O que é o carnismo?



O Veganagente utiliza um conceito alternativo de carnismo, um tanto diferente do usado por Melanie Joy no livro Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas, mas inspirado na definição usada por ela. Defino o carnismo como uma ideologia reacionária, de caráter sociopolítico e moral-cultural, que defende o consumo – e, consequentemente, também a produção – de produtos de origem animal, principalmente alimentos como carnes e laticínios.

A ideologia carnista pode ser expressada explicitamente, como nos textos, vídeos epérolas respondidos por mim, ou acreditada de forma relativamente silenciosa, aparentemente oculta. Os defensores do carnismo são denominados carnistas – não se estendendo este termo, na concepção do Veganagente, aos consumidores de produtos animais em geral.

O carnismo tem como bases morais:

– o especismo, o sistema de opressão e preconceito que coloca o ser humano como superior aos animais de todas as demais espécies e considera alguns animais não humanos “menos inferiores” do que outros, a depender de sua “utilidade” e valor afetivo para seres humanos;

– o antropocentrismo, a crença filosófica de que o ser humano é o centro da Natureza na Terra – ou vive separado e “acima” dela – e é “autorizado” por divindade(s) ou por si mesmo a subjugar, dominar, explorar e destruir toda a parcela não humana, viva ou não, da biosfera;

– toda uma mitologia que envolve desde a existência generalizada de vegans extremistas, violentos e de saúde frágil até a existência de uma perfeita harmonia ética e ambiental entre humanos e não humanos na pecuária, pesca e apicultura;

– associações com o machismo, a misoginia e a homofobia – elementos comumente presentes em discursos antiveganos defensores do consumo de carne e na exploração sexual de fêmeas não humanas “matrizes” ou “produtoras” – e elos com o hierarquismo capitalista, liberal-econômico e conservador.

Vale aqui ressaltar a diferença entre o especismo e o carnismo, de modo que seja prevenida a confusão entre um e outro. O carnismo é uma das manifestações do especismo, sendo dedicada especificamente à produção e consumo de alimentos e outros itens de origem animal. Engloba toda uma mitologia que não poderia ser adequadamente focada caso estivessem sendo abordadas todas as implicações do especismo.

Algumas crenças específicas do carnismo não podem ser diretamente aplicadas, por exemplo, aos rodeios e à comercialização de animais domésticos, já que nem sempre o veganismo está em pauta quando se fala dessas atividades. Além disso, nem todos os mitos carnistas são especistas, considerando-se como exemplos disso as crenças na insalubridade da alimentação vegetariana e na infelicidade psicológica crônica de quem não consome carne e laticínios. Em outras palavras, nem toda crença carnista é baseada em especismo, assim como nem todo especismo passa pelo carnismo.


As diferenças entre o carnismo respondido pelo Veganagente e o teorizado por Melanie Joy

Os conceitos usados para o carnismo por Joy e por mim têm diferenças substanciais, embora sejam inspirados no mesmo fundamento, o de ideologia encarregada de prover “justificação” moral para o consumo de produtos frutos da exploração animal.

Joy faz uma abordagem individualista e baseada na Psicologia Social. O Veganagente, por sua vez, aborda o carnismo com um olhar moral-cultural, social e político, com tendência a focar o caráter de ideologia socioculturalmente difundida no coletivo, as manifestações e implicações coletivas das crenças carnistas.

Ela coloca o carnismo como um “sistema de crenças invisíveis”. Já este blog discorda dessa “invisibilidade”. Minha experiência ao longo desta década, desde o hoje abandonado tumblr Vegetariano da Depressão e os primeiros vídeos-respostas anticarnistas do antigo Consciencia.VLOG.br, atesta que a ideologia carnista costuma, com frequência, ser manifestada de forma muito explícita.

Suas manifestações vêm através de textos e vídeos de gente tentando discordar dos princípios éticos do veganismo e/ou da salubridade da alimentação vegetariana, piadinhas de mau gosto ou declarações de ódio que promovem o preconceito e o escárnio contra vegans e vegetarianos, perguntas recheadas desse mesmo preconceito (ex.: “Você não tem medo de ficar fraco, pegar uma anemia ou uma osteoporose, por falta de carne e leite?”), advertências preconceituosas relativas à saúde do indivíduo vegano ou vegetariano (ex.: “Cuidado com a falta de proteína!”), aconselhamentos idem vindos de nutricionistas despreparados para lidar com quem não consome alimentos de origem animal, entre outros meios.

Uma outra diferença entre as duas correntes de pensamento é em relação à definição doscarnistas. Joy chama de carnista toda aquela pessoa que consome alimentos de origem animal tendo como base as crenças “invisíveis” do carnismo. O Veganagente, por sua vez, não aceita essa definição generalizante.

O blog defende que carnistas são apenas aqueles indivíduos que defendem ativamente, para apreciação de outras pessoas, o consumo – e, por tabela, a produção – de produtos de origem animal. Acredita, considerando-se que o capitalismo e o carnismo são ou constituem ideologias, que a definição de carnista dirigida a todo e qualquer consumidor de alimentos de origem animal é tão inconsistente quanto chamar de “capitalista” toda aquela pessoa que, mesmo sem defender ativa e explicitamente o capitalismo, vive sua vida atrelada aos ditames político-ideológicos e econômicos do mesmo.

O Veganagente, além disso, frisa a importância que as ofensivas e defesas ideológicas carnistas têm para os interesses desde de pecuaristas, apicultores, donos de granjas e empresários da pesca e da indústria lacto-frigorífica, até de indivíduos fanaticamente aficionados por pratos ricos em produtos animais. Considera isso um problema político, que envolve um conflito aberto entre duas ideologias políticas – o carnismo especista e o vegano-abolicionismo – opostas uma à outra, situadas respectivamente à direita e à esquerda e que chocam os interesses privados do lucro e do paladar com o interesse público não humano da libertação animal.

E a solução anticarnista proposta por Joy tende à tomada individual de consciência, de alguma forma tomando o movimento coletivo vegano como uma soma de indivíduos que aderiram ao veganismo. Já o Veganagente defende, como estratégias de enfrentamento à cultura carnista:

– a militância política vegano-abolicionista, que enfrente de peito aberto o especismo arraigado na moral e cultura vigente e os interesses de quem adquire ganhos com a exploração animal;

– o reconhecimento do vegano-abolicionismo como uma bandeira libertária de esquerda, profundamente interligada com movimentos sociais de emancipação humana e ambiental – como o feminismo, o socioambientalismo, o anticapitalismo, o campesinato, a defesa da agricultura orgânica democrática opositora dos latifúndios, os movimentos de povos tradicionais (indígenas, quilombolas, ribeirinhos etc.), o movimento negro, o movimento de pessoas não heterossexuais, o movimento de pessoas trans, os coletivos de luta das periferias urbanas, as organizações trabalhadoras etc.;

– a inclusão do carnismo entre as ideologias reacionárias de direita que precisam ser oposicionadas pelos movimentos de esquerda em geral;

– o contraponto argumentativo, escancarando as falhas, falácias, mitos e vícios da ideologia antivegana, de modo que pessoas incautas não aceitem passiva e inquestionadamente a contra-argumentação carnista opositora do vegano-abolicionismo; entre outras.

Considerando essas diferenças, é possível perceber que os conceitos de carnismo ecarnista usados e defendidos aqui no Veganagente são uma alternativa politizada aos que o livro de Joy prega, apesar de algumas semelhanças fundamentais. Convido você a comparar ambas as correntes anticarnistas e concluir qual é, para você, a mais apropriada.

"Vegans" anti-humanistas e a equivalência ao especismo



O anti-humanismo de muitos “vegans” como equivalente humano ao especismo

Tem ganhado visibilidade uma categoria um tanto inconveniente, incoerente e contraditória de “vegans” (sic nas aspas). São aqueles que dizem respeitar os animais não humanos e pautam seus hábitos de consumo nessa consideração moral, mas dedicam opiniões conservadoras e preconceituosas a questões de Direitos Humanos e lutas sociais. Às vezes essas pessoas chegam a expressar ódio explícito contra movimentos de emancipação humana e minorias políticas. Não sabem que estão promovendo, do alto desse anti-humanismo, uma atitude tão antiética, reprovável e prejudicial para seres sencientes quanto o próprio especismo.

Essa postura anti-humanista é o reverso quase perfeito do especismo. Trata muitos seres humanos com uma desconsideração antiética parecida com a forma como os especistas tratam os não humanos. É o que baseia a atitude dos adeptos do “Prefiro bicho a gente” e de quem padece de pena de um gatinho abandonado mas vira o rosto e muda de calçada quando se depara com uma criança negra pedinte.

Não é um especismo reverso propriamente dito, já que não inferioriza seres humanos especificamente por serem da espécie humana. Mas carrega um ódio misantrópico similar ao do que viria a ser o especismo invertido. Promove opressão, discriminação e exclusão moral contra muitos humanos em função não de espécie, mas sim de (identidade de) gênero, raça, orientação sexual, classe, nacionalidade e origem regional, (ir)religião etc. Mas tem efeitos bem parecidos do que um hipotético especismo inverso de humanos contra humanos.

Manifesta-se, por exemplo, quando o mesmo “vegano” que vai à avenida central da cidade no sábado fazer divulgação pró-veganismo passa a noite do domingo despejando na internet postagens e comentários misóginos, homo-lesbofóbicos, transfóbicos e/ou de ódio militarista contra “vagabundos”, “esquerdopatas” e mulheres que abortaram.

Também ocorre quando a “vegana” dedica seu estilo de vida e consumo ao respeito pelos animais não humanos, mas muda de postura perante outros seres humanos dedicando-lhes racismo, xenofobia, intolerância religiosa, elitismo e simpatia com o fascismo, o apartheid contra pobres e o fundamentalismo cristão.

Outro exemplo é de quem defende não o fim dos testes em animais, mas sim que eles passem a ser promovidos em presidiários ao invés de cobaias não humanas, e acredita que ódio contra onívoros e protovegetarianos é uma maneira mais “adequada” de enfrentar o especismo do que a conscientização com tolerância.

Sendo praticado por muitos “vegans” de direita, o anti-humanismo viola todos os princípios éticos dos Direitos Animais. Essas pessoas esquecem que o vegano-abolicionismo defende, entre seus princípios, a nivelação moral de animais humanos e não humanos por cima, a alteridade empática – acompanhada, segundo muitas pessoas, pela compaixão –, a conscientização ética de cada vez mais pessoas, o enfrentamento de opressões resultantes da inferiorização moral imposta a parte dos seres sencientes, a oposição à cultura de violência e dominação de uns sobre os outros e às tradições nela baseadas, a contestação de hierarquias morais, o respeito aos direitos e liberdades dos indivíduos e a problematização de violências simbólicas que mantêm acesas na cultura a “superioridade” de uns e a “inferioridade” de outros.

Os “vegans” anti-humanistas, quando defendem uma visão de mundo reacionária, autoritária, hierarquista, discriminatória e truculentamente violenta, estão transgredindo todas essas características do abolicionismo animal. Com isso, não diferem em praticamente nada dos mais cruéis especistas, havendo como únicas diferenças notáveis a espécie dos sujeitos destratados e os motivos desse destrato.

Revela-se cada vez mais necessário, quando pensamos nessa categoria de autodenominados “vegans”, que o antiespecismo esteja sempre acompanhado do zelo, ou no mínimo do respeito, aos Direitos Humanos e às lutas em prol da emancipação sociopolítica humana. As opressões contra humanos e contra animais não humanos não são menos nocivas uma do que a outra. E fica claro aqui que libertação animal sem libertação humana não só não faz nenhum sentido como tende a desempoderar, tornar sem efeito, a defesa dos Direitos Animais.

Vegans anti-humanistas e o obstáculo para a defesa dos animais

Anti-humanismo, um dos piores obstáculos para o êxito dos Direitos Animais. Obs.: Nem todas as pessoas na imagem são veganas, até onde sei. A imagem ilustra o anti-humanismo de muitos que dizem defender os animais, sejam vegans ou não.

A confusa e autofágica consideração moral de vegans anti-humanistas


Temos percebido o crescimento da visibilidade de pessoas que se dizem veganas masostentam um barulhento anti-humanismo, sendo direitistas reacionárias ou misantropas assumidas. Sua postura moral entra em gritante contradição com os próprios Direitos Animais, mas não parecem se importar com isso. Perguntamos a nós mesmos quando nos deparamos com seus discursos: quais são, afinal de contas, os parâmetros éticos que as fazem excluir os seres humanos – ou uma enorme parcela deles – de sua consideração moral para com seres sencientes?

A princípio, é bem evidente, senão óbvio, que seus critérios de seleção de quem respeitar e quem desprezar e/ou odiar são muito confusos. E quando fazemos uma análise mais apurada, percebemos o quanto são contraditórios e bastante falaciosos, tanto quanto o especismo que essas mesmas pessoas dizem repudiar.

Questionamo-nos, quando pensamos nisso:

Quais são os parâmetros morais seguidos por eles ao alegadamente defenderem os Direitos Animais?

Quando ouvimos esses vegans dizerem que defendem os direitos dos animais mesmo excluindo os animais humanos, nos perguntamos o que os fazem se opor à exploração animal. Pensamos nas diversas diretrizes da ética animal, e como não faz nenhum sentido elas serem tornadas seletivas:

a) Senciência

Seres humanos também são sencientes. Têm inclusive suas próprias maneiras – não superiores aos dos não humanos, a saber – de verbalizar, expressar e simbolizar o sentimento da dor e o sofrimento. Desejos como a substituição de cobaias não humanas por humanos presidiários em experimentos científicos, a repressão militar “enérgica” contra manifestações de esquerda nas ruas e a adoção da doutrina “Bandido bom é bandido morto” pela polícia implicam causar sofrimento, e são cruéis até mesmo para bem-estaristas.

b) Capacidade de sofrer

Sendo sencientes, seres humanos possuem tanta capacidade de manifestar sofrimento quanto animais não humanos. Ser contra a universalidade dos Direitos Humanos, mesmo expressando essa oposição com o eufemismo dos “Direitos Humanos só para humanos direitos”, implica não se importar com o doloroso e explícito sofrimento de milhões de seres sencientes humanos, castigados pelo desrespeito exercido pelos detentores de poder (políticos, empresários, latifundiários, militares, sacerdotes fundamentalistas etc.) aos Direitos Humanos.

c) Interesse próprio de continuar vivo e ser livre

É inegável que os seres humanos têm tanto interesse de continuarem vivos e almejarem a liberdade quanto os não humanos. Isso é expresso pelos humanos tanto pela própria dor, da qual tentam se livrar com todas as forças, como por suas lutas sociopolíticas, que atentam contra uma ordem que lhes causa privações e sofrimentos diversos e lhes nega direitos.
Pessoas que pisoteiam o interesse de outrem pela preservação da própria vida e pela conquista da liberdade são tão violentas e cruéis quanto os mais sádicos exploradores de animais.

d) Empatia dos defensores dos Direitos Animais

A empatia, capacidade de se colocar imaginariamente no lugar do outro, é um pilar emocional fundamental para uma pessoa reconhecer a importância dos Direitos Animais para os seres sencientes, assim como dos Direitos Humanos para os seres humanos. Aos anti-humanistas, falta empatia para com o sofrimento dos humanos alvos de discriminação, opressão e violências.
A seletividade de ser empático com uns e não com outros faz o indivíduo ser permissivo perante opressões contra aqueles pelos quais ele não sente empatia, e isso é igualmente aplicável aos especistas e aos opositores das lutas humanas. Ambos se equivalem quando o assunto é rejeitar a capacidade do outro de sofrer e querer ser feliz.

e) Compaixão e misericórdia por parte dos defensores animais

É absurdo acreditar que o sofrimento dos seres humanos enseja menos misericórdia e compaixão do que o dos animais não humanos. Para quem entende de Direitos Animais, esse absurdo também se aplica à crença especista de que o sofrimento não humano importa menos do que o humano.
Quando pensamos isso, percebemos o quanto é contraditório e nonsense alguém ter compaixão por porcos agonizando num matadouro, peixes morrendo de asfixia num barco de pesca e cães minguando abandonados nos becos de uma cidade, mas não sentir uma sincera misericórdia diante de mães chorando a morte violenta de seus filhos inocentes por policiais racistas, um ativista de esquerda agonizando de dor depois de ter sido torturado numa delegacia ou um adolescente em situação de rua dormindo numa calçada com fome e frio.

f) Oposição a toda e qualquer violência injusta contra seres sensíveis, por parte dos defensores animais

É um contrassenso alguém que se diz opor a “toda e qualquer violência injusta contra seres sensíveis” recusar-se a declarar abertamente repúdio a regimes políticos que prendem, torturam e matam pessoas cujo “crime” foi reivindicar liberdade e democracia; ou à doutrina racista e ditatorial da Polícia Militar no Brasil, a qual empurra policiais para matarem jovens negros em favelas, sem distinção de serem inocentes ou culpados e terem sido julgados ou não; ou à exploração trabalhista promovida por riquíssimas corporações, com direito a restringir ou negar direitos humanos fundamentais.

Alguém que tolera essas violências não se difere muito de quem aceita a perpetuação da pecuária, das fazendas de pele animal, dos rodeios e dos mais cruéis experimentos científicos em animais.

O que os animais não humanos têm que os humanos não têm, de modo que humanos sejam moralmente desprezados e a consideração moral dos vegans anti-humanistas os excluam?
Pensemos também em características que supostamente, na mentalidade de vegans anti-humanistas, tornam os animais não humanos em geral mais dignos de respeito, consideração moral e compaixão do que os seres humanos também generalizadamente. Em outras palavras, no que os faz abominar o especismo mas aprovar ou mesmo abraçar a misantropia e o ódio a minorias.

a) Vulnerabilidade a atos de violência e crueldade?

Animais não humanos são muito vulneráveis à violência cometida por seres humanos. Mas não muito menos do que seres humanos de diversas categorias sociais.
A quanto mais minorias políticas a pessoa pertence, mais vulnerável e alvo de discriminação ela é. Uma travesti lésbica, negra, moradora de favela, afrorreligiosa, nordestina e gorda, por exemplo, tem dezenas de vezes mais suscetibilidade a ser marginalizada e assassinada em São Paulo do que um homem cis branco, heterossexual, rico, cristão, paulistano nato e “sarado”. E é claramente um absurdo crer que seja eticamente correto e aceitável ignorar a vulnerabilidade de pessoas como ela e desprezá-la como sujeito de direitos.

b) Incapacidade de promover violência por vontade consciente e imoralidade?
A crença de que seres humanos em geral são capazes de promover violência por vontade livre e espontânea é uma falácia de generalização precipitada, e nega a capacidade do ser humano de se tornar ético.

Se o ser humano não pode ser plenamente ético – e, portanto, é sempre capaz de optar por cometer violências que não a legítima defesa –, então implica-se que ele não tem a capacidade de aderir ao veganismo e respeitar os Direitos Animais. Ou seja, crer que apenas os animais não humanos são livres da possibilidade de serem conscientemente violentos é renegar a possibilidade de difusão da ética vegano-abolicionista e inviabilizar a vitória da libertação animal. É, portanto, um tiro no pé de quem diz defender os animais mas exclui seres humanos.

c) Incapacidade de incidir em ações antiéticas?

A crença de que apenas seres amorais, incapazes de incidir em ações antiéticas, merecem respeito parte do pressuposto de que o ser humano apenas poderia ser ético e respeitável se fosse perfeito, incapaz de cometer desvios de ética – ignorando-se a capacidade humana do arrependimento e do perdão.

Isso implica uma falsa dicotomia (ou, neste caso, tricotomia), segundo a qual só poderiam existir seres amorais, seres morais totalmente éticos ou seres morais totalmente antiéticos, ignorando a capacidade humana de aprender e evoluir individualmente.
Esse desprezo à aprendizagem ético-moral humana implica o desprezo à própria capacidade de humanos respeitarem animais não humanos. Anula, por via da lógica, a suposta preocupação dos vegans anti-humanistas pelos não humanos.

d) Capacidade de manifestar e transmitir sentimentos de maneira “pura”, como carinho, amor, gratidão e amizade?

Quando alguém nega que seres humanos podem transmitir sentimentos positivos puros, como amor, amizade e gratidão, está necessariamente declarando que seres humanos não podem se amar uns aos outros e são incapazes, inclusive, de respeitar sinceramente os próprios animais não humanos.
Além disso, quando a pessoa incide nessa negação do sentimento sincero humano, está declarando que não ama ninguém – nem os próprios animais não humanos – nem nunca foi verdadeiramente amada, nem pela família, nem por amigos, nem pela parceria afetiva, nem por ninguém. Então há algo de muito errado com o psicológico da pessoa que diz respeitar apenas os animais não humanos.

e) Virtudes mais avançadas do que as de seres humanos?

Vale perguntarmos à pessoa que crê que os animais não humanos são mais “virtuosos” do que seres humanos o que é a virtude. Questionemos-lhes também como seres amorais, que não distinguem o moral do imoral, podem ser virtuosos.
Caso argumentem que os animais não humanos são capazes sim de comportamentos morais, então cai por terra o argumento de que eles são seres amorais e, portanto, incapazes de distinguir entre o certo e o errado. E é invocado o (hipotético) desprezo dos anti-humanistas por seres suscetíveis a ações antiéticas, o que anula o respeito dessas pessoas pelos animais não humanos.

f) Pureza de caráter?

É possível falar de caráter apenas em relação a seres capazes de distinguir o certo do errado, considerando-se que o caráter é atrelado à maturidade e desenvoltura ético-moral do indivíduo. Assim, quando se diz que o animal não humano é “puro de caráter”, está-se dizendo que animais não humanos podem sim ser capazes de discernir entre o moral e o imoral, entre o certo e o errado, entre o ético e o antiético. Com isso, a questão do tópico anterior vem à tona, anulando-se o respeito dos anti-humanistas pelos animais não humanos.

Possíveis objeções às críticas

a) “Mas eu só odeio aqueles seres humanos maus e cruéis.”

Se a pessoa realmente só tivesse ódio a seres humanos conhecidamente cruéis e sem caráter, então não estaria, por exemplo, discriminando moradores de rua; incidindo em machismo, racismo velado, transfobia, heterossexismo e outros preconceitos que atrelam desqualidades individuais a uma categoria inteira de pessoas; defendendo repressão policial contra protestos de rua de esquerda etc.
Tampouco seria misantropa, já que seu ódio não poderia ser direcionado à humanidade como um todo, mas sim a alguns indivíduos humanos maus. Além disso, o ódio a “apenas” algumas pessoas anula os argumentos misantrópicos que apelam a uma “natureza humana” cruel e violenta, já que assume que nem todos os seres humanos são maus e antiéticos.

b) “Tenho o maior respeito pelas pessoas de bem.”

Se uma pessoa tem “respeito pelas pessoas de bem”, então ela não poderia odiar a humanidade como um todo e lhe atrelar uma “natureza humana” corrupta. Além disso, é comum ver pessoas assim negando respeito, por motivos de racismo, machismo, transfobia, heterossexismo, elitismo, intolerância religiosa etc., a pessoas que são plenamente éticas e prejulgando-as.
Se misantropos e reacionários tivessem realmente “respeito por pessoas de bem”, seriam as primeiras a pedir, por exemplo, pela desmilitarização da polícia brasileira, pelo fim dos múltiplos preconceitos e discriminações, pelo fim do massacre de jovens negros em comunidades pobres… Em outras palavras, defenderiam ativamente os Direitos Humanos, ou no mínimo apoiariam seus defensores ativos.

c) “É claro que eu me importo com crianças e outros seres humanos indefesos.”

Se realmente se importasse, seriam as primeiras a lutarem contra o racismo, o heterossexismo, o machismo, o elitismo, o etarismo e tudo o mais de preconceitos e opressões que promovem a exclusão em massa de crianças e proporcionam indescritíveis violências contra elas. Ou seja, não seriam misantropas nem reacionárias, mas sim defensoras da libertação humana.

d) “Eu não sou racista, nem machista, nem nada disso.”

São numerosas as pessoas que dizem “não serem” nem racistas, nem machistas, nem heterossexistas etc., mas vivem reproduzindo racismo, machismo, heterossexismo etc. É o típico “não sou preconceituoso, mas…”.

Se a pessoa não tem esses preconceitos – ou os tem em desconstrução – e tem consciência de que é errado ser preconceituoso, ela necessariamente é contra essas diferentes opressões. Isso implicará, no mínimo, que ela não reproduza crenças socialmente reacionárias, geralmente baseadas em preconceitos e na naturalização de hierarquias, desigualdades e violências.

E a crença numa “natureza humana” ruim é necessariamente preconceituosa e naturaliza violências orientadas a controlar os seres humanos e colocá-los “em seu lugar”. Ou seja, se a pessoa realmente fosse contra os múltiplos preconceitos que assolam o mundo, então ela não poderia ser nem misantropa, nem reacionária, nem defender máximas como “Prefiro bicho a gente” ou “Queremos testes em assassinos e corruptos ao invés de animais inocentes”.

e) “Meu ódio é pelo que os seres humanos fazem de ruim e errado contra os seres não humanos.”

Se o indivíduo só odeia aquilo de ruim que os seres humanos fazem, então ele admite que o ser humano pode ser bom. Então não há nenhuma razão para que diga preferir “bicho a gente”, ou declarar ódio a pessoas de esquerda em função de sua posição política, ou defender que “bandido bom é bandido morto”, ou que criminosos em geral são seres “irrecuperáveis” e deveriam ser forçados a ser cobaias de experimentos científicos – já que, nesse último caso, o ódio é ao crime, e não ao criminoso.


Considerações finais

Diante da fragilidade e da autoanulação dos argumentos de quem diz respeitar ou “amar” os animais enquanto despreza a libertação humana, percebemos o quanto a posição deles não se sustenta racionalmente, além de ser autofágica ao se autoneutralizar. Notamos também que a própria posição política de ódio ostentada por vegans anti-humanistas põe em risco os próprios êxitos do veganismo e dos Direitos Animais.
Ser misantropo e reacionário implica necessariamente negar a capacidade dos seres humanos de serem bons, aprenderem Ética e mesmo respeitarem os animais. Ou seja, anula a qualidade deles próprios de “respeitadores” dos animais não humanos e põe um rochoso obstáculo para a própria educação/conscientização vegana, imprescindível para a sonhada vitória da libertação animal.

Ou seja, o anti-humanismo é frontalmente prejudicial e deletério aos Direitos Animais. Quando chegamos a essa conclusão, nos impelimos a reafirmar que não existe libertação animal sem libertação humana. E daí, reiteremos a nós mesmos que uma providência essencial na luta pela abolição da exploração animal é promovermos o desmonte do reacionarismo e da misantropia.

Portanto, vamos deixar claro que vegans anti-humanistas são tão ilógicos e apoiadores de opressão e violência quanto humanistas especistas. Façamos com que os anti-humanistas se sintam constrangidos e impelidos a rever suas crenças sobre os seres humanos.

Uma ameaça ao veganismo abolicionista


Como o anti-humanismo de alguns vegans ameaça a reputação do veganismo abolicionista

Temos visto, nesses últimos meses, um crescimento da visibilidade da categoria de vegans anti-humanistas, inclusos reacionários de direita e misantropos assumidos. Essas pessoas não sabem, mas suas manifestações contra seres humanos estão prejudicando a reputação do vegano-abolicionismo.

Por causa dessa aparentemente crescente tendência de manifestações de ódio aos Direitos Humanos, aversão a minorias políticas e adesão fanática a ideais de direita, muitos carnistas e especistas estão batendo no peito e dizendo com satisfação: “Não é que tínhamos razão?”. Eles estão vendo estereótipos preconceituosos, como o do defensor animal que esnoba pessoas necessitadas e o do vegano que “não pensa nas crianças famintas”, se tornarem, em parte, reais.

Até algum tempo atrás, era fácil refutar mitos como que “os vegans amam os bichos porque desprezam os humanos” e “esses defensores radicais dos animais estão humanizando os animais e animalizando os humanos”. Afinal, eram estereótipos, visões preconceituosas que, fruto de malícia ou ignorância, não viam correspondência na realidade – já que vegans seriam, via de regra, pessoas preocupadas ao mesmo tempo com animais humanos e não humanos, capazes de lutar por várias causas ao mesmo tempo e assim derrubar mitos de falsa dicotomia.

Mas estamos presenciando vegans anti-humanistas tornarem “reais” esses preconceitos. Alguns defendem não o fim dos testes em animais, mas sim a substituição das cobaias não humanas por presidiários em experimentos cruéis. Outros pensam em como é cruel que bilhões de animais sejam assassinados em abatedouros e barcos pesqueiros por ano, mas não veem na exploração capitalista – muitas vezes baseada em semiescravidão ou trabalho escravo propriamente dito – imposta a trabalhadores humanos um motivo para uma indignação sedenta de justiça.

Outros defendem de meio-dia a quebra de todas as gaiolas, jaulas e baias de confinamento do mundo, mas às quatro da tarde do mesmo dia pregam o confinamento de “moleques vagabundos” em imundas e semidestruídas prisões de adultos – ao invés de medidas estruturais de prevenção à delinquência juvenil e ao crime adulto. Também há aquelas pessoas que se indignam em ver especistas dedicando aos animais não humanos o mesmo ódio e descaso moral que elas próprias dedicam a bilhões de seres humanos. E vão-se multiplicando os exemplos.

Isso tem feito carnistas e especistas assumidos sorrirem sarcasticamente. Afinal, aquilo que parecia ser apenas um mito antivegano – o desprezo vindo “desses vegans hipócritas e fanáticos” aos seres humanos necessitados – está se configurando, diante deles, como verdade. E torna-se algo que pode ser usado por eles para atacar o veganismo e estigmatizá-lo como uma causa “anti-humanista” que “pisoteia pessoas para salvar animais”.

A partir dessa “realização” de estereótipos, o vegano-abolicionismo corre o sério risco de ser difamado ainda mais do que já é. Estamos, por causa de pessoas que dizem compartilhar conosco o respeito aos animais não humanos mas declaram ódio ou indiferença egoísta a diversas categorias de humanos, prestes a ver militantes pró-produtos animais “comprovando” em seus blogs e fóruns, com prints de exemplificação em mãos, seus mitos estereotípicos e generalizantes sobre o comportamento ético de vegans.

Antes que esse contra-ataque de carnistas militantes e especistas assumidos venha a ocorrer, reforcemos como o veganismo, por definição, nunca negligenciou seus laços com os Direitos Humanos e as lutas sociais emancipatórias. Mostremos e demonstremos que ter respeito ético pelos animais significa tê-lo por todos os animais, incluídos seres humanos, e que respeitar os animais não humanos desprezando humanos é tão errado e antiético quanto respeitar seres humanos pisoteando a dignidade, a vida e a integridade física dos animais não humanos.

Veganismo não é dieta para emagrecer! É ética e respeitos aos animais.


A “dieta vegana aconselhada para perda de peso” e a realimentação da confusão sobre o que é veganismo

Na semana passada, foi noticiado em vários sites (exemplo) que a “dieta vegana” é “mais aconselhada” do que a onívora para perda de peso. Propagando a crença errônea de que veganismo pode ser definido como uma simples dieta vegetariana desprovida de objetivo ético, percebemos como é urgente que discutamos a reafirmação do veganismo como uma prática ética abrangente, não simplesmente uma opção alimentar.

A notícia em questão ajuda a propagar o mito do veganismo como resumível à alimentação. Com essa mitificação, muitas pessoas vão continuar acreditando que pessoas que não consomem nenhum alimento de origem animal mas continuam usando couro e indo a zoológicos e aquários podem ser chamadas de “veganas”.

Como resultado, o veganismo é separado de seu fundamento de consumo ético baseado em respeito aos animais. Perde sua abrangência ao boicote de produtos não alimentícios com ingredientes de origem animal e empresas que testam em animais (e podem ser boicotadas). E, resumido a uma mera dieta aética, acaba sendo usado como um rótulo lucrativo, a atrair um promissor nicho de mercado.

Aproveitando-se da crença de que veganismo é nada mais do que uma dieta vegetariana “emagrecedora” e nem sempre vem associada com ética animal, empresas que não estão nem aí para a miséria dos animais lançam linhas de produtos alimentícios “vegan-friendly”, sem ingredientes de origem animal e não testados em animais, a preços maiores do que os dos similares não veganos. E aí o público que realmente é vegano – com seu sentido original de respeito aos animais – e os vegetarianos que se acham “veganos” vão em massa comprar esses produtos.

Além disso, as mensagens que, vindas dos defensores dos Direitos Animais, orientam a população para que se torne vegana e definem o veganismo como ato de respeito aos animais perdem parte do sentido e da força. Quem se beneficia desse enfraquecimento são os exploradores de animais (pecuaristas, indústrias lacto-frigoríficas, donos de granjas, consumidores fanáticos de carnes e laticínios etc.), além de oportunistas como Beyoncé, usuária de casacos de pele que há um tempo atrás adotou uma “dieta vegana” temporária e depois abriu uma empresa de produtos “para vegans”.

Essa banalização mostra o quanto é importante que reiteremos que o veganismo é um fenômeno ético e político diretamente ligado à libertação animal, e não uma “dieta boa para emagrecer”. Essa reafirmação precisa, como objetivo, impedir que o termo “vegan” perca seu significado libertário e sua carga de consciência política e seja rebaixado a um mero termo caça-níquel, a ser usado em prol de produtos de “boa forma” e da exploração aética do nicho de mercado “vegan-friendly”. Os Direitos Animais dependem da manutenção da força do veganismo como atitude ética e consciente.

Redefinindo o vegetarianismo


Por que a redefinição do vegetarianismo importa para os animais e para o crescimento do veganismo

Tem-se discutido, em algumas ocasiões, a redefinição do termo vegetarianismo, que deixará de significar “alimentação sem carne que pode ou não incluir outros derivados animais” e passará a ser definido como “alimentação sem nenhum alimento de origem animal”. Algumas pessoas ainda discordam da mudança, mas talvez repensem essa discordância quando souberem que ela interessa muito aos animais não humanos e ao próprio veganismo, em seu crescimento populacional e amadurecimento ideológico.

Uma das razões pelas quais o debate é pertinente é que, com o patamar do vegetarianismo sendo mais exigente, a busca pela alimentação vegetariana como degrau para o veganismo proporcionará efeitos mais fortes contra a exploração animal. Uma pessoa vegetariana que não consome nenhum alimento do tipo faz mais bem aos animais do que uma ovolactovegetariana. Isso porque poupa fêmeas de nascerem para uma vida de escravidão e os filhotes delas de serem dados à luz “apenas” para serem mortos poucas horas ou dias depois do seu natal.

Fica assim mais explicitado que, tal como a simples abstenção de carnes vermelhas, o protovegetarianismo (novo termo a definir uma alimentação sem carne ainda dotada de outros alimentos animais) também é um patamar bastante insuficiente de consumo ético. Menos pessoas serão induzidas a crer que o não consumo de carnes seria um patamar mínimo aceitável ou mesmo suficiente.

Na mesma linha de raciocínio, a atualização do conceito de vegetarianismo tenderá a acabar com aquelas campanhas de “defesa dos animais” que se restringem a desaconselhar o consumo de carne. Ficará evidente que o clamor “Respeite os animais, não coma carne” parecerá tão incompleto e sem sentido quanto “Respeite os animais, não coma carne vermelha”.

Elas tenderão a dar lugar campanhas pró-vegetarianas mais aprofundadas e exigentes. E isso tornará mais fácil a adesão ao veganismo e ao ativismo abolicionista, já que a pessoa precisará subir um degrau menos – onívora > vegetariana > vegana > ativista abolicionista – que protovegetarianos – onívora > protovegetariana > vegetariana > vegana > ativista abolicionista.

Da mesma maneira, isso fará o vegetarianismo ser menos um fim em si mesmo, uma meta “suficiente”, do que um simples degrau abaixo do veganismo. Isso porque o vegetarianismo estrito é mais próximo do veganismo do que o protovegetarianismo. Um vegetariano estrito terá menos trabalho em simplesmente riscar da lista de compras marcas não alimentícias não veganas do que em ter o esforço duplo de, ao mesmo tempo, fazer isso e lutar para abandonar o consumo de laticínios, ovos e mel.

Uma outra razão que depõe muito a favor dessa reforma conceitual é que os estabelecimentos alimentícios (restaurantes, lanchonetes, bares etc.) ditos vegetarianos serão muito mais inclusivos e respeitadores dos animais. Dentro de algum tempo, terá fim o inconveniente de restaurantes “vegetarianos” oferecerem opções recheadas de violência contra animais e dedicarem apenas poucas opções realmente éticas – e, em alguns casos, duvidosas – para vegans e vegetarianos.

Estabelecimentos que se dizem “vegetarianos” mas fornecem pratos com laticínios, ovos e outros ingredientes cruéis não são muito “melhores” para os animais do que churrascarias e outros recintos que oferecem carne. Ambos sustentam seu acervo de opções na exploração e matança de animais em fazendas e granjas. Mesmo se disponibilizam alguns pratos ou componentes veganos, o fato de oferecerem opções antiéticas os torna cúmplices da mesma pecuária que explora e mata animais aos bilhões por ano.

Com a mudança conceitual do vegetarianismo, essas empresas serão moralmente obrigadas a abolir toda e qualquer opção api-ovo-láctea se quiserem continuar sendo (re)conhecidas como estabelecimentos vegetarianos. Esse abandono das opções não veganas fará um enorme bem tanto aos animais não humanos, muitos dos quais serão poupados de nascer para uma vida escravizada e breve, como para vegans e vegetarianos estritos, que finalmente poderão escolher nesses lugares o que quiserem, sem ter que perguntar aos cozinheiros o que leva ou não leva ingredientes de origem animal. E isso derrubará dois dos mais comentados obstáculos para o crescimento do veganismo – a pouca diversidade de recintos veganos de comer fora na maioria das cidades brasileiras e a não confiabilidade de alguns locais “vegetarianos”.

Com essa reforma do conceito de vegetarianismo, ficará mais fácil tornar-se vegan e poupar animais da miséria à qual a pecuária, a pesca e outras atividades os submetem. Assim sendo, faz mais sentido, também eticamente, nomear de vegetarianos apenas aqueles que já evitam todo e qualquer alimento de origem animal do que todas e quaisquer pessoas que tenham simplesmente parado de comer carne.

Alerta sobre as "reformas de bem-estar animal"


Alerta às pessoas de esquerda que defendem “reformas de bem-estar animal”: o bem-estarismo é uma posição essencialmente de direita

Alguém que não é tão difícil de encontrar são pessoas que se consideram de esquerdamas defendem o bem-estarismo na pecuária e em outras atividades de exploração animal – e consideram o veganismo abolicionista “radical demais”. Desconhecem que defender o “bem-estar animal” ao invés da abolição do especismo é necessariamente apoiar uma causa de direita. É uma bandeira conservadora e opressora.

Apoiar o “bem-estar animal” é estar do lado de quem, tal como patrões exploradores de trabalhadores, lucra a partir de uma situação de privação de direitos e coisificação da vida alheia. É defender que uma forma de exploração de seres vulneráveis merecedores de direitos não acabe, mas sim seja apenas reformada e suavizada.

Bem-estarismo é fundamentalmente reformismo conservador. É fazer pequenos ajustes na ordem vigente, fazê-la parecer mais “humana” e “compassiva”, para protegê-la dos opositores das opressões. Não notam que ele está para a exploração animal tal como o reformismo paliativo está para o capitalismo.

A defesa do “bem-estar animal” acha “ótimo”, por exemplo, uma fazenda deixar de confinar galinhas “poedeiras” em enormes granjas repletas de baterias de gaiolas e remanejá-las para vastas criações denominadas free-range (“livre alcance”, criação sem gaiolas). Pessoas de esquerda que a apoiam não percebem que isso não é tão diferente assim de quando uma empresa com má reputação, envolvida com emprego degradante de mão-de-obra mal remunerada, crimes ambientais e lobbies políticos reacionários, instala ar condicionado, cadeiras acolchoadas, teclados ergonômicos e música ambientenew age em seus escritórios e fábricas e dá pontualmente 15% de reajuste salarial para parecer “ética”.

O bem-estarismo e o reformismo conservador também têm em comum o fato de que não são orientados para o respeito à dignidade dos desejosos de liberdade, mas sim para diminuir as pressões dos emancipacionistas, fornecer ao mercado consumidor uma (ilusória) imagem dos exploradores como “humanitários” e “compassivos” – e uma do sistema como um todo como “valorizador do bem-estar” dos explorados – e deixar “claro” à sociedade como os anticapitalistas e antiespecistas são “extremistas defensores da desordem”.

Atuam de maneira que o status quo seja conservado e poupado de críticas contundentes. Permitem que as hierarquias sociais, econômicas e morais sejam preservadas e pareçam “justas”. Dão a entender que a hierarquização dos seres seria natural, necessária, inevitável e indestrutível e poderia apenas ser suavizada. E perpetuam as crenças de que não existiriam alternativas possíveis, haveria apenas como aliviar os piores efeitos da ordem vigente e a igualdade moral e social entre todos seria uma ilusão utópica irrealizável – algo fora das possibilidades da “natureza humana”.

Além disso, entidades bem-estaristas frequentemente fazem negociações com grandes empresas envolvidas diretamente com exploração animal, para que reformem suas instalações e abracem a “causa” do “bem-estar animal”. Casam, com essa atitude, o “bem-estar dos animais ‘de produção’” e os interesses econômicos das corporações, e mostram como capitalismo e bem-estarismo são BFF – best friends forever.

E o que o pessoal de esquerda que defende o “bem-estar animal” e esnoba o veganismo acaba fazendo é consentir que isso continue acontecendo. É aceitar que o(s) sistema(s) se renove(m) e aplaque(m) as pressões da opinião pública contrária às mais extremas crueldades promovidas pelo capital.

Todas essas semelhanças entre o bem-estarismo e o conservadorismo reformista deixam claro que os militantes de esquerda que defendem o primeiro estão caindo numa cilada, e equiparando-se aos direitistas defensores do segundo. Precisamos, portanto, deixar evidente como os Direitos Animais e as bandeiras de libertação humana são muito mais semelhantes e inseparáveis do que o senso comum acredita, e que um não faz sentido sem o outro.