Zoológicos, por Sergio Greif


Na presente data em que escrevo este texto, 20/08/14, me dirijo à Limeira (SP) para ministrar palestra sobre animais de zoológicos. Trata-se de um tema sobre o qual sempre nos cabe refletir, ainda mais quando são tantas denúncias e tantos incidentes envolvendo esses empreendimentos que nos chegam a cada dia. A noção romântica que muitas pessoas possam ter destes parques está longe da realidade. Estes não são locais de lazer, educação ambiental ou pesquisa, mas de sofrimento interminável para os animais.
Um pouco de história
A visão de animais como “coisas” ou “objetos” a serem utilizados para nossos propósitos não é recente na história humana, e como todas as demais “coisas”, animais parecem ter sido sempre colecionados por seres humanos, mesmo no período pré- histórico. Há sítios arqueológicos pertencentes aos mais variados grupamentos humanos que demonstram a presença de ossadas de animais juntamente a restos humanos, isso mesmo nos casos de grupos que ainda não haviam desenvolvido a agricultura ou pecuária. Os arqueólogos creem que estes animais não eram mantidos por razões econômicas, nem tampouco parecem ter sido aproveitados em alguma refeição.
Possivelmente muitos desses animais eram crias de animais abatidos em caçadas ou pertenciam a espécies que sequer eram caçadas. Eram aparentemente mantidos pelo prazer de mantê-los. Já nas primeiras civilizações, animais selvagens eram transportados vivos de regiões remotas para serem utilizados como moeda de troca por outros itens. Na civilização mesopotâmica, por exemplo, onde o comércio de itens de sobrevivência já havia atingido certa robustez, itens de luxo e entretenimento também tinham seu mercado, entre eles animais vivos.
Não raro os nobres e comerciantes abastados adquiriam leões ou outros animais, os quais mantinham como símbolo de estatus, riqueza ou poder. Quanto mais exótico, feroz ou raro, melhor era. Foi no Egito, na cidade de Nekhen,5.500 anos atrás, que surgiu o primeiro zoológico conhecido na história. Nele eram mantidos centenas de animais entre hipopótamos, elefantes, antílopes, babuínos, felinos selvagens. No entanto, a proposta dessa coleção não era a exibição pública dos animais.
Essa coleção particular servia tão somente ao faraó e à elite egípcia, que podiam acompanhar os animais se caçando dentro dos recintos, já que muitas vezes predadores e presas eram colocados no mesmo recinto. Também, a coleção servia para que o faraó pudesse caçar animais em um ambiente mais controlado, sem se expor demasiado aos riscos inerentes às caçadas. A coleção servia também para demonstrar riqueza e poder aos dignitários estrangeiros.
A faraona Hatshepsut , por volta de 3.500 anos atrás, costumava colecionar animais que eram trazidos como tributo das províncias ao sul, especialmente animais de Punt (Somália) como aves, macacos, leopardos, rinocerontes, girafas, etc. Foi Hatshepsut que abriu o primeiro zoológico para visitação pública e ela o utilizava como demonstração de poder.
Na China antiga, o fundador da dinastia Zhou, Imperador Wen Wang, fundou 3.000 anos atrás um zoológico o qual chamou Lingyou (Jardim do Encorajamento da Inteligência). Tratava-se de 1.500 acres de terra com coleção de animais oriundos de toda a China, incluindo o panda gigante. O propósito de seu zoológico era que a população cada vez mais urbanizada tivesse a oportunidade de conhecer os animais selvagens que ocorriam na região. Kublai Khan, neto de Genghis Khan, no século XIII, expandiu os zoológicos na China,mas de centros de contemplação da fauna transformou-os em anexos para a caça. Kublai Khan, como os mongóis até hoje, apreciava a caça com falcões, cães e em seu caso utilizava também felinos domesticados. Diz-se que possuía 1.000 guepardos de caça e milhares de aves de rapina, e muitas vezes caçava animais de sua própria coleção.
Roma foi a responsável de levar para a região do Mediterrâneo diversos animais pertencentes às suas províncias conquistadas no norte da Europa, África e Ásia Menor. Essas coleções de animais, chamadas de Vivarium eram secundárias frente ao objetivo principal: o massacre de animais nos anfiteatros e arenas. Romanos se deleitavam em assistir a espetáculos onde animais se combatiam até a morte, ou em que seres humanos lutavam contra animais.
O imperador azteca Montezuma (século XVI) mantinha enormes coleções de animais em Tenochtitlán, Teotihuacán,Tlalelolco, Texcoco e Iztapalapánas quais chamava Totocalli (“casa de animais”, em náhuatl). Consistia em conjuntos de construções divididos em espaços onde vários animais eram mantidos cativos para serem usados como sacrifício ou outras finalidades, inclusive para demonstrar poder para os estrangeiros.
O Totocalli de Tenochtitlánpossuía 300 tratadores para cuidar dos animais; possuía tantas aves de rapina que necessitava de 500 perus por dia para alimentá-las. Especula-se que jaguares e pumas pudessem ser alimentados com carne oriunda de sacrifícios humanos. Possuía também uma grande quantidade de serpentes além de 10 lagoas de água doce e 10 lagoas de água salgada. Esses zoológicos aztecas também possuíam uma coleção de homens e mulheres deformados, aleijados, anões, corcundas e albinos.
Já na Idade Moderna, caracterizada pela Renascença, as grandes navegações e o requinte das nobrezas europeias, as coleções de animais ganharam novo impulso. A Europa colonizava a África e a Ásia e descobria a América. Animais exóticos eram trazidos nos navios, juntamente com escravos e outras mercadorias e abasteciam os monarcas, nobres e aristocratas. Em breve, mesmo os monastérios e municipalidades já possuíam sua própria Menagerie.
A maior parte dos animais que não morriam durante a viagem, morria logo após a chegada à Europa, seja por doenças adquiridas durante a viagem, pela má alimentação, pelas instalações inadequadas, seja pelo clima, seja pelo que fosse. Aqueles que adquiriam esses animais não conheciam seus hábitos e isso explica muito do insucesso em sua manutenção.
Animais então eram apenas mercadoria sem valor inerente. Seu preço em dinheiro era determinado com base em beleza, raridade e dificuldade de se trazer à Europa exemplares vivos. Embora uma grande percentagem desses animais morresse no caminho o lucro obtido com a venda dos exemplares vivos garantia a continuidade do negócio.
D. Manuel I, de Portugal, que apoiou os descobrimentos e instituiu monopólios comerciais, praticamente monopolizou também o comércio de macacos e aves que vinham da África e América para abastecer a Europa.Ele mesmo possuía uma enorme coleção de animais no Parque Real, entre macacos, araras e papagaios do Brasil e babuínos, elefantes, leopardos e um rinoceronte da África.
Luiz XIV, o Rei-Sol, construiu por volta de 1665 uma ménagerie no Palácio de Versailles, na França. Essa coleção de animais foi mantida e incrementada ao longo dos anos por seus sucessores, até que em 1789, durante a Revolução Francesa, revoltosos soltaram grande parte dos herbívoros pertencentes à coleção real para que os famintos pudessem caçá-los e comê-los.
Após a Revolução, em 1793, a Menagerie du Parc de Versailles foi transferida para o Jardin des Plantes e aberta ao público. Sendo mantida pelo Muséum National D’Historie Naturelle, essa coleção foi considerada pela primeira vez por critérios científicos. De todas as coleções particulares e zoológicos que foram constituídos na Europa desde o século XVI, o mais antigo que existe até hoje é o Tiergarten Schönbrunn, de Viena, que começou como uma coleção da família Hapsburg, em 1752 e foi aberto ao público em 1779. A própria família imperial austríaca promovia excursões de captura de espécimes na América e África para enriquecer sua coleção.
Na Inglaterra animais exóticos eram mantidos pelo menos desde o século XIII. Leões eram mantidos na Torre de Londres desde 1210. Eram comuns incidentes envolvendo esses animais e pessoas e a manutenção da coleção foi descontinuada no século XIX.
Em 1826 foi fundada a Zoological Society of London, que construiu um zoológico de 16 alqueires no Regent Park, onde ainda se encontra o London Zoo. Curioso que o principal objetivo da Zoological Society of London era identificar novas espécies de animais que pudessem ser exploradas comercialmente pelo ser humano. De fato era de se estranhar que todas as domesticações animais haviam ocorrido tantos milhares de anos antes, e desde então mais nenhuma. O empreendimento, porém, falhou. Nenhuma das espécies estudadas apresentava características zootécnicas que justificassem sua exploração. Para ser justo, a Zoological Society of London apresentou ao mundo o hamster dourado, hoje popular animal de estimação. Foi ela também que cunhou os termos “Zoological Park” e “Zoo”.
Podemos imaginar que tipo de vida era essa que esses animais tinham. Viviam confinados em pequenos espaços, encarcerados em pesadas gaiolas vitorianas, com vários outros animais, vendo os passantes se aproximarem por entre as barras geladas de metal, fazendo barulho, provocando-os, algumas vezes cutucando-os com varas para verem eles se mexerem, vivendo em um ambiente pobre, sujo, fétido . . . Nessa época as pessoas podiam mesmo tocar os animais, alimentá-los.
Os animais passavam o dia assustados. Ou entediados, frustrados. Privados de todas as suas atividades naturais, desenvolviam patologias psíquicas, comportamentos estereotipados ou anormais. Estes comportamentos ainda podem ser observados em animais cativos hoje em dia: Animais que apresentam comportamento repetitivo, andando de um lado para o outro da cela. Animais que se alimentam de suas próprias fezes. Animais que tentam cavar no concreto. Elefantes que balançam a cabeça, macacos que se masturbam compulsivamente, papagaios que se automutilam . . .
Após a transferência da família real e da corte portuguesa para o Brasil, D. João VI, escreveu,em 1819, para o governador de Angola exigindo que todos os navios que partissem para o Brasil deveriam trazer “um viveiro de pássaros esquisitos”. Entre 1819 e 1823 ele recebeu 762 pássaros vivos, mas milhares chegavam mortos. D. João VI pediu também 6 zebras, para diversão dos príncipes, mas elas morriam no caminho.
Expondo seres humanos em zoológicos
Podemos, por essa revisão histórica, ver que animais nada mais eram do que representantes involuntários da extensão do poder dos governantes. Quando um faraó expunha um leão, ou um rei português expunha uma zebra ele de certa forma estava dizendo: “Vejam até onde se estendem meus domínios”. A proposta original das coleções de animais e zoológicos nada mais era do que isso.
O propósito educacional dessas coleções também era distorcido. Elas não ensinavam um senso de reverência pela vida, pelo contrário, ensinavam que a beleza podia ser roubada e mantinha encarcerada. Animais exóticos sempre atraíram multidões, mas isso nada ensinava em relação ao que eles realmente eram. As pessoas não viam os animais como eles são, mas reflexos do que eles são. Acima disso, animais eram vistos como caricaturas de nós mesmos, seres humanos imperfeitos, que estão enjaulados para nos fazer rir e nos lembrar de nossa própria superioridade.
Fato é que, juntamente com essas coleções de animais oriundos dos territórios descobertos e conquistados, também se usava expor seres humanos adquiridos nas mesmas condições. Quando os navegadores se apresentavam aos seus respectivos reis levando amostras das “criaturas” que viviam além do oceano, além dos animais, traziam também alguns exemplares humanos.
Foi assim que os primeiros africanos, asiáticos, americanos e oceânicos chegaram ao Velho Mundo. Pessoas pertencentes a várias etnias eram exibidas em zoológicos e coleções itinerantes, de forma degradante, para satisfazer a curiosidade de um público pagante. Exposições coloniais mostravam ao público europeu frações dos hábitos de vida dos povos conquistados, por esse motivo, esses zoológicos reproduziam as vilas de onde essas pessoas haviam sido tiradas. E exemplares desses grupos eram ali mantidos com suas roupas tradicionais desempenhando atividades que seriam típicas de sua cultura.
Assim, zoológicos de pessoas possuíam vilas que representavam fragmentos de uma aldeia ameríndia ou africana, ou alguma cidade asiática. E seus “habitantes” deveriam entreter os europeus com seus costumes peculiares ou deixando tocar seus corpos tão diferentes. Se o objetivo alegado era promover um melhor entendimento dos europeus sobre outras culturas é claro que isso não podia ser feito dessa forma. Tudo o que essas exposições faziam era degradar o ser humano e “provar” a superioridade cultural europeia.
Merece destaque a história das mulheres da etnia khoisan levadas à Europa para exposição, em especial a história de Saartjie Baartman, que viveu entre 1789 e 1815 e ficou conhecida como a Vênus Hotentote (hotentote era como os khoisans eram chamados pelos africânders; os ingleses os chamavam bushmen e em português eles foram chamados bosquímanos).
Não se sabe ao certo seu nome de nascença, Saartjie (“Sarinha”) foi o nome que os holandeses lhe deram. Saartjie sofria de esteatopigia, possuía nadegas enormes, o que levou à falsa crença de que todas as mulheres hotentotes possuíam a mesma característica. Além disso, ela tinha sinus pudores, enormes lábios vaginais. Em 1810 ela foi levada para a Inglaterra para ser exposta, por um valor a mais era permitido tocá-la nas partes intimas. Em 1814 ela foi vendida para um francês que a expôs ainda mais e a alugava para animar festas, inclusive a de reintronização de
Napoleão Bonaparte (1815), onde a moça sofreu bastante nas mãos dos bêbados. Quando eventos políticos fizeram com que as exposições fossem canceladas, a moça foi obrigada a se prostituir e se tornou alcoólatra, vindo a morrer poucos meses depois. Para lucrar com ela mesmo após sua morte, seu proprietário vendeu o cadáver para o Musée de l’Homme, em Paris.
Exposições de seres humanos persistiram até por volta de 1950, principalmente por meio de circos itinerantes que apresentavam pessoas com deformidades e problemas genéticos (mulheres peludas, gêmeos siameses, anões, gigantes, etc). Após isso, a sociedade passou a considerar esses freak shows como degradantes demais para serem tolerados.
Há uma justificativa para os zoológicos?
O ser humano inventa desculpas para justificar suas más ações. Isso nos cria uma sensação de conforto, ainda que as desculpas sejam pouco convincentes. É fácil verificar que um zoológico não pode ser justificado pelo ponto de vista ético: O que justificaria manter animais selvagens em gaiolas e jaulas? O ser humano cria suas justificativas…
A justificativa de que os zoológicos possuem função socioeducativa, em diferentes variedades de colocações, tem sua máxima na frase “conhecer para preservar”. Isto pressupõe que se não conhecemos algo, não temos interesse em preservá-lo. Talvez essa mesma desculpa tenha sido utilizada no passado para se manter exposições coloniais na Europa. Mas será que a única forma de um europeu criar alguma simpatia por indígenas brasileiros seria manter alguns exemplares vivos de tupinambás em uma exposição?
E embora aquela pequena criança senegalesa exposta em um zoológico em Paris tenha potencial de despertar simpatia dos frequentadores, não vejo como isso possa se refletir de forma positiva quanto à consideração dos interesses dos senegaleses que permaneceram em seu território. Quer essa desculpa que esses poucos exemplares depositados na coleção sejam embaixadores de seus compatriotas na natureza?Isso ignora o fato de que aqueles animais, que de fato tem o potencial de gerar simpatia das pessoas, não são representantes de seus pares na natureza. A despeito do lazer e da curiosidade, o zoológico não cria qualquer espécie de consciência nas pessoas.
Uma criança que vê um elefante em um recinto de fato aprecia o animal, mas a mensagem que ela recebe, ainda que de maneira subliminar, é a de que podemos aprisionar animais. Animais são inferiores e nós somos superiores. E nossa superioridade nos permite capturar um animal na natureza e mantê-lo em cativeiro. Criamos a simpatia pelo animal, mas à medida que o animal se assemelha a nós mesmos.
É aí que quando encostamos ao lado dos visitantes em um zoológico podemos escutar toda sorte de comentários: “Que urso lindo, parece meu tio bonachão”, “Credo, que lagarto horrível” . . . De toda forma, não precisamos dos zoológicos para conhecer os animais, nem acho que o zoológico permita esse conhecimento.
Quando as exposições de animais começaram essa era a única forma de um europeu ver um rinoceronte ou um chimpanzé. A televisão então não existia e se o cinema existia, o que ele mostrava eram filmes onde os animais eram subjugados por algum homem branco criado desde a infância por primatas africanos.
Foi apenas na década de 1960 e 1970 que começaram a surgir documentários sobre vida selvagem que de fato mostravam os animais vivendo em seus habitats. Esses documentários, mais do que qualquer zoológico do mundo, podiam nos apresentar os animais tais como eles eram. Alguém poderia defender que assistir animais pela televisão não tem o mesmo efeito que poder olhar para eles pessoalmente, mas tampouco vê-los confinados em gaiolas pode nos mostrar o que esses animais realmente são. Em termos de educação e respeito, os documentários da natureza e sobre vida selvagem nos ensinam mais do que qualquer zoológico.
Outra desculpa comum para justificar a manutenção de zoológicos é a de que essas coleções são depositárias de animais ameaçados, e talvez representem a solução para o problema de algumas espécies em vias de extinção. Ora, de que adianta manter em um zoológico alguns poucos exemplares de determinada espécie enquanto seu habitat é suprimido? Qual a idéia por trás desse raciocínio? Manter indefinidamente essas espécies em cativeiro sem jamais poder introduzi-las?
Afunilar sua diversidade genética a alguns poucos exemplares representantes da espécie em cativeiro e manter essas populações indefinidamente cruzando entre si? Não vejo aí qualquer sentido nessa espécie de preservação. Preservação de fato é a preservação de um bioma, a preservação da espécie em seu habitat, A preservação da variabilidade genética dentro do grupo. Nada disso se pode conseguir com zoológicos.
A despeito de alguns poucos programas que foram bem sucedidos em introduzir exemplares de zoológicos em vias de extinção em seu ambiente selvagem, mais resultados ainda teriam sido obtidos se parques fossem criados em torno das áreas de ocorrência da espécie antes da mesma ser colocada em perigo de extinção. A pesquisa, outra das justificativas para a manutenção de zoológicos, em grande parte não necessitaria ser realizada no âmbito de uma instituição que mantém animais em cativeiro. Pesquisas de preservação podem ser realizadas com animais em seu ambiente natural. Aliás, melhor que seja assim. A parcela de atividades que demandariam, de fato, animais cativos é justamente aquelas pesquisas que visam aprimorar as formas de manutenção de animais cativos. Há um ciclo vicioso aí.
A outra justificativa que normalmente se fornece para a manutenção de animais em zoológicos é a de que zoológicos representam uma alternativa de lazer barata e, portanto, acessível para parcelas significativas da população. Ora, que fosse um conflito real de interesses, de um lado temos a prisão sem justificativa de animais que nada fizeram para merecer isso, de outro temos pessoas querendo se divertir vendo esses animais, qual interesse deve prevalecer?
Além disso, há tantas outras formas de se divertir de forma acessível que não demandam o aprisionamento de animais, realmente essa é uma desculpa pouco defensável. Entendo que a biofilia, a satisfação em conviver com outras espécies, seja natural ao ser humano, mas para que tal convivência seja saudável é importante que ela seja o mais harmônica possível. Em um passeio pelo Horto Florestal vemos macacos e aves as mais diversas, vemos uma variedade de insetos, vemos patos que apesar de não serem nativos estão ali soltos e se sentem à vontade. Não encontraremos em um parque como este a variedade que se encontra em um zoológico, mas mais do que quantidade devemos primar pela qualidade. Um parque razoavelmente equilibrado, onde se possa observar uma variedade de animais de, talvez, 15 espécies,cada qual desempenhando sua função ecológica, tem um potencial de educação e lazer maior do que um jardim zoológico com uma variedade de 200 espécies acumuladas em pequenos recintos onde as atividades naturais mais elementares estão restringidas.
A vida por trás das grades
Recentemente, o vereador de Goiânia, sr. Zander Fábio Alves da Costa (PSL) propôs a extinção do zoológico local. Sua proposta encontrou oposição desde a população local até o conselho de medicina veterinária. Basicamente a linha de defesa para a manutenção do zoológico foi de que ali os animais não são maltratados. Que ali eles recebem a alimentação correta, água e estão protegidos de predadores. Que se houvessem maus tratos todos saberiam.
Pois bem, é possível que em muitos aspectos a vida de um animal de zoológico possa ser considerada superior á vida de um animal na natureza. Dificilmente em um zoológico atual um impala possa ser caçado por um leão, então pelo menos no que diz respeito á predação os animais estão mais seguros. Também é fato que grande parte das preocupações de um animal selvagem na natureza, ou seja, o forrageamento atrás de alimentos não chega a ser uma preocupação do animal em um zoológico, já que se tudo estiver funcionando bem o alimento aparecerá por uma portinha na hora certa.
As causas de morte e sofrimento da maior parte dos animais na natureza, a predação, a disputa por territórios ou a inanição parecem ser eliminadas quando o animal se encontra em um zoológico. Pelo ponto de vista humano essa pode parecer uma ótima alternativa de vida, mas não podemos analisar a situação de forma tão enviesada. Cada animal possui seu umwelt, sua própria realidade, sua percepção de mundo. Manter organismos em recintos e supri-los com o mínimo para mantê-los vivos é privá-los de todas as demais experiências que lhes seriam naturais. Animais de zoológico que as pessoas podem considerar saudáveis e em ótimas condições não estão vivendo, apenas sobrevivendo.
Portanto, mesmo nos zoológicos considerados referência, que mantém seus recintos limpos, com enriquecimento ambiental, alimentação de qualidade e em quantidade suficiente, os animais que ali vivem não levam vidas plenas. São apenas reflexo do que seriam se estivessem em liberdade.
Dificilmente um zoológico conseguirá prover para os animais ali alojados as condições de vida que eles teriam caso se encontrassem em condições naturais. Um felino solto percorre quilômetros por dia; em um zoológico tudo o que ele pode fazer é percorrer aqueles poucos metros de jaula milhares de vezes em um mesmo dia. Na natureza primatas ocupam seu tempo forrageando, ou catando ectoparasitas uns dos outros, ou explorando seu território; em um zoológico essa possibilidade não existe, os animais passam o dia entediados ou expressando comportamentos anormais e estereotipados (e o que fazer com um macaco que se masturba em frente aos visitantes?).
Elefantes na natureza vivem em bandos de vários indivíduos, que exploram seu ambiente em busca de alimentos e fontes de água; no zoológico alguns poucos exemplares são forçados a conviver em um recinto restrito e apresentam comportamentos estereotipados, como o balanço de cabeça que só ocorre em animais cativos.
E não se pode deixar de notar que os animais que se encontram expostos em um zoológico são apenas uma fração dos animais que ali se encontram abrigados. Para além das jaulas e recintos de exposições, há todo um universo de animais considerados excedentes, apinhados em recintos menores e menos cuidados. Esses animais aguardam por um destino, que seja a venda para outros zoológicos, para colecionadores particulares, para centros de pesquisa que poderão dissecá-los, para fazendas de caça, etc. E por enquanto estamos tratando dos melhores zoológicos. Nos piores zoológicos as denúncias afloram. Apenas no ano de 2013, mais de 500 mil animais morreram em zoológicos de todo o mundo devido a condições inapropriadas às quais foram submetidos. Para nos atermos apenas a fatos mais recentes:
Entre janeiro e março de 2010, 11 tigres siberianos foram deixados morrer de fome no zoológico de Shenyang (China). Argumentou-se que os animais comiam demais. Mas suas carcaças puderam ser aproveitadas, sendo partes destas vendidas a bom preço para abastecer a demanda por produtos derivados de tigres, usados na medicina tradicional chinesa.
O país hoje possui menos de 50 tigres em liberdade e mais de 5.000 em cativeiro e o zoológico de Shenyang não foi o único onde foram encontrados problemas. Em apenas 3 meses de investigação não muito aprofundada o órgão ambiental nacional da China encontrou outros 50 zoológicos que abusavam de animais no país. Igualmente, o zoológico de Surabaya, na Indonésia, foi mundialmente denunciado pelo estado de inanição e miséria em que os animais se encontram. Muitos outros zoológicos, como o Melaca, também na Indonésia, foram denunciados internacionalmente.
E todos se recordam da girafinha Marius, morta em fevereiro de 2014 e retalhada em frente ao público, inclusive crianças, no Zoológico de Copenhagen, para alimentar os leões. Se usou dizer que a girafinha era um animal excedente que poderia cruzar com sua própria mãe no futuro, mas essa desculpa era bastante fraca, pois havia vários interessados em adotar o animal.
Festas às sextas-feiras á noite no Zoológico de Londres já foram denunciadas devido aos abusos cometidos contra os animais. Exceto pelo barulho que em si já estressa os animais demasiadamente, há relatos de pessoas invadindo a jaula dos animais e cometendo abusos. Para citar alguns, uma mulher foi pega agredindo uma ave, um homem foi pego jogando cerveja no tigre, outro foi pego nadando nu na piscina dos pinguins e várias borboletas foram encontradas esmagadas. O zoológico argumenta que as festas são lucrativas, mas podemos perguntar: “E daí?”
No Zoológico Dählhölzli, de Berna, Suíça, um filhote de 5 meses de urso foi morto porque, segundo se alegou, ele sofria Bullying de seu pai. Ora, é natural que machos de ursos não tolerem filhotes, ainda que sejam seus filhos. Ursos são, em geral, animais solitários. O pessoal do zoológico não sabia disso. O ursinho foi morto e empalhado, e exposto ao lado da jaula dos ursos “para que as crianças saibam que a natureza é cruel”. Eis a educação ambiental que se pretende que os zoológicos ensinem.
No Brasil há 110 zoológicos e 13 aquários. Desses, 31 são particulares, 69 municipais, 04 estaduais, 02 do exército e os demais 17 são fundações ou administrações mistas. No Estado de São Paulo são 60 empreendimentos, a maior parte dos quais encontra-se denunciado.
Provavelmente o zoológico que se encontra com maior número de denúncias seja o zoológico de Taboão da Serra (Parque das Hortências), que vinha recebendo enorme quantidade de denúncias devido às péssimas condições em que os animais se encontravam alojados, além de alta taxa de mortandade em pequeno espaço de tempo. O zoológico foi interditado e vários de seus animais foram encaminhados para outros centros, como por exemplo a Associação Mata Ciliar, em Jundiaí, para triagem dos espécimes possíveis de serem reintroduzidos em seu habitat natural. O Bosque dos Jequitibás, em Campinas, foi denunciado pela morte de mais de 10 animais durante o ano de 2013, devido a maus tratos. Além disso, há denúncias contra os zoológicos de Araçatuba, Limeira, Sumaré, Guarulhos, Salvador . . .
No zoológico de Guarulhos, além dos elevados casos de mortes devido ao manejo e instalações inadequadas, foram registrados o desaparecimento de mais de cem animais, possivelmente para abastecer o comércio de animais silvestres e exóticos.
Mesmo no Zoo Safari, onde em tese os animais vivem em uma condição melhor, por estarem soltos e serem os visitantes quem adentram os recintos dentro de seus carros, as condições dos animais são bastante ruins. Funcionários do parque constantemente cutucam-nos com varas ou chicotes para que estes se movam, saiam dos recantos abrigados e embrenhem-se em meio aos carros. Creio até que viver no safári seja mais estressante do que viver no próprio zoológico. Além dessas denúncias devido às condições de manutenção dos animais, há ainda os recentes eventos que ganharam destaque na mídia envolvendo zoológicos, como o caso do garoto que teve seu braço retalhado por um tigre no zoológico de Cascavel e o caso da girafa que morreu enforcada pela corda que suspende seu alimento, no zoológico de Belo Horizonte.
Embora estas sejam fatalidades e no caso do garoto a culpa seja muito mais de seu pai irresponsável do que do zoológico (e muito menos a culpa pode ser atribuída ao tigre, pois é isso que se espera que esses animais façam) tais episódios servem para nos lembrar que zoológicos não devem ser vistos como locais encantados e românticos, mas sim como locais de aprisionamento de animais inocentes.
O que fazer com os animais de zoológicos?
Com freqüência sou confrontado com o fato de que na maior parte dos zoológicos do mundo, e a maior parte dos animais que constituem suas coleções, o que encontramos são exemplares nascidos em zoológicos, ou que chegaram ao zoológico por meio de trocas ente instituições, ou ainda de apreensões de animais do trafico. São então animais já distantes da natureza.
Supondo que essa afirmação seja verdadeira, ainda assim pode-se questionar se zoológicos são a melhor alternativa para lidar com a questão dos animais cativos. Por tudo o que sabemos de zoológicos, sua prioridade é manter coleções de animais, alguns poucos exemplares de cada espécie e o máximo de diversidade de espécies de forma a tornar isso uma exposição interessante para o público. Zoológicos geralmente não provêm aos animais mais do que isso. Eles não se especializam em grupos específicos de animais e em geral não apresentam solução para o problema. São simplesmente coleções de animais vivos e expostos ao público.
Em 2013 a Costa Rica decidiu fechar seus zoológicos estatais. A decisão foi baseada nos princípios que guiam aquela nação: Não é possível se dizer que o país preserva o meio ambiente quando tantos animais encontram-se ainda enjaulados. Assim, a Costa Rica transformou seus zoológicos em jardins botânicos e parques naturais urbanos. Os animais que ali se encontravam foram transferidos para centros de resgate no próprio país, com vistas à sua reintrodução na natureza.
Importante dizer que os zoológicos do país mantinham principalmente animais pertencentes à fauna local, de modo que a reabilitação e reintrodução dos animais no próprio território são mais simples. Poderíamos pensar um mundo inteiro seguindo esse exemplo. Não precisamos de animais em jaulas para conhecer essas espécies, documentários da natureza, livros e passeios no campo ensinam pessoas realmente interessadas no assunto.
Os animais hoje presentes nos zoológicos necessitam ser reabilitados e reintroduzidos na natureza, ou talvez estes sejam matrizes para uma próxima geração de animais que já nasçam sendo preparados para esse propósito. Mesmo animais mantidos por gerações em cativeiro tem potencial de serem introduzidos se o trabalho for bem feito. A maior parte dos animais expressam principalmente comportamentos inatos e uma pequena parcela de comportamentos adquiridos, daí a facilidade de reintroduzi-los na natureza se estes estiverem gozando de boa saúde física.
Já os animais que expressam grande parte de seu comportamento baseado em comportamento adquirido (aprendido) estes podem ser ensinados a viver na natureza. Apenas faz sentido falar em preservação ambiental quando o propósito for a reintrodução dos animais. Isso apenas poderá ser feito se a prioridade for a preservação dos ambientes naturais. Porém, diferente da Costa Rica, a maior parte dos zoológicos do mundo possuem coleções de animais exóticos. É por esse motivo que o movimento pelo fim dos zoológicos deve ser realizado em nível mundial.
No estado atual, se apenas o Brasil resolvesse abolir os zoológicos, seus leões e elefantes possivelmente teriam de ser transferidos para outros zoológicos em outros países, talvez até para parques de caça. As reservas africanas talvez possam não ter interesse em receber esses animais que poderão criar problemas para as populações já instaladas. Além do que a capacidade suporte das reservas existentes pode já ter sido atingida.
Mas no caso de uma abolição dos zoológicos em âmbito mundial, ou de uma política sólida de repatriação de animais entre continentes, os animais seriam distribuídos por uma rede de instituições para centros de reabilitação instalados em cada bioma, e cada um deles desenvolveria um trabalho com vistas à reabilitação desses animais na natureza, ou na reprodução dos mesmos com objetivo de reintroduzir sua prole. Importante que entendamos que nas condições físicas e psicológicas em que muitos dos animais de zoológico se encontram, eles em si jamais possam ser reintroduzidos. Talvez mesmo para o caso de animais hábeis, o processo de reintrodução não terminasse dentro de seu próprio ciclo de vida. Mas possivelmente seus filhotes já nascessem em estado de semi-liberdade e seus netos em estado de completa liberdade.
Uma outra possível alternativa para muitos dos animais que hoje se encontram em zoológicos são os santuários de animais. Santuários de animais, diferentemente de zoológicos, não priorizam a diversidade de espécies. Eles dão abrigo a grande número de indivíduos pertencentes a poucas espécies, e geralmente vivendo em espaços maiores. Santuários também priorizam o bem-estar do animal, e não sua exposição ao público. Santuários podem se especializar em determinados grupos de animais, de modo que isso facilite seu manejo. Eles podem também ser estabelecidos de forma a atingirem certo nível de sustentabilidade econômica, caso não disponham de verbas públicas para sua manutenção (ver Sustentabilidade para Santuários de Animais)
Imagino, por exemplo, que uma enorme fazenda no cerrado pudesse ser transformada em um santuário para grandes herbívoros africanos que por diversos motivos não puderam ser repatriados. Na savana africana zebras, gnus, girafas, rinocerontes, elefantes, búfalos do cabo, avestruzes, antílopes, impalas e outros animais formam bandos mistos, pastando lado a lado de forma harmônica.
De forma bastante controlada essa área poderia receber a visitação de turistas, que não mais visualizariam animais em pequenos recintos, mas animais vivendo em ambientes muito próximos de seu ambiente original. Não seriam os animais que estariam presos, mas os visitantes, dentro de jipes, à semelhança do que ocorre em safaris fotográficos. Importante que tal empreendimento, para ser qualificado como santuário, tivesse o compromisso de continuar preservando o bem-estar dos animais em detrimento das opções de visualização por seres humanos.
Estes santuários não deveriam se transformar em zoológicos com jaulas maiores, nem parques safaris. Os jipes não deveriam se aproximar demasiadamente dos animais, nem persegui-los, nem alterar seu comportamento. Também, nesses santuários os animais deveriam ser todos estéreis, para evitar futuros problemas ecológicos (por tratarem-se de espécies exóticas) ou a perpetuação do empreendimento. A visitação seria apenas uma forma de manter a saúde econômica do santuário, pelo tempo de vida dos animais.
Tenho com frequência tratado do tema “santuários de animais” e muitas pessoas me perguntam se não seriam também estes locais de aprisionamento de animais e sua exposição ao público. É verdade que animais em um santuário encontram-se igualmente presos, mas essa prisão é circunstancial. Muitos desses animais, se fossem simplesmente soltos, morreriam (no caso de animais silvestres) ou causariam problemas ecológicos (no caso de animais exóticos). Mantê-los aprisionados em santuários, em muitos casos, talvez seja a única possibilidade. A reabilitação de animais e sua liberação em áreas de soltura é um processo complexo que atravessa diferentes fases. As aves necessitam aprender a voar em enormes gaiolas voadeiras e após isso são liberadas em campo tendo ainda a alternativa de buscarem seu alimento junto a comedouros instalados por humanos até que consigam completa independência.
Pode se tratar de um processo de anos e por esse motivo esse processo necessita ser sustentável. Se não houverem verbas públicas destinadas para essa causa, penso que uma alternativa seria que esses empreendimentos fossem realizados nas proximidades de hotéis de campo. Os hóspedes poderiam acompanhar o trabalho realizado com a reabilitação das aves, observá-las nos comedouros, em estado de semiliberdade, e vê-las já em liberdade.
Diferente de zoológicos, tais empreendimentos sim teriam um potencial de educação ambiental, preservacionista e científico. Zoológicos são perpetuadores do cativeiro, mas esses empreendimentos funcionariam na direção oposta. Também não cabe o argumento de que tais santuários, devido á limitação de visitação, seriam elitistas. A visitação é mera forma de manter o sistema economicamente viável, de forma alguma é a prioridade de um santuário.
Creio que o futuro dos zoológicos seja o da própria extinção. As desculpas antes utilizadas para sua manutenção fazem cada vez menos sentido e mesmo as reformas cosméticas, que apresentam os recintos com menos barras nas jaulas e mais fossos, menos concreto aparente e mais enriquecimento ambiental, não enganarão as pessoas por muito mais tempo.
No futuro não existirão zoológicos, mas os animais serão tão, ou melhor, conhecidos pelos interessados. Animais não mais serão expostos para curiosos, mas as pessoas poderão visitá-los em reservas e santuários, eventualmente avistá-los em seu ambiente natural. Apenas então poderemos usar a palavra respeito para com os animais com alguma propriedade.

Sérgio Greif - biólogo formado pela UNICAMP, mestre em Alimentos e Nutrição com tese em nutrição vegetariana pela mesma universidade, ativista pelos direitos animais, vegano desde 1998, consultor em diversas ações civis publicas e audiências públicas em defesa dos direitos animais. Co-autor do livro "A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo" e autor de "Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável", além de diversos artigos e ensaios referentes à nutrição vegetariana, ao modo de vida vegano, aos direitos ambientais, à bioética, à experimentação animal, aos métodos substitutivos ao uso de animais na pesquisa e na educação e aos impactos da pecuária ao meio ambiente, entre outros temas. Realiza palestras nesse mesmo tema. Membro fundador da Sociedade Vegana.

Oito Vidas Por Eva





A Eva é apaixonada por animais e entende que qualquer gesto já é um primeiro passo. Por isso, criamos uma coleção especial em prol da Oito Vidas. A ideia é reverter a renda para a ONG e chamar atenção para o abandono e os maus tratos dos felinos. Você pode contribuir como quiser. Seja adotando um gatinho, contribuindo financeiramente com a instituição ou contando tudo para aquela sua amiga louca por gatos!


#OitoVidasPorEva

oitovidas.org.br
insta: oitovidas8
facebbok: oitovidas.8

Nina Rosa apoia Eduardo Jorge para Presidente.

CONCEA reconhece 17 métodos alternativos ao uso de animais e dá 5 anos para substituição


NOTA: Exatamente conforme alertamos, o projeto de lei do deputado Ricardo Izar apenas vem para fortalecer o que o CONCEA pretende, que é perpetuar os testes em animais para cosméticos no Brasil.
Não podendo esperar a aprovação do  do projeto de lei do deputado Izar, que foi escrito pelos coordenadores do CONCEA, o referido órgão publicou a  RESOLUÇÃO NORMATIVA Nº 17, DE 3 DE JULHO DE 2014, totalmente inconstitucional, onde além de autorizar que os laboratórios cometam um crime, pois nossa Lei de Crimes Ambientais considera crime usar animais em testes havendo métodos alternativos, ainda reconhece método alternativos aqueles que reduzam o número de animais. Isso é previsto no decreto regulamentador da Lei Arouca, decreto esse que também é inconstitucional, pois a Lei é clara quando afirma que métodos alternativos SUBSTITUEM O USO DE ANIMAIS, e o decreto em questão define método alternativo aqueles que reduzam, refinem ou substituam.
O projeto de lei 6602/13 do deputado federal Ricardo Izar também autoriza o uso de animais por até cinco anos depois do método alternativo ser reconhecido, e vai tornar sem efeito (excludente de ilicitude) nossa atual legislação atual, que considera crime o uso de animais havendo métodos alternativos.
No momento podemos denunciar no Ministério Público Federal a insconstitucionalidade do Resolução Normativa do CONCEA que autoriza os laboratórios a cometerem um crime. Depois de aprovado o projeto de lei do deputado federal Ricardo Izar, isso não será mais considerado crime.

Saiba como denunciar aqui
Saiba mais sobre isso aqui

Em cinco anos, técnicas devem ser obrigatoriamente substituídas. O conselho ainda precisa publicar a lista no Diário Oficial da União.
O Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) publicou nesta terça-feira (2), um parecer que reconhece 17 métodos alternativos ao uso de animais em pesquisa. A finalidade é a redução, a substituição ou o refinamento do uso de animais em atividades de pesquisa.
O Concea ainda deve publicar a lista no Diário Oficial da União. A partir de então, fica estabelecido o prazo de cinco anos para a substituição obrigatória do método original pelo alternativo. Para calcular o período, a instância projetou o tempo necessário para a adequação de infraestrutura laboratorial e a capacitação de recursos humanos demandadas pelos ensaios substitutivos.
A instância aprovou o documento, por unanimidade, durante sua 25ª Reunião Ordinária, em 21 de agosto. A lista inaugura o novo processo, vigente desde a publicação, em 4 de julho, da Resolução Normativa 17, que dispõe sobre o reconhecimento no Brasil de métodos alternativos validados por entidades como o Centro Brasileiro de Validação de Métodos Alternativos (Bracvam) ou por estudos colaborativos internacionais publicados em compêndios oficiais.
Os 17 métodos reconhecidos pelo documento servem para avaliar:

– Potencial de irritação e corrosão da pele
1) OECD TG 430 – corrosão dérmica in vitro: teste de resistência elétrica transcutânea
2) OECD TG 431 – corrosão dérmica in vitro: teste da epiderme humana reconstituída
3) OECD TG 435 – teste de barreira de membrana in vitro
4) OECD TG 439 – teste de irritação cutânea in vitro
– Potencial de irritação e corrosão ocular
5) OECD TG 437 – teste de permeabilidade e opacidade de córnea bovina
6) OECD TG 438 – teste de olho isolado de galinha
7) OECD TG 460 – teste de permeação de fluoresceína
– Potencial de fototoxicidade
8) OECD TG 432 – teste de fototoxicidade in vitro 3T3 NRU
– Absorção cutânea
9) OECD TG 428 – método in vitro de absorção cutânea
– Potencial de sensibilização cutânea
10) OECD TG 429 – sensibilização cutânea: ensaio do linfonodo local
11) OECD TG 442A – versão não radioativa do ensaio do linfonodo local
12) OECD TG 442B – versão não radioativa do ensaio do linfonodo local
– Toxicidade aguda
13) OECD TG 420 – toxicidade aguda oral: procedimento de doses fixas
14) OECD TG 423 – toxicidade aguda oral: classe tóxica aguda
15) OECD TG 425 – toxicidade aguda oral: procedimento "up and down"
16) OECD TG 129 – estimativa da dose inicial para teste de toxicidade aguda oral sistêmica
– Genotoxicidade
17) OECD TG 487 – teste do micronúcleo em célula de mamífero in vitro
Histórico
Na semana de sua 24ª Reunião Ordinária, em maio, o conselho havia recebido, do Bracvam, a primeira recomendação de métodos alternativos validados e internacionalmente aceitos. A carta do centro sugeria as 17 técnicas reconhecidas pelo parecer, preparado pela Câmara Permanente de Métodos Alternativos, que analisou a proposta com apoio de representantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e dos ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e do Meio Ambiente (MMA).
Sobre o Concea
O Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal é órgão integrante do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), constituindo-se em instância colegiada multidisciplinar de caráter normativo, consultivo, deliberativo e recursal.
Dentre as competências, destacam-se a formulação de normas relativas à utilização humanitária de animais com finalidade de ensino e pesquisa científica, bem como estabelecer procedimentos para instalação e funcionamento de centros de criação, de biotérios e de laboratórios de experimentação animal.
O Conselho é responsável também pelo credenciamento das instituições que desenvolvam atividades nesta área, além de administrar o cadastro de protocolos experimentais ou pedagógicos aplicáveis aos procedimentos de ensino e projetos de pesquisa científica realizados ou em andamento no País.


Agressor de animal é mais propenso a cometer crime


Chefe de operações da PM Ambiental cruzou fichas e descobriu ligação entre violência contra bichos e humanos
Quem tem propensão à violência pode praticá-la tanto contra humanos como contra animais. Essa é uma das conclusões do estudo feito pelo chefe de operações da Polícia Militar Ambiental paulista, o capitão Marcelo Robis Nassaro. Ele analisou uma a uma as 643 autuações no Estado entre 2010 e 2012 por maus-tratos a animais para seu mestrado em Ciências de Segurança e Ordem Pública, defendido em março. O assunto virou livro, Maus Tratos Aos Animais e Violência Contra Pessoas, que ele lança na segunda-feira.
Nassaro inspirou-se em um estudo americano para desenvolver sua pesquisa. Lá, com base em entrevistas realizadas com serial killers, policiais chegaram à conclusão de que assassinos tinham em comum um passado de agressão a animais. "Quando soube disso, passei a entender a questão de maus-tratos a animais não só como algo ideológico, de defesa dos bichos, mas também como questão de segurança pública."
Ele entrou em contato com autores da pesquisa americana, tirou dúvidas de metodologia e decidiu aplicá-la ao contexto brasileiro. Mas, aqui, inverteu a perspectiva: em vez de focar nos assassinos, puxou a ficha dos agressores de animais. E notou que muitos haviam se envolvido em outros crimes.
"Dos 643 autuados entre 2010 e 2012 por maus-tratos a animais, 204 têm outros registros criminais e praticaram um total de 595 crimes." Entre esses, um número alto envolve violência - são 110 lesões corporais, 42 portes ilegais de armas, 21 homicídios ou tentativas, 14 ameaças e 12 roubos.
Nassaro conseguiu identificar o perfil médio do agressor a animais. "Noventa por cento deles são homens, com média etária de 43 anos." A maioria dos casos (73%) envolve animais domésticos - mas o capitão acredita que haja subnotificação nos casos ocorridos nas zonas rurais. Considerando as espécies animais, a lista de vítimas é liderada por galos (por causa das rinhas), seguidos de cachorros, gatos, aves e cavalos.
Lições. O capitão espera que seu estudo sirva como embasamento teórico para que o atendimento prestado pela polícia a essas ocorrências seja melhor. "Fica claro que atender a esses casos é questão de prevenção com relação a outros crimes. E, como muitos casos de maus-tratos ocorrem na família, com crianças assistindo cenas de crueldade, também há a preocupação com a formação de futuros criminosos, gente que cresceu nesse ambiente", analisa Nassaro.
"Meu estudo comprova que onde existe violência aos animais no ambiente familiar, há um cenário de uma família potencialmente violenta, com crianças crescendo sem aprender valores de respeito à vida", explica o capitão. "Uma conduta eficiente da polícia nessas ocorrências é importante, portanto, para evitar que essas pessoas comentam crimes violentos no futuro."

NOTA
Você pode comprar o livro do Capitão Robis "maus tratos contra animais e a violência contra pessoas" aqui. A renda é revertida para o Instituto Nina Rosa


O que há por trás do “desafio do balde de gelo”


Pamela Anderson fez barulho na mídia ao se recusar a participar do desafio do balde de gelo em apoio à ALS Association (Associação contra a Esclerose Lateral Amiotrófica), por conta do seu histórico de financiamento a experimentos animais descritos como cruéis e inúteis.
Continuar fazendo testes em animais é jogar dinheiro pelo ralo.
Continuar com testes em animais é jogar dinheiro pelo ralo.
Seu posicionamento desencadeou uma ampla discussão. A questão que devemos considerar é: Pamela Anderson tem alguma razão?
Como neurologista credenciada, eu acompanho e sou uma das principais investigadoras da pesquisa subvencionada com pacientes com ELA. Eu já – literalmente – chorei com os meus pacientes e os seus familiares quando tive que dar o diagnóstico devastador de Esclerose Lateral Amiotrófica, ou Doença de Lou Gehrig.
Assim como tantas outras doenças neurológicas, a ELA é terrível e devastadora. Eu me compadeço pelas pessoas que vivem e morrem com essa doença. Assistir aos meus pacientes perderem progressivamente o controle das suas funções corporais mais básicas (comer, defecar, respirar) com pouco a oferecer além do meu suporte emocional, é o pior pesadelo de qualquer médico. A única droga disponível atualmente, de tão ineficaz, não vale nem à pena mencionar.
Por que então, após 7 décadas do corajoso embate de Lou Gehrig contra essa doença, e milhões de dólares gastos em pesquisa, não existe um único tratamento efetivo ou cura à vista para a ELA?
A resposta repousa em como o dinheiro (sendo a maior parte dele dos nossos impostos) é gasto. Grande parte do dinheiro de pesquisa tem sido canalizada para os assim chamados “modelos animais” de ELA.
Aí está o problema, conforme eu já discuti anteriormente: a ELA é uma doença exclusivamentehumana. Pesquisadores têm criado artificialmente animais que mostram alguns sintomas que se assemelham a ELA, mas assim como em tantas outras doenças, o “modelo animal” apenas imita alguns dos sintomas da ELA, que além de serem diferentes, possuem outras causas. Assim, esses modelos animais se apresentam como substitutos extremamente pobres para estudar doenças exclusivamente humanas.
Por exemplo, durante décadas pesquisadores voltaram sua atenção ao rato geneticamente modificado SOD1, como “modelo” para o estudo da ELA. Mas no decorrer dos últimos anos, se tornou evidente se tratar de um fracasso retumbante. A doença nesses ratos não é consistente com a forma mais comum de ELA em humanos. Depois de 40 anos usando esse modelo de pesquisa, todas as drogas que foram efetivas nos animais mostraram pouco ou nenhum benefício em humanos. Em outras palavras, os experimentos com os animais falharam de novo.
Percebendo os problemas com o rato SOD1 e a sua pouca relevância para a pesquisa sobre a ELA, os pesquisadores então passaram para um modelo diferente: o rato TDP43. Mas agora, um novo estudo já aponta que o TDP43 difere em características chave da doença em humanos. Por exemplo, em pacientes com ELA, a paralisia ocorre no decorrer do tempo. Mas essa progressão da paralisia não é observada no TDP43. Esse rato normalmente morre de obstruções intestinais, enquanto que humanos sucumbem à perda de massa muscular e falência respiratória.
Não deveria ser surpresa que ratos (ou quaisquer outros animais) manifestam a doença de maneira diferente. A doença é complexa, e mudar uns poucos genes em um organismo biológico ainda mais complexo não reproduz a verdadeira doença.
Para ser justa, esses pesquisadores apontam outros problemas com a utilização desses roedores que (segundo eles, e sem qualquer evidência) podem ser consertados. Mas por quanto tempo continuaremos com isso? Sempre que um novo “modelo animal” é criado, decorrem décadas e milhões de dólares gastos para descobrirmos que o modelo estava errado. Pesquisadores então retrocedem e tentam de novo apenas para criar mais um modelo errado. E assim vai, de novo, e de novo, e de novo.
"Modelos animais" colocam a vida humana em risco.
“Modelos animais” colocam a saúde humana em risco.
Por quanto tempo continuaremos cometendo os mesmos erros? Décadas do mesmo modelo de pesquisa não nos trouxeram a cura. De fato, não nos trouxeram nem mesmo um único tratamento eficaz. Como diz o velho ditado: “Quando você estiver preso em um buraco, pare de cavar”.
Meu maior medo é que talvez nós tenhamos encontrado a cura há muito tempo, mas ela pode ter sido abandonada por conta dos enganosos experimentos com animais. Drogas que funcionariam em humanos podem ter sido descartadas porque não funcionaram em camundongos.
Nós precisamos utilizar nossos fundos de pesquisa com inteligência e estratégia. Quão perto estaríamos de uma cura hoje se ao invés de desperdiçar milhões de dólares em experimentos animais falhos, o dinheiro estivesse sendo usado para métodos de testes com base em humanos, que recriam a doença precisamente?
Enquanto a experimentação animal continua a desperdiçar tempo, dinheiro e vidas apostando com animais, pessoas com ELA se tornaram tão desesperadas que estão se inscrevendo emtestes de drogas não regulamentados, colocando suas vidas em grande risco. E sejamos claros: humanos colocam as suas vidas em risco sempre que tomam um medicamento pela primeira vez após o desenvolvimento com testes em animais, já que mais de 9 em cada 10 drogas consideradas seguras e efetivas em animais acabam sendo perigosas ou ineficazes em humanos.
A escolha aqui não é entre testar em animais ou humanos – e nunca foi. A escolha é entre continuar colocando as vidas das pessoas em risco com base em experimentos animais imprecisos, ou garantir a sua segurança através da utilização de testes mais precisos baseados em humanos antes que as pessoas comecem a tomar os remédios.
Eu certamente estou empolgada que a ELA esteja recebendo a atenção que merece. Mas eu espero a ALS Association pare de jogar pelo ralo as doações de legiões de pessoas generosas em mais experimentos animais fracassados. E é por isso que eu, assim como Pamela Anderson, encorajoa ALS Association a investir o seu dinheiro arrecadado em uma área mais promissora: desenvolver métodos alternativos aos modelos animais, os quais precisamos tão desesperadamente.
Aysha Akhtar é médica neurologista, especialista em saúde pública, e autora.
 Fonte: HUFFPOST SCIENCE
Tradução: Pedro Abreu