreender que essa natureza deve nortear as ações educativas que visam orientar os demais para a tomada de decisão de tornar-se vegana ou vegano, é um desafio para todos os que ora se reúnem para fundar a Sociedade Vegana. A prescrição maior à qual todos estamos submetidos, a partir da qual as demais serão acatadas, é estabelecida, na Sociedade Vegana, não por fulano ou sicrano, pois isso caracterizaria autoritarismo e impositivismo, pelo princípio ético universal da não-violência, acompanhado da regra da coerência moral pessoal com tal princípio, e da disposição de fazer com que ele ilumine decisões pessoais e grupais a partir desse momento.

Para qualquer ser vivo, a maior violência que se pode cometer é tirar-lhe a liberdade de mover-se para prover-se seguindo o modo que melhor se adequa ao alcance do bem que lhe é próprio. Por isso, a defesa dos direitos animais passa inevitavelmente pela libertação deles de todas as formas de privação da liberdade à qual estão condenados no sistema que os torna objetos de propriedade humana. Não são os veganos quem proíbem outros de usarem animais como se fossem coisas descartáveis. Quem o faz é o princípio ético que todo humano admite como válido quando seu interesse em não ser sequestrado, usado, explorado e assassinado está em jogo. Por submeter-se ao princípio ético, o movimento vegano admite que tal princípio prescreve certas ações, e proscreve outras.

Ao submeter-se a um princípio ético de tal envergadura, o vegano sabe que deve manter-se coerente. Não pode levantar o princípio como escudo para defender-se da violência de outros humanos contra si, e baixá-lo para melhor poder praticar a violência contra outros animais.

Se o ideal normativo maior que prescreve nossa atitude em relação a animais de outras espécies não admite a propriedade sobre sua vida, seu organismo ou quaisquer partes e elementos extraídos e derivados deles, então ele prescreve absolutamente o princípio da não-violência contra eles.

A escravização de humanos foi abominada há quase dois séculos. Para fazer frente ao sistema das práticas institucionais que a fomentava, foi necessário um movimento político abolicionista. A violência da escravização de animais para fins humanos requer um movimento semelhante àquele, de envergadura incalculavelmente maior, pelo número de implicados nela. Semelhante, porque, nesse caso, as vítimas da apropriação não podem libertar-se, não podem juntar forças ou organizar-se para enfrentar a instituição da escravidão. Incalculavelmente maior, pois, no caso da abolição do uso de animais, estamos diante de algo espantosamente disseminado em todas as mentes humanas. O uso de animais não-humanos para atender interesses, necessidades e negócios humanos perpassa todos os âmbitos da produção e consumo de mercadorias e serviços.

A luta vegana não será travada contra inimigos externos, os tradicionais representantes do sistema institucionalizado de escravização de animais, interessados nos lucros que ela representa. A desanimalização de nosso consumo terá que enfrentar a matriz cognitiva e moral instalada em nossas próprias mentes. Formadores de opinião e educadores veganos devem estar cientes disso, e aprender a superar tal matriz cognitiva e moral em si mesmos, desdobrando as pregas nas quais a animalização dos benefícios obtidos pelos humanos tornou-se natural. Ao mesmo tempo, devem indicar caminhos para que outros também possam se desfazer desses hábitos arraigados. Produzir meios para que humanos mal-acostumados à escravização dos animais possam entender o erro moral em se viver às custas deles e tomar a decisão de abolirem de suas vidas os hábitos de consumo que fomentam tais práticas é tarefa central para os que ingressarem na Sociedade Vegana.

O princípio da não-violência prescreve a abolição de todas as formas de destruição praticadas contra seres vivos: mental, verbal e institucional; em outras palavras, a abolição de toda emoção negativa que envolva agressão contra qualquer ser capaz de sentir dor e sofrer; a abolição do uso de argumentos que justificam causar dor e sofrimento a qualquer ser senciente para servir a qualquer propósito humano; a abolição de todas as práticas individuais e institucionais de inflição de dor e sofrimento a esses seres, incluídos os da espécie humana. Ser vegano, portanto, implica em enfrentar o desafio de fazer uma faxina geral e profunda nos próprios conceitos, em erradicar qualquer emoção voltada à destruição dos interesses ou da vida de qualquer animal senciente, e a desassinar o contrato em vigor que nos autorizou moralmente a animalizar, isto é, a fazer uso dos animais, para quaisquer propósitos humanos.

Desdobrar as pregas da moralidade na qual estamos plissados requer coragem e persistência. Quando julgamos ter alcançado um patamar razoável de abolição de produtos de origem animal que antes compunham a cesta básica de nossa aquisição diária, somos confrontados com o fato de que quase todos os produtos da indústria química usados para confeccionar alimentos processados, tecidos, calçados sintéticos e outros itens do uso diário contém ingredientes produzidos com componentes derivados ou extraídos de animais.

A tarefa de desdobrar continuamente as pregas nas quais esconderam de nós a imagem de nossa moralidade animalizada é árdua. Ela representa um embate mental, emocional, espiritual, político, econômico e moral com os padrões ou conceitos forjados em nossa própria mente. A natureza positiva do ideal vegano pode ser melhor expressada na orientação constante que oferecemos às pessoas, na investigação ininterrupta que fazemos dos labirintos pelos quais se espalham em nossa mente conceitos e valores que ora nos dispomos a desanimalizar.

O que melhor um vegano pode fazer para mudar a moralidade vigente, é agir de forma firme e serena nessa busca. O exemplo de atitude vegana na própria biografia é o melhor legado que se pode deixar aos que nos rodeiam e aos que virão em seguida com tal propósito. Impor, ou proibir, não resultará em benefício para os animais que ora se encontram à espera da libertação. Argumentar com firmeza e lucidez, mantendo o princípio da não-violência e o propósito de abolir todo especismo eletivo como metas a serem alcançadas, fazem parte do caráter vegano. Radicalidade, nesse caso, não pode ser confundida com autoritarismo ou impositivismo.

Mas, para que esses três conceitos não sejam confundidos é preciso manter clara a linha divisória que separa as ações morais voltadas à defesa dos animais, impedindo, especismos eletivos, por exemplo, que certos tipos de animais recebam consideração, ao mesmo tempo em que se omite que outros da mesma espécie, mas de gênero distinto continuem a ser escravizados para atender aos negócios humanos, como é o caso de defender a abstenção da ingestão de carnes e silenciar sobre a ingestão de laticínios.

Pode intrigar a tese que defende a natureza prescritiva da ética vegana sem defender que ela seja impositiva ou proibitiva. Crer que prescrições, e não imposições e proibições, sejam o melhor caminho para uma educação moral genuína, produz certa ansiedade. Quem proíbe os humanos de fazerem certas coisas, ou impõe a eles rever os conceitos sobre os quais assentam sua moralidade, não são os veganos, é o princípio ético da não-violência, do respeito pela autonomia dos seres sujeitos de suas vidas, de quem jamais deveríamos ter tirado esse estatuto, em outras palavras, a quem jamais deveríamos ter escravizado.

Ainda que precisemos ser incisivos em nossos argumentos a favor de práticas coerentes para a abolição do uso de animais em quaisquer itens do consumo diário, não precisamos ser autoritários. A argumentação coerente e consistente tem sido acusada de, ou confundida com, autoritarismo. Cai-se, assim, no relativismo moral sob o qual padecem todas as espécies de seres vivos. Confunde-se permissividade com não-autoritarismo. Nessa lógica, o valor da vida dos animais torna-se relativo ao padrão dos interesses e negócios humanos que sofrem danos caso seja abolida a escravização deles. Não ser autoritário não é o mesmo que ser permissivo. Não se admite na própria biografia certos hábitos de consumo. Argumenta-se em público para fundamentar a escolha pessoal. Sugerem-se práticas substitutivas para ajudar outros indivíduos ou grupos a erradicarem o uso desses produtos e serviços. Não se faz as coisas pela metade. Se comer um certo tipo de alimento implica em causar dor e sofrimento aos animais, usados para extração da matéria desse alimento, e se isso não pode ser moralmente defensável, então, pela mesma razão, não é defensável comer qualquer outro tipo de alimento que tenha semelhante origem.

Ao prescrever uma atitude ou ação, o sujeito que o faz admite em si mesmo a capacidade racional. Acatar uma prescrição ética implica em admitir um princípio como universalmente válido, ainda que o modo prático pelo qual esse princípio venha a ser seguido possa variar de cultura para cultura ou de época para época. Admitindo sua própria racionalidade, isto é, admitindo que tem liberdade e inteligência para compreender, reconhecer e seguir uma norma moral, por reconhecê-la como válida, o sujeito imediatamente admite que o mesmo deve valer para os demais que o rodeiam. Prescrever o ideal vegano, nesse sentido, implica em admitir que cada um, munido das melhores informações e com domínio da perspectiva ética animalista, pode chegar à conclusão de que os animais não foram criados para atender aos caprichos e negócios humanos, e sim para viverem espécies de vida que têm singularidade em suas semelhanças e diferenças quando comparada às outras, tanto quanto a tem nossa própria vida.

Quando entendemos racionalmente o por quê de algo ser certo ou errado, queremos que os demais seres racionais imediatamente também o entendam. Mas, a construção da natureza ética nos humanos não se dá num passe de mágica. Mesmo quando temos clareza ética sobre uma série de questões morais, ainda assim relutamos em seguir aquilo que nossa razão nos dá por certo ou verdadeiro. A teia na qual nos enredamos, ao forjarmos o modo de vida antropocêntrico e hostil aos interesses de outros animais, coloca-os na condição de objetos de propriedade. Abrir mão da condição de proprietário e senhor requer força, coragem e desprendimento. Esse é o modo da libertação humana.

O modo de vida vegano precisa ser seguido com plena consciência de que estamos atados à mesma teia na qual os conceitos e valores que desprezam, hostilizam e destruem a liberdade, a autonomia, o bem próprio e a vida dos animais são mantidos por todos nós. O veganismo requer paciência e lucidez, mas, sobretudo, coragem para o enfrentamento. Não para confrontar inimigos externos, mas para enfrentar o próprio padrão mal-acostumado de usar animais para atender às necessidades humanas, não importa se triviais ou cruciais.

Para ser vegano sem ser impositivo, há que fomentar virtudes esquecidas nos tempos atuais. Uma delas é o senso de justiça para além da barreira especista e sexista antropocêntrica. Com tal virtude chegamos ao respeito pelos interesses singulares de seres de outras espécies, e a eles concedemos finalmente a atenção amorosa e a compaixão éticas, requeridas dos defensores da libertação animal que atendem ao que o princípio da não-violência racionalmente prescreve. Sem aquelas virtudes a energia se esvai e o ativismo político em defesa dos direitos animais acaba por não trazer no curto prazo os resultados ansiados.

A par com a virtude no plano individual, os veganos precisam aprender a conviver com os demais, nem sempre antenados na mesma frequência mental e emocional deles. Cada vegano compõe um mosaico de valores e interesses com personalidade única, que encontra um elo comum, o da defesa dos direitos animais e da abolição de todas as formas de sua exploração e morte. Para além da afinidade ética, veganos cultivam também outros interesses. O veganismo não configura, assim, uma ortodoxia existencial. Por isso, les gôuts des autres (o gosto dos outros) e suas preferências precisam ser reconhecidos. Fingir que não temos idiossincrasias atrapalha nossa comunicação e prejudica o vigor que nosso objeto comum, a luta pela abolição de todas as formas de escravização de animais de quaisquer espécies, requer.

A vida nasce livre. Em qualquer que seja seu design, um direito fundamental lhe assiste: o de prover-se nos moldes específicos, orientada pela mente particular que tal modo cria. Não importa o formato no qual o indivíduo nasce. A aparência pode ter muito peso para uma estética especista, para uma moral especista que não reconhece valor a não ser no que tem semelhança conosco, mas não tem peso algum para a ética animalista biocêntrica, pois essa tira o agente moral do centro das atenções. Em seu lugar coloca aqueles que sofrem os desmandos do domínio humano tirânico. Esses são o fim último para o qual a ação moral deve tender.

Os animais não são objetos de propriedade, embora por milênios tenham sido tratados e definidos como tais. Isso se deve ao fato de que, quem os citou pela primeira vez na história como objetos de propriedade, existindo para atender aos negócios, interesses e necessidades humanas (Código de Hamurabi e as Leis de Eshnuna), não encontrou oposição alguma à ideia. De algum modo, os que estavam enredados na teia do poder econômico que o uso de animais permitia erigir, eram os mais interessados em desqualificar o valor inerente à vida de animais e de humanos escravizados. Humanos destituídos de propriedade, e, portanto, do poder que ela confere, estavam e ainda estão na exata condição das demais espécies animais escravizadas. À esses a palavra ou a expressão de sua forma específica de viver não é concedida. Deles, toda a liberdade foi tirada.

Hoje, a história mostra outra face. Já há quem se oponha frontalmente contra o uso de animais, mesmo sabendo que tal uso não será extinto do dia para a noite, de forma mágica, sem requerer trabalho e dedicação dos que a ele se opõem. Os que se posicionam e expressam de forma vegana não estão mais na condição de escravos, embora também não estejam na de senhores. Abdicar do poder tirânico exercido por milênios sobre os corpos, a sexualidade e a vida alheia, é a forma de libertação que os veganos abraçam.

Cabe justamente aos que não ocupam nem a posição de senhores, nem a de objetos da propriedade, provar que é possível abdicar das práticas institucionalizadas de escravização sexual dos animais não-humanos e viver dignamente a vida de um humano. Não esperemos que os animais nos provem isso, nem aguardemos que seus abusadores sexuais o reconheçam. Isso seria o mesmo que esperar que perdessem o gosto de capitalizar lucros animalizados. Somos nós, cidadãs e cidadãos livres da propriedade sobre a vida e a sexualidade de outros seres vivos, que devemos produzir a desanimalização das práticas e negócios humanos.

O projeto de criar uma cultura não animalizada, livre do emprego de animais vivos ou mortos, e sem a dependência de derivados de seus corpos, vivos e mortos, enfrenta o desafio de abolir a produção industrializada de animais para consumo humano, experimentos, lazer e suprimentos. A objetificação de animais só é possível pela dominação sexual que os humanos exercem sobre eles, em outras palavras, pela mecanização do processo reprodutivo.

A natureza reprodutiva de bovinos, suínos, avinos, caprinos e equinos não permite sua reprodução em números que batem recordes em relação a toda reprodução animal conhecida ao redor do planeta. Somente para a exploração da indústria de laticínios, os Estados Unidos e o Brasil contabilizam juntos uma população de aproximadamente 500 milhões de vacas, escravas sexuais, inseminadas mecanicamente ao longo dos 6 a 8 anos de gestação, parto e lactação aos quais são condenadas até exaurirem. Destino melhor não é garantido às galinhas exploradas sexualmente pela indústria de ovos. Ao cabo de 4 anos estão esgotadas. Tanto as galinhas quanto as vacas, exploradas sexualmente pela indústria ovo-lacto, acabam nos matadouros. Não se pode adotar o modo de vida vegano e ao mesmo tempo ignorar a escravização sexual de algumas espécies animais, mantendo-se o especismo eletivo sexista, enquanto se condena a escravização de outras.

A abolição da escravização animal passa inevitavelmente pela abolição das práticas de escravização sexual animal. Não havendo reprodução mecanizada, não há como forçar a nascerem os bilhões de seres produzidos pela indústria de carne, leite e ovos.

O projeto de vida vegano visa ensinar ao ser humano a prover-se de modo não-animalizado, quer dizer, a obter benefícios em sua vida, tais quais saúde, bem-estar e realização profissional, sem que isso represente malefício para os animais. Esse é um desafio à inteligência humana. Enfrentando-o, ampliamos nossa criatividade. É preciso inventar modos veganos de comer, vestir-se, manter-se saudável, curar doenças, divertir-se e processar itens sem componentes derivados de animais.

Se há humanos dispostos a abolirem o consumo de todo e qualquer uso de animais, já não há um poder absoluto, hegemônico e inquestionável de propriedade sobre eles. Embora ainda sejam poucos os humanos que abdicam de usar animais e produtos derivados deles, esses poucos já marcam sua presença no mundo. Formamos uma Sociedade Vegana, uma comunidade dos que traçam sua biografia em torno do eixo da libertação dos animais e da defesa deles como sujeitos de direitos fundamentais, daqueles direitos vinculados à vida, à liberdade e à condição de vulnerabilidade na busca do próprio bem a seu próprio modo.

Se tínhamos algo a que se podia denominar “movimento vegano”, embora não houvesse sido organizado, agora juntamos os projetos e experiências individuais e formamos um leque de ações destinadas à redefinição dos padrões morais nos quais todos fomos formatados. O movimento vegano é, nesse sentido, um movimento ético, político e cultural de proposição e construção de uma cultura moral na qual os animais não serão mais considerados objetos de propriedade, mas, sujeitos de sua vida (Tom Regan). Na condição de sujeitos, cabe a eles direitos fundamentais, tais quais os atribuídos a qualquer humano: o direito à vida, o direito à não privação da liberdade, o direito à reprodução, o direito ao movimento necessário para o provimento nos padrões individuais e próprios de cada espécie. A privação, eticamente injustificável, de qualquer desses direitos, viola a condição de sujeitos de suas vidas, tão inerente à vida animal quanto o é à humana.

Isto posto, resta lembrar que a jornada vegana mal começou, se contamos a rede quase infinita de práticas institucionalizadas de exploração dos tecidos animais para fabrico de itens do consumo humano. Até aqui fizemos o que estava ao nosso alcance, cada um a seu modo, para difundir a ideia de que algo precisa ser revisto no que diz respeito ao estatuto de objetos de propriedade ao qual animais não-humanos estão condenados.

Temos nos abstido de comer alimentos animalizados (industrializados a partir de matéria de origem animal), de usar roupas e acessórios animalizados (fabricados a partir de matéria prima de origem animal), de comprar produtos de higiene pessoal e de limpeza animalizados (compostos a partir de derivados de origem animal e testados em animais), de visitar espetáculos animalizados (montados usando animais como figurantes), de frequentar espaços animalizados (atividades que divertem humanos às custas do sofrimento dos animais). Embora cada um de nós tenha feito tudo isso, ou um pouco disso tudo, individualmente, ainda não nos juntamos para começar a fazer as mesmas coisas de modo coletivo, isto é, político.

Estamos criando nesse momento uma nova cultura. Ao fazermos as coisas esclarecidos na presença uns dos outros, o fazemos com mais poder de disseminação através dos meios de comunicação de massa. Mas, continua a ser essencial para a manutenção dessa energia, fazer tudo visando abolir a escravização dos animais, e conquistar as pessoas para fazerem parte desse projeto ético, cada. Conforme dito acima, o movimento vegano no Brasil dá agora seu primeiro passo, um passo que vai além da difusão do vegetarianismo restrito à questão alimentar.

A partir desse momento, estamos juntos no projeto de remover da consciência humana todo e qualquer traço antropocêntrico que evoque animais como objetos de propriedade e humanos como seus senhores. Tirando-nos do lugar de senhores, tiramos os animais do lugar que os torna vulneráveis à hostilidade, desprezo e destruição, nos moldes do padrão cultural e moral animalizado.

Desafios do modo de vida vegano

1. A paz e não-violência para os animais é o objetivo final buscado pelo vegano e vegana. Qualquer benefício pessoal que possa resultar dessa nova forma de viver é consequência da atitude vegana, não sua finalidade.

2. A justiça social e ambiental são meios para que se alcance a paz e não-violência para todos os seres vivos. A defesa da natureza e sua preservação implica no cuidado atencioso de todas as formas de vida, e na abstenção de tudo o que implica escravização de animais.

3. Os direitos fundamentais animais precisam ser defendidos com a mesma tenacidade com a qual se defendem os humanos.

4. A saúde humana precisa ser assegurada sem a exploração de animais e sua submissão a experimentos.

5. A higiene, limpeza e beleza humanas não podem ser obtidas às custas da vida, do bem-estar e da desfiguração de animais.

6. A pele e a preservação da intimidade do corpo humano não devem ser protegidas às custas da tortura e morte de quaisquer animais.

7. Os nutrientes para o organismo humano devem ser assegurados por alimentos estritamente vegetais, descartando-se a hipótese de usar animais para prover matéria alimentar humana.

8. Da mente humana devem-se erradicar as ideias, conceitos e argumentos que justificam e fomentam o uso de animais. Se não se usa matéria animal para comer e vestir, também não se a usa para falar.

9. Os produtos à venda no mercado mundial devem ser desmontados em sua composição, para que se possa ter ciência dos ingredientes que compõem a alimentação, o vestuário, adornos, cosméticos, material de limpeza, higiene, e todos os produtos da indústria química, das tintas aos componentes high tech, do lazer aos esportes.

10. Aos jovens se deve dizer a verdade sobre a exploração e escravização dos animais. Dos mais velhos se deve cobrar a indiferença em relação ao fato de terem se deixado levar pela propaganda no que diz respeito à melhor forma de prover as necessidades da família.

11. À tradição alimentar e moral animalizada devemos dar um adeus. Desassinar o contrato de expropriação da vida animal é nosso desafio.

12. Dos governantes não há o que esperar na defesa dos direitos fundamentais dos animais, pois a maior parte deles é eleita pelo agronegócio. Via de regra, todo governo é movido pelo capital. Quando se trata de atender à vida em desgraça, especialmente se a desgraça afeta milhões de indivíduos, os governos não sabem o que fazer. Isso vale para a desgraça dos milhões de humanos abatidos por forças às quais não podem fazer frente, tanto quanto para a de bilhões de animais abatidos por forças igualmente avassaladoras.

13. Para tornar-se vegano num mundo animalizado são necessários todos os anos restantes de nossas vidas. Quando nos damos conta de que algum produto ou serviço é oferecido às custas da escravização ou morte de animais, tal produto ou serviço precisa ser dispensado para sempre.

14. O dever positivo direto de respeito aos direitos animais não nos autoriza a negociar unilateralmente nosso padrão de vida contra o direito deles de terem sua vida boa.

15. Ser vegano não é algo estático, de fato não é sequer um estado de ser. É um movimento contínuo, uma luta contínua, não contra alvos externos, mas contra alvos internos. É uma maneira de passar a limpo os arquivos mentais que nos conduzem intuitivamente em nossas escolhas diárias. Ser vegano implica em abrir mão das intuições morais herdadas da tradição e pôr no lugar delas um princípio ético do qual não se abre mão na hora de comer, de ir para a cama, de divertir-se e de instruir-se.

16. Surpresas estão reservadas para os que se tornam veganos. Por detrás de cada dobra de tecido alimentar ou do vestuário, de cada item ou componente dos objetos de uso diário esconde-se a história da exploração, sofrimento e morte de animais não-humanos. Ser vegano é ter disposição para examinar tais pregas e alisá-las uma a uma. Enquanto já nos despregamos de dez ou quinze itens que antes constituíam nosso consumo diário, há quem sequer tenha se despregado de um ou dois deles, carne e laticínios, por exemplo.

17. Vivendo no mesmo plano terrestre dos outros humanos e tendo sido formatados na mesma matriz cognitiva e moral deles, precisamos aprender a olhar para o que eles ainda não fazem, como se fôssemos nós quem ainda não houvéssemos feito coisa alguma. Em vez de apontar para o outro, precisamos apontar para nossas práticas. Se somos coerentes, outras pessoas farão dela um espelho. Se fracassamos, quem mais tem a perder com nosso fracasso são os animais. É preciso abolir a ética animalizada antropocêntrica e em seu lugar construir um modo de vida com base numa ética genuinamente animalista.

[Palestra proferida na abertura da Reunião de Fundação da Sociedade Vegana, São Paulo, 14/03/2010]

Doutora em Teoria Política e Filosofia Moral, pela Universidade deKonstanz, Alemanha (1991). Co-fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC, 1993). Ex-voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis (1997-2000). Autora dos livros, "Ética e Experimentação Animal - fundamentos abolicionistas" (Edufsc, 2006); "Por uma questão de princípios" (Boiteux, 2003). Co-autora de "A violência das mortes por decreto" (Edufsc, 1998), "O corpo violentado" (Edufsc, 1998),"Justiça como Eqüidade" (Insular, 1998, esgotado). Colaboradora nas coletâneas, "Instrumento Animal" (Canal 6, 2007), "Éticas e políticas ambientais" (Lisboa, 2004), "O utilitarismo em foco" (Edufsc, 2007), "Filosofia e Direitos Humanos" (Editora UFC, 2006), "Tendências da ética contemporânea" (Vozes, 2000). Autora de dezenas de artigos editados nos sítios: http://www.svb.org.br/http://www.pensataanimal.net/; e na Revista Ethic@ (http://www.cfh.ufsc.br/ethic@/). Coordena o Laboratório de Ética Prática, do Departamento de Filosofia da UFSC, é professora e pesquisadora do Programa de graduação Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas, da UFSC. Membro Permanente do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e do Bioethics Institute da Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento, Lisboa. Coordena o Projeto de pesquisa: Feminismo ecoanimalista: contribuições para a superação da violência e discriminação especistas, revisando a literatura sobre defesa de animais e ecossistemas produzida por mulheres (Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas, UFSC, 2009-2011).
Membro fundador da Sociedade Vegana.