Especismo: um mal que endossa o sofrimento animal

Mark Devries, autor do documentário “Speciesism – The Movie” (Foto: Divulgação)

Dias atrás, assisti ao documentário Speciesism: The Movie (Especismo), lançado em 2013 por Mark Devries. E por ser um filme longo que apresenta muitas variáveis e contradições envolvendo o tema, decidi não analisá-lo, mas sim escrever uma matéria baseada nos melhores diálogos e discussões. Ademais, acredito que dessa forma até mesmo quem não é vegano ou vegetariano pode se interessar pelo conteúdo, já que não é preciso despender mais do que minutos.

Embora especistas sejam popularmente conhecidos como pessoas que têm animais domésticos, mas se alimentam de outros animais, há um consenso mais criterioso entre pesquisadores, biólogos, filósofos, professores de direito, advogados e escritores que defendem os direitos animais. Eles apontam que especismo é toda e qualquer forma de exclusão baseada na espécie, quando outros seres são privados de fazerem parte de uma comunidade moral.“Quando você pega essa ideia de que eu posso fazer isso com você, então vou fazê-lo, o auge dessa forma de superioridade, ‘um tipo de racismo’, é o especismo”, afirma Bruce Friedrich, diretor de campanhas veganas da ONG Peta e autor do documentário Meet Your Meat, que já foi visto por milhões de pessoas desde 2002.

De acordo com o famoso biólogo evolutivo Richard Dawkins, professor da Universidade Oxford, a maneira como damos tratamento especial aos humanos em relação ao aborto é uma reafirmação do especismo. “Muitas pessoas pensam que é assassinato abortar um feto humano, e esse pensamento dificilmente é partilhado quando falamos em matar vacas. E, claro, elas têm muito mais capacidade de sofrimento do que qualquer feto humano”, declara Dawkins.

Ele também cita o descaso em relação aos chimpanzés, animais inteligentes que não recebem nenhum tratamento muito ético ou moralmente correto como o dispensado aos humanos. “Suponhamos que descobríssemos uma população nas florestas da África que do ponto de vista evolutivo está entre nós e os chimpanzés, o que faríamos? O que os especistas fariam? Devemos dar um jeito, fazer algo entre a nossa moral e a nossa ética”, alega.

O filósofo australiano Peter Singer, considerado o fundador dos direitos animais após a publicação do livro “Libertação Animal”, de 1975, sugere que os especistas se coloquem no lugar de um escravo do século 18. Uma pessoa naquela sociedade provavelmente diria que não havia bons argumentos para o fim da escravidão, ignorando o sofrimento dos negros.

“É o que acontece hoje com o especismo. De repente, depois de rebaixarem os animais, vão querer dizer: ‘Oh, veja! Se o leão come o antílope, tudo bem eu comer a vaca.’ Mas eu nunca disse que os animais são um tipo de exemplo moral que devemos seguir. Suas ações não são baseadas em escolhas”, pondera. Um ativista, perseguido pelo FBI ao longo de sete anos por libertar milhares de martas que seriam usadas na confecção de casacos de pele, defende que qualquer justificativa contra infringir a lei para salvar animais é primordialmente um argumento especista. “Ninguém argumentaria que seria moralmente injustificado libertar escravos”, assinala.

Um dos maiores equívocos do especismo subsiste na subestimação. E o maior exemplo disso são os porcos, animais tão inteligentes quanto os cães, segundo James Serpell, PhD em ciência veterinária e professor da Universidade da Pensilvânia. “Suínos têm vida social complexa na vida selvagem. Eles formam grupos matriarcais permanentes. E esses mesmos animais ficam enclausurados o tempo todo. São criados para serem mortos, resumidos a carne, bacon”, pontua.

E quando grávidas, as porcas normalmente passam os quatro meses de gestação em pequenas gaiolas de 2m x 0,6m, onde conseguem apenas levantar e deitar, já que não há espaço para dar uma volta dentro da própria prisão. E com o tempo, os suínos se tornam cada vez menos sensíveis aos estímulos ambientais. É um comportamento catatônico análogo ao de pessoas com depressão severa.

“Com certeza é bem mais forte do que seria em um ser humano”, garante Serpell. Comum em qualquer lugar, a castração é outro exemplo doloroso de mutilação impingida aos porcos, realizada sem anestésico. A prática consiste em usar um bisturi para rasgar e abrir. Então os testículos são removidos e o porquinho grita em agonia, algo que jamais seria feito sem anestesia em um cão ou gato, por exemplo.
Para Rick Dove, da Neuse Riverkeeper Foundation, sediada na Carolina do Norte, é surpreendente a quantidade de pessoas que acordam pela manhã e comem seu bacon como se não houvesse problemas no campo, no mundo. “Há um grande problema. Eles são feitos em fazendas industriais, onde os porcos nunca veem a luz do dia, onde vão do tamanho de um punho a 115 quilos em cinco meses”, reclama.


Sobre a situação das aves poedeiras e de corte, James Serpell relata que milhares de galinhas são mantidas em um mesmo galpão. Pelo fato de serem numerosas e densamente estocadas, elas ciscam umas sobre as outras e também se bicam. Selecionadas para comerem mais do que podem, engordando com celeridade, ficam muito pesadas antes que seus ossos endureçam. “São jovens e têm os ossos macios. E o que acontece então é que elas sofrem com graves fraturas, artrite e osteoartrite. Tornam-se mancas até que ocasionalmente param de andar, ficando apenas sentadas no chão”, revela o professor de ciência veterinária da Universidade da Pensilvânia.

Após realizar dezenas de investigações, o diretor executivo da ONG Mercy For Animals, Nathan Runkle, que costuma enviar espiões para acompanhar o funcionamento de fazendas e agroindústrias, descobriu que é muito comum encontrar animais vivendo em condições deploráveis, deixados para morrer sem cuidados veterinários.

“Sempre encontramos aves presas ou entaladas nos arames das gaiolas, e o ferro solto entra na pele delas e rasga. Elas morrem nessas condições. Seus corpos são deixados para apodrecer ao lado de aves que ainda produzem ovos para consumo humano. Nas fazendas de produção de leite, há tanto estrume que as vacas caem sobre as próprias fezes e se machucam. Além disso, encontramos porcas grávidas com ossos quebrados, feridas abertas. É algo que as indústrias querem que você acredite que se trata de fato isolado. Mas sabemos que isso é rotina, simplesmente faz parte dos negócios”, denuncia.

Quem também conhece muito bem o sofrimento dos animais é a ativista Terry Cummings, diretora do santuário animal Poplar Spring, situado em Poolesville, Maryland. Ao longo de anos cuidando de animais maltratados em fazendas e agroindústrias, ela aprendeu que, assim como os seres humanos, cada animal tem a sua própria personalidade.

“Alguns são tímidos, alguns gostam de ser paparicados e outros gostam de ser abraçados. Temos uma galinha enorme que passou a maior parte da vida em uma gaiola. Ela é muito doce, come na sua mão. Nós a agradamos com milho e uva. E temos outra [ela não anda mais por causa do comprometimento das articulações durante o processo de engorda] que tem uma melhor amiga chamada Sílvia. Ela choramingou um pouco porque a tirei do celeiro enquanto Sílvia ainda estava lá. Elas gostam de fazer tudo juntas”, narra sorrindo.

Pesando todos esses fatores, o professor de direito da Universidade Estadual de Nova Jersey, Gary Francione, acredita que o veganismo deve ser a linha mestra do movimento em defesa dos animais. “Penso, empiricamente, que pode haver mais sofrimento em um copo de leite ou um pote de sorvete do que em um quilo de bife. Claro que todos são produtos de tortura, e quanto a isso não há distinção, mas os animais usados na indústria de laticínios são mantidos vivos por mais tempo, logo sofrem mais”, conclui.

Sheryl Cole, professora de direito da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York, diz que a dor mais terrível que uma mãe pode sentir é a da separação de um filho. “E isso é rotina nos laticínios. Se você tiver que ir por esse caminho para sobreviver, não consigo imaginar como consegue viver consigo mesmo”, lamenta.

Na mesma esteira segue a reflexão de James Serpell que qualifica as emoções dos animais como muito mais intensas do que a dos seres humanos, e simplesmente porque, ao contrário de nós, eles não são capazes de racionalizar o que sentem. “Eles não conseguem filtrá-las. Nós subestimamos o tempo todo a capacidade dos animais”, endossa.

Mesmo com tantas informações disponíveis, não é difícil encontrar especistas alegando que vegetarianos e veganos também estão se alimentando de outros seres vivos. Sobre isso, Jonathan Balcombe, PhD e coordenador do Departamento de Estudos Animais da Humane Society of the United States, sediada em Washington, deixa claro que não é preciso se preocupar com as plantas porque não são organismos sencientes. “A evolução não as equipou com a necessidade de sentir dor ou prazer. E nós entendemos a mecânica de fluidos pela qual a flor segue o sol pelo céu, por exemplo, assim como entendemos o motor do funcionamento de um carro”, esclarece.

Fonte: David Arioch

Veganismo não é o bastante


O veganismo é insuficiente porque os animais não humanos livres e não oprimidos pelos seres humanos ainda são profundamente oprimidos e violentados pela natureza – apenas mudar hábitos de consumo e libertar os animais escravizados não basta. O veganismo diz respeito basicamente a obrigações negativas para com os animais não humanos, ou seja, obrigações do tipo não-fazer: não aprisionar, não estuprar, não bater, não esfaquear, não chicotear, não aterrorizar, não torturar, não queimar, não matar. É preciso que ativistas da causa animal entendam que todas essas obrigações, que parecem muitas, na verdade não são o máximo que podemos fazer – são apenas o mínimo do mínimo que podemos fazer pelos animais não humanos.
Veganismo é importante, mas representa somente uma pequena parte do que significa assumir uma postura antiespecista1. O veganismo não é um ápice moral que alcançamos apenas mudando alguns hábitos de consumo – tais mudanças comportamentais apenas nos ajudam a cumprir nossas obrigações negativas para com os animais não humanos, mas não garantem que estamos, de fato, assumindo uma postura antiespecista.
O antiespecismo preconiza que, além de várias obrigações negativas, devemos assumir também obrigações positivas com relação aos animais não humanos – da mesma forma como assumimos tais obrigações com relação aos demais seres humanos. O que fazer, então, pelos animais não humanos de maneira proativa e visando reduzir os danos naturais que os vitimam? Dar alimento aos que passam fome, dar água aos que sentem sede, resgatar os acidentados, cuidar dos feridos, dar remédio aos doentes, dar abrigo aos desprotegidos, amparar os órfãos, confortar os aflitos, fornecer atendimento médico e odontológico preventivo e curativo, aplicar vacinas, desenvolver contraceptivos seguros, reduzir dramaticamente a mortalidade infantil, reduzir o medo e o stress e aumentar o bem-estar geral dos bebês, dos adultos e também dos indivíduos idosos.
Todas essas são apenas algumas das muitas ações que podemos fomentar para melhor defender os interesses que os animais não humanos têm em não sofrer2 e também em desfrutar de suas vidas. Se nosso objetivo é alcançar um estado de justiça e bem-estar para todos os seres sencientes3, o ativismo antiespecista precisa trabalhar para muito além do fechamento dos matadouros e dos laboratórios de vivissecção – precisamos garantir que conhecimento científico, recursos financeiros e tecnológicos possam ser distribuídos da maneira mais eficiente e igualitária possível dentre os seres sencientes – ou seja, todas as coisas que há muito tempo beneficiam os seres humanos e nos ajudam a sobreviver melhor em um planeta repleto de hostilidades precisam deixar de serem consideradas privilégios apenas da nossa espécie.
Notas
1. Especismo. Especismo é dar consideração moral diferente a diferentes seres sencientes devido a razões injustas. Mesmo quando os animais não humanos não são explorados, ainda assim são discriminados porque eles não são levados em consideração de maneira séria. In: Ética Animal. Disponível em: <http://www.animal-ethics.org/especismo-pt/>. Acesso em 21 abr. 2016.
2. O interesse em não sofrer. Existem muitos animais não humanos que podem sentir prazer e dor. Isso se deve ao fato de, tal como os humanos, possuírem a capacidade de ter experiências. O sofrimento é ruim por definição, mesmo quando conduz a algo positivo. O sofrimento dos animais não humanos deve ser levado em conta, assim como gostaríamos que o nosso próprio sofrimento o fosse. In: Ética Animal. Disponível em: <http://www.animal-ethics.org/interesse-sofrer/>. Acesso em 21 abr. 2016.
3. O argumento da imparcialidade. O argumento da imparcialidade afirma que o especismo é incompatível com a justiça. Pode ser apresentado contra qualquer tipo de posição que mantenha que está justificado tratar pior animais não humanos do que seres humanos. Segundo o argumento da imparcialidade, manter tal posição é uma forma de discriminação. In: Ética Animal. Disponível em: <http://www.animal-ethics.org/argumento-imparcialidade/>. Acesso em 21 abr. 2016.

Dias Fernandes: “Fazer mal aos animais é indício de mau-caráter”



Teria uns 45 anos. Frugal e vegetariano, nem fumava, nem bebia. Apresentava um aspecto juvenil de atleta, mantendo a forma através da ginástica sueca. Era alvo e corado, o cabelo esvoaçante, castanho claro. Algumas vezes ostentava petulante monóculo nos olhos azuis. Foi quem inaugurou andar sem gravata e sem chapéu. Com essas palavras, o intelectual Osias Gomes narra a chegada do jornalista, escritor e ativista vegetariano Carlos Dias Fernandes à redação do jornal A União, de Parahyba do Norte, atual João Pessoa, em 1919. Gomes dizia que Fernandes era o maior poeta da Paraíba, inclusive considerava seu trabalho superior ao de Augusto dos Anjos.

E para além das preferências pessoais, de acordo com o jornalista paraibano Gonzaga Rodrigues, Fernandes fez do Jornal A União uma escola de jornalismo por onde passou quase toda a juventude intelectual das primeiras décadas do século 20. Era muito admirado e respeitado, e justamente porque destoava da maioria. Não se importava com casamento formal, tinha uma dieta avessa à das pessoas com quem convivia, gostava de atividades físicas, se vestia sem atender as normas sociais e possuía imensa bagagem cultural.

“Aos 15 anos, segundo testemunho de Castro Pinto, amigo de infância, Carlos Dias Fernandes confundia os professores na análise gramatical dos mais difíceis trechos de Os Lusíadas. Foi influenciado por Cruz e Sousa [de quem era muito amigo] e esteve ao lado de outras diversas personalidades jornalísticas e poéticas do cenário brasileiro. Atuou na imprensa de Pernambuco, do Rio de Janeiro, do Pará e da Paraíba. Sua obra é extensa e variada, abarcando romances, discursos, poesias, monografia e livro didático”, informa a pesquisadora Fabiana Sena.

Embora hoje não seja muito conhecido fora do meio literário paraibano, o satírico e prosaico Fernandes lançou importantes obras, como Solaus, de 1901; Palma de Acantos, de 1907; A Renegada, de 1908; O Cangaceiro, também de 1908; Mirian, de 1920 e A Vindicta, de 1931. No entanto, se suas qualidades literárias não fizeram dele um autor famoso, as suas perspectivas sobre o ideal civilizatório fizeram menos ainda.

Um homem à frente do seu tempo, ao longo de anos realizou conferências e palestras sobre vegetarianismo, defendendo que a abstenção do consumo de alimentos de origem animal era o único meio de assegurar o respeito aos animais em um contexto ético e moral. E para reafirmar sua posição, o autor apresentou argumentos envolvendo saúde e higiene, considerando-os imprescindíveis como ferramentas de convencimento.

Controverso, Carlos Dias Fernandes chamou muita atenção quando publicou na edição de 5 de junho de 1918 do Jornal A União uma matéria em que defendeu fervorosamente a prática da medicina natural, confrontando laboratórios farmacêuticos. Também realizou uma grande conferência sobre feminismo em 1924, justificando que os direitos e deveres das mulheres precisavam estar de acordo com suas aspirações. Muito antes de livros como The Sexual Politics of Meat: A Feminist-Vegetarian Critical Theory, de Carol J. Adams, lançado em 1990, o escritor já argumentava que as mulheres, de forma semelhante aos animais, eram subjugadas, privadas de liberdade.

Para Fernandes, a melhor forma de ampliar a aceitação do vegetarianismo seria incentivando o desenvolvimento intelectual das mulheres e preparando-as para ocuparem grande espaço na vida pública. Ele tinha fé que elas poderiam ser o novo norte de uma educação que mostrava às crianças, logo nos primeiros anos, a importância de uma alimentação isenta de ingredientes de origem animal.

Suas inclinações ideológicas tiveram pouca repercussão no Brasil, mas foram bem recebidas na Europa, tanto que Fernandes aparece com destaque na edição Nº 11 da revista portuguesa O Vegetariano, de 1917. Prolífico, o escritor publicou 38 livros, abordando inclusive temas como feminismo e direitos dos animais. Oscilando principalmente entre o naturalismo e o simbolismo, Dias Fernandes obteve prestígio quando lançou em 1936 o seu romance autobiográfico Fretana, inspirado pelo simbolismo francês.

Sua defesa do vegetarianismo era frequentemente publicada no jornal A União, onde ele tinha total liberdade sobre o que escrever. Exemplos são três matérias veiculadas em agosto de 1916 sob o título O Regime Vegetariano, um desdobramento do que Fernandes já defendia no livro Proteção aos Animais, de 1914. Na obra, Fernandes, que não era religioso, cita religiões e crenças que endossam o papel do ser humano como protetor dos animais e da natureza. Polêmico, chegou a discutir com profissionais de saúde da época que defendiam o consumo de carne. Talvez o maior exemplo tenha sido a sua rixa com o então conceituado médico José Maciel.

A seu favor, o poeta e jornalista tinha o médico higienista Flavio Maroja que publicou no jornal A União de 30 de agosto de 1916 um artigo intitulado Hygiene Alimentar: Regimen Vegetariano e Regimen Carneo, confronto de opiniões, como penso a respeito, que fala dos benefícios do vegetarianismo. Em 26 de janeiro de 1917, Carlos Dias Fernandes comemorou a fundação da Sociedade Vegetariana Brasileira, sediada no Rio de Janeiro, e publicou matéria sobre o assunto. “Vai ganhando surto em todo mundo civilizado o regime vegetariano como solução prática do problema moral, economico e therapeutico dos povos. (…) Vegetarianismo quer dizer vida de accôrdo com a natureza”, registrou.

Segundo a pesquisadora Amanda Sousa Galvíncio, Fernandes reforçava seus argumentos sobre o assunto através de referências internacionais. Algumas delas foram os médicos Dujardin-Beaumetz, do Hôpital Cochin, na França; João Bentes Castel-Branco, autor do livro A Cultura da Vida, e Amilcar de Souza – diretor da revista O Vegetariano, além do biólogo Ernest Haeckel e do químico Eduard Buchner.

Porém, foi a própria literatura que conduziu Carlos Dias Fernandes ao vegetarianismo. Ele deixou de consumir alimentos de origem animal depois de ler Liev Tolstói, Lord Byron e Jean-Jacques Rousseau. Conforme Amanda Galvíncio, Fernandes citava com frequência pensadores como Sócrates, Hipócrates e Plutarco, além do Buda e Jesus Cristo, principalmente em suas palestras.

O que também reafirma a influência do vegetarianismo na vida e na obra do poeta são seus personagens que não raramente eram animais. No geral, a natureza sempre foi um tema recorrente em seus poemas e contos. Nascido em Mamanguape, na região da Mata Paraibana, em 20 de setembro de 1874, Carlos Dias Fernandes faleceu no Hospital da Cruz Vermelha no Rio de Janeiro em 9 de setembro de 1942.

Infelizmente, poucas pessoas compareceram ao seu enterro, um intrigante paradoxo na vida do homem que vivia rodeado de pessoas. Em seus últimos versos, jamais publicados, os animais ainda ocupavam posição de destaque. E apesar de esquecido pela literatura que tanto amou, uma de suas frases mais famosas, sobrevive ao tempo: “Fazer mal aos animais é indício de mau-caráter.”

Fonte: David Arioch

Se pensam e sentem, devemos comê-los?



Comer Animais é o título do livro em que Jonathan Safran Foer justificava a adoção de uma dieta vegetariana. O ensaio provocou muitas críticas, que iam do colérico ao irônico, mas é indubitável que contribuiu para impulsionar uma reflexão global sobre a alimentação que estava havia muitos anos sobre nossa mesa. Já não se tratava apenas dos problemas éticos relativos às condições em que vivem e são mortos os animais dos quais nos alimentamos, mas da contribuição do consumo da carne às mudanças climáticas. Somente entre 1990 e 2012, segundo dados da FAO, o número de galinhas no mundo cresceu 104,2%, de 11,78 para 24,7 bilhões, e o gado, muito poluidor do meio ambiente, passou de 1,44 para 1,68 bilhão de cabeças. Um estudo de 2013, também da Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura, afirmava que a carne é responsável por 14,5% das emissões de carbono. O crescimento da população mundial torna impraticável a possibilidade de continuar comendo animais nesse ritmo, mas, além disso, as novas pesquisas sobre inteligência animal complicam mais o assunto.

“Hoje os cientistas são os melhores aliados da causa animal”, explica Franz-Olivier Giesbert, jornalista e romancista francês autor do livro L’Animal est une Personne (Um Animal é uma Pessoa). “Para poder comer animais sem a consciência pesada fingimos durante muito tempo que não eram mais que máquinas ou relógios, para retomar a estúpida fórmula de Descartes. Mas são nossos irmãos e irmãs, como dizia São Francisco de Assis: nas últimas três décadas os descobrimentos da ciência têm sido inumeráveis, tanto sobre a inteligência como sobre a sensibilidade dos animais. Os pesquisadores demonstraram que os porcos se reconhecem em um espelho, o que significa que têm consciência de si mesmos. A doutora Irène Pepperberg, da Universidade Harvard, estabeleceu que os papagaios não se limitam a imitar nossa linguagem, mas são capazes de expressar desejos e sentimentos”.

Além da obra de Giesbert –que foi diretor da revista Le Point e é autor de romances como La Cuisinière d’Himmler (A Cozinheira de Himmler)–, há um documentário transmitido pela rede Arte, O que Sentem os Animais, e um livro da estrela de televisão Aymeric Caron, Antispéciste (Antiespecista), que tiveram um grande impacto na França, o que demonstra uma clara mudança de sensibilidade. O chef Alain Ducasse não serve carne em um de seus restaurantes parisienses, o Plaza Athénée, para demonstrar que é possível manter três estrelas Michelin sem a gordura animal. Isso não quer dizer que o número de vegetarianos vá aumentar de maneira exponencial, mas é um testemunho de uma transformação.

Muitas dessas defesas suscitadas pelo bem-estar dos animais se chocam com as mesmas críticas (que Safran Foer também enfrentou). Não é um luxo preocupar-se com o bem-estar animal diante do enorme sofrimento humano no mundo? Giesbert argumenta: “Por que teria de dividir a compaixão? O que damos aos animais não humanos, como dizia Darwin, não tiramos dos humanos. Temos um dever de humanidade para com os animais porque são muito mais fracos do que nós”.

Somos bárbaros, a dor dos animais nos diverte

Digamos que quem gosta e/ou apoia esportes nos quais animais são maltratados nunca tenha ouvido falar no jurista inglês Jeremy Bentham (Londres,1748-1832). No entanto, não duvidaria nem um pouco de que já saímos (faz tempo) da Idade Média e, só por isso, já conseguiria entender um dos mais famosos enunciados de Bentham – “O problema não consiste em saber se os animais podem raciocinar; tampouco interessa se falam ou não; o verdadeiro problema é este: eles podem sofrer”. Uma vez que arenas e outros cenários de atrocidades continuam atraindo multidões, a conclusão parece bastante óbvia – o movimento que no século 18 iluminou a razão em nome da busca pela liberdade, deixou um lado da natureza humana às escuras. É este lado que chega aos dias de hoje e teima em chamar de cultura e tradição o que não passa de gosto pela barbárie. Contra esta herança nada ética, nada humana, um verdadeiro exército se multiplica nas redes sociais, tentando sensibilizar o poder público para a necessidade de acabar para sempre com espetáculos sangrentos ou onde haja maus-tratos às espécies: touradas, rodeios, rinhas, vaquejadas, só para citar alguns. Grupos abertos e fechados, comunidades e movimentos já somam mais de 40, apenas no Facebook.
Estranhamente as populações, que deveriam se mobilizar de forma incansável em defesa do fim destas modalidades de entretenimento, se dizem chocadas diante de episódios de enorme repercussão como a morte de Víctor Barrio, 29 anos, sábado, na cidade espanhola de Teruel. Barrio foi o primeiro toureiro a morrer em uma arena, no século 21 – e na frente de câmeras de televisão, o que acabou detonando uma guerra de opiniões nas redes sociais. Porém, detalhe: muitas a favor do touro, com expressões que deixavam antever até certa alegria; outras contundentes, como a que manifestou o rapper Pablo Hasel, em sua conta no Twitter: “Se todas as touradas terminassem assim, mais gente iria vê-las”, escreveu, sendo apoiado por centenas de seguidores. Se é comportamento desprezível se divertir com o sofrimento e morte de um animal, é inominável se comprazer ante um desfecho como o que teve a apresentação de Barrio, desde muito jovem habituado a ver em um toureiro um herói. E então as duas partes – contrários e simpatizantes – transformaram o espaço em campo minado, com a associação nacional que cultua o esporte prometendo abrir ações judiciais para punir os autores das postagens mais virulentas, enquanto o outro lado fazia ameaças escancaradas a jornalistas defensores da causa.
Deixando a cruel realidade que a tradição ancestral lega, na Espanha, com estimados 50 mil touros morrendo por anos, só em decorrência das festas de rua, passamos ao nada humano cenário brasileiro dos rodeios, vaquejadas e rinhas, que atraem respeitáveis multidões e se transformam em via de lucro fácil para promotores e participantes dos eventos – nos dois primeiros casos, quase sempre engordados por verbas de patrocínio e do poder público. Nenhum dos apreciadores de ambientes feitos para divertir multidões às custas do sofrimento das espécies utilizadas nas disputas parece se sensibilizar com os crescentes apelos emitidos pelo mundo em favor da dignidade dos animais, do direito que eles têm à vida, garantido, inclusive, em declaração universal. A indiferença resulta, sobretudo, de anos de omissão dos governos, que não apenas não educam para uma nova consciência em relação ao assunto como, de forma direta ou indireta, apoiam e legitimam este tipo de violência.
No entanto, entre a vida e a tradição (ou qualquer expressão cultural) não deveria restar qualquer dúvida. Afinal, desde quando os animais começaram a ser mortos em nome da filosofia do “pão e circo”, as luzes de muitos séculos inundaram o pensamento, a consciência. É no mínimo desconcertante que um lado do mundo assista ao esplendor da tecnologia, à luz do respeito aos direitos universais, enquanto o outro, como no tempo dos bárbaros, divirta-se vendo animais sangrando, numa luta absolutamente desigual pela vida. A inversão da lógica, que prevalece entre apreciadores de tais espetáculos, permite até uma pergunta: quem ali é mesmo o “animal”?

Veganismo: quando filosofia é bem diferente de dieta



Por Nzinga Young/Huffpost Green (Tradução: Bruna Oliveira/Agência de Notícias de Direitos Animais)



O veganismo é estilo de vida que prioriza, principalmente, o bem-estar dos animais. Foto: Divulgação

Enquanto o veganismo ganha popularidade, seus princípios básicos parecem estar sendo colocados em segundo plano por outros tipos de benefícios.

Este é um testemunho a favor do estilo de vida vegan. Os prós do veganismo são tão inúmeros que é muito comum encontrar pessoas que se identifiquem com a filosofia. Entretanto, é sempre importante saber quais são os princípios fundamentais do veganismo e respeitar a verdadeira bandeira do movimento: o fim da crueldade contra animais.

Uma nova dieta está ficando cada vez mais popular e tem usado o termo “vegan” de uma maneira que é absolutamente não-vegana. No veganismo é permitido que seu adeptos se alimentem com frutas tradicionais, legumes, cereais, feijão, nozes e sementes. Não existe, em nenhum momento, liberação para ingerir ovos.

O conceito divulgado como “dieta vegan” é uma combinação dos benefícios de se alimentar de forma vegana, mas com a possibilidade de inserir a proteína dos ovos para tornar a dieta mais sexy e fácil de ser inserida em uma hashtag como um novo sinônimo para ovo-vegetarianos. Se a dieta parece nutritiva, então qual é o problema?

O problema é que veganismo nada tem nada a ver com alimentação.

A Vegan Society deu uma definição do que é veganismo:

“É a filosofia e modo de vida que procura excluir – o quanto for possível e praticável – todas as formas de exploração e crueldade para com os animais com objetivo de consumo, produção de roupas ou qualquer outra finalidade. Por consequência, estimula o desenvolvimento e uso de alternativas livres de crueldade em benefício dos seres humanos, animais e meio-ambiente. Na alimentação, denota a prática de dispensar todos os produtos derivados totalmente ou parcialmente de animais.”

O veganismo é um movimento pelos direitos animais. Nos alimentamos de plantas simplesmente porque elas não são de origem animal. É um estilo de vida que prioriza principalmente o bem-estar dos animais e não a saúde do ser humano, ainda que isso venha como uma positiva consequência.

Veganos de verdade não aprovam utensílios domésticos que tenham sido testados em animais, roupas feitas de pele animal ou qualquer forma de entretenimento que venha às custas do sentimento de seres não-humanos. E sempre evitam alimentos que vêm de animais escravizados, como ovos.

A maioria dos veganos concordaria que ovos não fertilizados ainda não são animais, mas é impossível negar que há muita crueldade associada em cada caixa.

Um exemplo é que pintinhos machos são considerados subprodutos indesejáveis na indústria de ovos. Como não põem ovos e crescem muito lentamente para a carne, são mortos logo após o nascimento.

Veganos também evitam ovos porque não querem apoiar essa indústria e financiar uma vida de escravidão. Galinhas são mantidas vivas por aproximadamente dois anos para produção incessante de ovos até que sejam mortas para serem consumidas.

“Vegan” é um paradoxo. A palavra representa a libertação animal e a morte induzida nas mesmas duas sílabas.

Veganos costumam “deixar passar” aqueles que compram couro, utilizam produtos testados em animais e continuam se considerando vegans. Porém, intitular-se vegano enquanto apoia a indústria avícola mostra um nível superior de desrespeito por toda a luta pelos direitos animais que os veganos representam.

Então, como você pode permanecer fiel ao veganismo se ainda se alimenta de ovos? Felizmente, há substitutos que são livres de crueldade animal para quase tudo – inclusive ovos.

A organização Follow Your Heart (Siga seu coração) lançou recentemente o ovo vegano mais realista no mercado. Ele não terá a gema mole com a qual você pode estar acostumado, mas será totalmente livre de colesterol e de crueldade.

Ramen Hood, em Los Angeles, faz uma espécie de miojo vegan que vem com um “ovo” para combinar com o prato. Existem ainda inúmeros substitutos para ovos que podem ser utilizados em receitas.

Não há necessidade de ir contra os fundamentos do veganismo quando há alternativas vegan-friendly em todos os lugares.

O veganismo foi repaginado como um movimento em prol da saúde durante anos. Muitos não entendem o que é ser vegano. Por isso, utilizar a palavra “vegan” sem conhecê-la bem pode ser muito mais um mal-entendido do que desrespeito pelos direitos animais.

Embora seja importante esclarecer que o veganismo não é a mesma coisa que seguir os fundamentos veganos. Temos que reconhecer que o baixo consumo de carne e produtos lácteos podem ser obtidos com uma alimentação vegana e que alimentar-se desta forma apoia indiretamente a causa vegan.

Caso esteja seguindo a “dieta”, sua contribuição é apreciada e você está no início do caminho em busca de um estilo de vida vegano adequado. Ao longo de sua jornada ovo-vegetariana, nós esperamos que você recorde o que o veganismo representa e considere a remoção de ovos de sua dieta.

Animal silvestre não é PET!




Assista e compartilhe com aquele seu amigo que acha que calopsita, papagaio, macaquinhos e tartarugas são animais de estimação!