Para além da carne fraca



A exploração e o uso de animais na alimentação humana extrapola qualquer explicação aparentemente óbvia sobre saciedade ou necessidade básica a determinada ingestão de calorias ou porcentagem x de proteínas diárias. Mais do que justificar um hábito alimentar em virtude da tradição, da cultura ou do corriqueiro costume por manter um paladar viciado em gordura animal, o fato é que comer carne (músculos, nervos, gorduras e vísceras de cadáveres de animais abatidos) em nossa sociedade transformou-se num verdadeiro dogma inatacável e intransponível. Ai daqueles que ousam atravessar o caminho do bife até o prato ou do hambúrguer de marca famosa!

O fato é que a operação Carne Fraca da Polícia Federal, revelando esquemas fraudulentos para escamotear a qualidade de uma carne imprópria para consumo, trouxe a tona não somente a vulnerabilidade de um sistema que não garante em sua totalidade e integralidade os padrões sanitários exigidos por lei, como também serviu para demonstrar o quanto nossa sociedade é refém de si mesma ao cultivar uma dieta equivocadamente centrada em produtos de origem animal. Mas, é necessário manter o dogma de comer carne a qualquer custo, ainda que a preocupação com a saúde fique restrita ao episódio momentâneo repercutido pela mídia. Nenhuma fala lembrando a obesidade que atinge mais de metade da população brasileira entre adultos e crianças, e suas consequências em termos de diabetes, colesterol, pressão alta e doenças cardiovasculares, e que entre outras causas estão associadas ao excessivo consumo calórico de gorduras e de proteína animal. Nenhuma fala lembrando o relatório divulgado em 2015 pela OMS – Organização Mundial da Saúde colocando as carnes vermelhas processadas na lista nº1 de alimentos carcinogênicos.

Muito se fala dos prejuízos econômicos, já que o Brasil lidera as exportações de carne bovina no mundo, porém ninguém fala do custo ambiental imensurável provocado pelas queimadas e pelo desmatamento, sobretudo na floresta Amazônica, para abertura de novas áreas de pastagem e criação de gado ou de cultivos de cereais para ração animal; dos gases estufa e das alterações climáticas; dos 15 mil litros de água desperdiçados para a produção de 1 kg de carne bovina, da contaminação do solo e dos recursos hídricos por esterco, pesticidas e fármacos.

Por fim é preciso lembrar dos 70 bilhões de seres sencientes abatidos violentamente e precocemente todos os anos pela indústria da morte, ou da carne. Aliás, a expressão “carne” é de um eufemismo tamanho que só perde em hipocrisia para “empresa fabricante de proteína”!

MÁRCIO LINCK

O valor da vida - Por Ricardo Luiz Capuano



Quem disse que você vale mais do que eu? Quem disse que sua vida é mais importante que a minha? Quem… Você disse? Você acha isso?

Você pode se achar melhor do que eu, em cima de seu púlpito de vaidade e orgulho pode bradar aos quatro ventos que você, e os seus, são superiores e valem mais do que os outros, como fizeram os nazistas e os escravagistas. Enquanto tiveres o poder, podes impor suas ideias preconceituosas e vaidosas, mas tudo é passageiro, como o nazismo caiu por terra sua hora também chegará!

A “Lei Aurea” um dia irá nos alcançar e teremos nossas vidas consideradas tão importantes como a tua. Não nos negarão mais uma alma, não nos negarão a inteligência, as emoções e a capacidade de sentir a dor, o medo e o amor. Dia chegará que serás obrigado a nós respeitar pela pena da lei, pelo medo da degradação pública.

E nesse dia, mesmo que tiveres essas ideias de superioridade que invadem seu ego, terás que engoli-las em seco e mantê-las dentro de tua alma maldita e preconceituosa sem poder expressa-las sem cair no ridículo.
Se me feres eu não sangro como você? Se me bates não quebras meu ossos? Não vês em meus olhos, na hora da morte o medo e o terror? Então o que te faz melhor do que eu?

Preocupastes com sua família, assim como eu me preocupo com os meus, procuro educa-los e ensinar a melhor maneira de viver nesse mundo como fazes com seus filhos. Quando pequenos dou-lhes comida e abrigo os protejo em um lar, que por mais simples em comparação, não deixa de ser tão amoroso como o seu.

Se somos tão iguais, por que se acha no direito de assassinar os meus de persegui-los e matar minha família, meus amigos… e pior… Ainda fazes chacota de minha tristeza, humilha-me com palavras de uma obscenidade sem par, porque violas o que existe de mais sagrado, minha alma, minha vida e minha hereditariedade! E se não bastasse, desgraçado que és, dai rizada daqueles que nos defendem, nos entendem e respeitam, chamando –os de loucos quando na verdade estes só são realistas.

Gargalhadas de bufão que um dia se tornarão em lagrimas merecidas! Porque se existe um Deus,( mesmo que deformastes sua imagem para que parecesse com ti) e se Ele é justo, pagará com lagrimas de sangue cada dor e sofrimento que causaste.

Um dia seu poder acabará e todos os reprimidos serão libertos! Todos que foram encarcerados injustamente perseguidos, violentados e mortos para satisfação de seu desejo estarão ao seu redor para cobrar a justiça!

Nesse dias olharás para mim com vergonha e em lagrimas pela força do entendimento e da moral e pedirás de joelhos perdão e EU LHE PERDOAREI, POIS EU SIM….SOU MELHOR QUE VOCÊ!

Ass: Filomena – A Galinha Autor: Verter Gheister

Breve reflexão sobre o especismo para o Dia Mundial Vegano


Tenho constatado com preocupação a crescente onda de veganos se autoproclamando "antiespecistas". 

Por que isso seria preocupante? 

Porque me parece um princípio equivocado sobre o qual apoiar a nossa causa.

Explico-me:

Em primeiro lugar, uma questão mais histórica e conceitual, esse antiespecismo me remete, negativamente, à tendência pós-moderna de reduzir todos os conflitos sociais a formas de discriminação: sexismo, racismo, classismo, heteronormativismo, e assim por diante. Historicamente, isso se deu pela constatação de que o modelo marxista de explicar as injustiças e desigualdades a partir da luta de classes se mostrou limitado. Mas esse esforço resultou na construção de uma categoria muito abstrata de “opressão” que, em vez de partir da realidade concreta da exploração material, condicionou-a a uma forma de discriminação ou preconceito prévio, que a legitima. Apenas um dos muitos problemas dessa visão de mundo é que essa forma de pensamento idealista tem muitas poucas evidências em seu favor. Geralmente a ideologia surge para justificar um estado de coisas, e não o contrário.

Outro problema dessa obsessão com o especismo é uma questão muito prática que, me parece, está diretamente relacionada com essa interpretação idealista e simplista do fenômeno.

Abolir o especismo, por si mesmo, não enseja nem o veganismo nem a liberdade animal. Há muitas formas de sermos antiespecistas. Podemos ser antiespecistas que não reconhecemos direitos a nenhum animal, inclusive o animal humano. Podemos ser antiespecistas que não reconhecemos a dignidade inerente de nenhum indivíduo, inclusive o indivíduo humano. Filosofias ambientalistas ecocêntricas demonstram isso com muita eloquência. A “ética da terra” de Aldo Leopold sustenta que, pelo bem maior da preservação ambiental, todos os indivíduos podem ser sacrificados. Um mundo antiespecista, portanto, pode muito bem ser um mundo em que todos os indivíduos sencientes sejam igualmente descartáveis. O fascismo, portanto, pode ser antiespecista.

Não podemos escapar do estabelecimento de uma hierarquia de valores quando nos deparamos com as questões fundamentais da ética e da política: o que constitui uma boa vida?; qual o fundamento da justiça?; qual a melhor forma de organizar a sociedade? E, tão somente a partir da reflexão até aqui exposta, parece bastante claro que há um princípio mais fundamental sobre o qual se ancora a causa animal: o respeito pela vida e a dignidade individual do ser senciente.

O ativismo político de modo geral tenta responder a essas perguntas com um princípio básico, supremo. Para os liberais, será a liberdade. Para os socialistas, a igualdade. Percebo que para os veganos tem sido o especismo.

Já passou da hora de romper com esse simplismo conceitual. Não existe ideal supremo, conceito mágico aglutinante, que nos ofereça todas as respostas. Se queremos efetivamente responder às grandes questões éticas e políticas, precisamos pensar, de forma pluralista, num conjunto de valores.

Sim, somos antiespecistas, mas não somos só isso, e existem valores superiores, aos quais nos comprometemos antes de sermos antiespecistas. São os valores que pautam nosso antiespecismo.

Somos antiespecistas porque somos contra a violência e a exploração a que submetemos os animais. Somos antiespecistas porque nos comprometemos com a sua liberdade, desejamos que eles sejam moralmente iguais a nós, que nossos princípios de justiça seja estendidos a ele, e porque desejamos que suas vidas e interesses fundamentais sejam respeitados. E desejamos isso não a nenhuma categoria abstrata de animal ou espécie, mas a todos os indivíduos sencientes.

Antiespecismo nem de longe dá conta de denominar ou fundamentar estes princípios e nossos objetivos. Abolicionismo e animalismo são conceitos muito melhores e eu não entendo bem porque o primeiro tem caído em desuso e o segundo nem sequer foi suficientemente elaborado.

Parece-me que as pessoas se preocupam com a apropriação espúria que bem-estaristas têm feito do abolicionismo, assim como já fizeram com veganismo e direitos animais. Entretanto, essa atitude reativa não resolve o problema. Todo conceito é imperfeito, pelos motivos já expostos, e o antiespecismo me parece particularmente vulnerável. E se, em vez de opor resistência aos oportunistas, ficarmos inventando novos conceitos toda vez que eles tentarem se apropriar de nossa causa, nós mesmos jamais teremos uma identidade própria.

Denominar aquilo que queremos é sempre mais construtivo e mais abrangente do que denominar aquilo a que nos opomos.

Nesse sentido, e como eu o percebo, o animalismo se pauta nos seguintes princípios fundamentais:

– Dignidade individual
– Liberdade
– Igualdade

Para que estes princípios prosperem, devemos abolir a exploração, a escravidão animal. Somos abolicionistas.

Essa exploração é legitimada por uma ideologia especista, e por isso somos antiespecistas.

E o primeiro passo para efetivar a abolição e trazer para o mundo concreto esses princípios que professamos no mundo das ideias é adotar o veganismo.

BRUNO MÜLLER

Coisa ou alguém? - Por Aleluia Heringer



─ Aleluia, você poderia nos ajudar? disse a professora do 3º ano do Ensino Fundamental. – É que no livro de geografia consta que o animal é recurso natural renovável. As crianças estão aceitando esta afirmação, porém com desconfiança e muitas perguntas. Você poderia bater um papo com elas?

Peguei o livro para ver como era essa história. De fato, é este o ensino dado às crianças pelo Brasil afora. Simples, direto e sem nenhum constrangimento. Qual o problema se, de fato, o animal é um “bem” disponível para nós? Posto na mesma categoria do minério, petróleo, água ou plantas, o que muda entre eles é ser ou não renovável. Está correta a afirmação pois, de fato, no nosso cotidiano e em quase todas as nossas ações está implícito que devemos usar, aproveitar partes, consumir, usufruir para entretenimento, cortar e abater animais e depois, por inseminação artificial, é possível gerar, aos montes, outros iguais. O ciclo recomeça e o recurso se renova.

Este dado pode passar, para alguns, totalmente desapercebido ou, em outros, causar grande estranheza. Isto é o mais intrigante. Como enxergamos uma mesma realidade e vemos coisas tão diferentes? Esta aula de geografia é somente um fragmento de um longo processo que levará as crianças, futuros adultos, a um estado de naturalização da condição do animal como coisa/produto.

Outros fragmentos virão da grande mídia, da economia, dos adultos, da escola, da igreja, da família, da filosofia, dos médicos, da cultura, da tradição etc. Assim, de forma imperceptível, cada um fazendo um pouquinho, um modo de entender e de pensar estará solidamente estruturado em nossa mente.

Não temos nem mais clareza do que seja animal. Nós os subdividimos em muitas categorias: extinção, doméstico, abate/alimentação, pesquisa, entretenimento, vestuário/moda e tantas outras do alcance de nossa imaginação. O livro de geografia, portanto, não fala para as crianças de todos os animais, está implícito que não é o panda, o cachorro, o boto-cor-de-rosa ou a arara-azul, mas de um tipo de animal, entre os quais, o boi, a vaca, o porco e as galinhas que decidimos e categorizamos como sendo para o abate ou para a indústria animal. Esses nascem e morrem na casa dos bilhões por ano, portanto renovam-se na velocidade de nosso consumo e demanda. Ainda assim, quando olhamos para um desses animais, o que enxergarmos? O que aconteceu conosco que enxergamos uma coisa e não alguém? Quem e quando desligamos esta chave de entendimento?

Donald Barnes é um pesquisador da Escola de Medicina Aeroespacial da Força Área Norte-Americana e esteve à frente dos experimentos na Plataforma de Equilíbrio de Primatas da Base Aérea de Brooks. Reginaldo José Horta menciona, em seu livro Por uma ética não especista (2017, p.141), que Barnes estima ter submetido à radiação cerca de mil macacos durantes os anos que ocupou o cargo, “com total indiferença para o sofrimento e os interesses dos animais”. Esta indiferença é denominada por Barnes como “cegueira ética condicionada”, para se referir aos argumentos que eram utilizados como viseiras com intuito de “evitar enxergar a realidade que estava escancarada diante de seus olhos”.

Algo parecido acontece no 5º episódio da 3ª temporada – Engenharia Reversa – da série Black Mirror. O episódio inicia com os soldados sendo preparados para “caçar baratas”, e nos leva a entender que se trata de algo perigoso ou mesmo pragas ou insetos que estejam trazendo doenças para toda a população. Quando as primeiras baratas aparecem, são de fato figuras asquerosas, deformadas, mas com alguma semelhança com humanos. Como a história se dá na perspectiva de um dos soldados, ele tem um problema em uma de “suas próteses” e, com isso, há uma mudança, também, naquilo que vemos. As baratas passam a ser vistas por nós, como humanos “normais”. O que mudou? Um chip era implantado no cérebro dos soldados com o intuito de mascarar a realidade e fazer com que vissem não pessoas, mas “baratas” que precisavam ser eliminadas, pois não eram, dentro daquela estrutura, dignas de direitos e garantias. As “baratas”, ou aquela categoria de humanos, não gozavam mais da proteção de nada que lhes pertencia, inclusive da vida.

Se a indústria envolvendo o uso de animais como commodities ou produto é o que move grande parte da economia mundial, é de se esperar que, para este sistema, é estrategicamente crucial que continuemos olhando para os animais e enxergando coisas e não alguém. Enxergar alguém exigirá de nós outra postura, outras perguntas e uma outra ética. Não é normal aceitar que animal é recurso natural renovável. Vale, sim, o estranhamento das crianças, nossa única esperança.

Por que você ainda usa produtos testados em animais?







Os efeitos da publicidade sobre nossas escolhas são perceptíveis, mas nem sempre são óbvios. Não é somente no ato da aquisição que estamos sucumbindo à influência da mídia, mas muitas...


Os efeitos da publicidade sobre nossas escolhas são perceptíveis, mas nem sempre são óbvios. Não é somente no ato da aquisição que estamos sucumbindo à influência da mídia, mas muitas vezes junto com o produto compramos ideias, atitudes e não raro há quem defenda-as como parte de sua própria identidade.

No mercado existem o que é chamada de marcas líderes, que geralmente investem em propaganda pesada, tentando transmitir uma ideia de que aquele produto é o melhor de todos, já que está no topo das vendas e das marcas mais pensadas pela população.

O vegano não é um consumidor comum, que come o que sua família lhe impõe pois aprendeu que aquilo era o padrão e segue repetindo o que pai e mãe ensinaram nos primeiros anos de idade até a velhice, sem nunca refletir.

O vegano escolhe o que irá comer, o que irá vestir e até mesmo como irá se expressar, com consciência e atitude política.
Não só é um consumidor ativo do mercado formal, como também cria sua própria alimentação e produtos, inventa pratos novos, adapta receitas velhas ao olhar novo.

Ao tornar-se vegana, uma pessoa começa a tarefa de fazer a leitura de rótulos dos produtos que irá consumir.

No começo, tarefa árdua, depois até divertida.

É preciso ler os conteúdos/ingredientes dos produtos para saber se há elementos de origem animal como carnes, ovos, leite, seda, extrato de pérola etc. E também saber se aquela empresa realiza testes em animais.

As listas de empresas que realizam testes em animais são muito fluidas, mudam constantemente. Devido a contratos, muitas empresas unem-se a outras que testam, unindo capital e potencial.

O boicote é uma das armas do ativista vegano. Não podemos nos deixar levar por impulsos consumistas de pegar a marca mais famosa, mais fácil na prateleira. Marcas essas que muitas vezes são romantizadas pelos próprios ativistas como fundamentais. Difícil entender porquê uma pessoa precisa pagar pau para um determinado produto, se não receberá nada por isso.

E as discussões em defesa de marcas que testam em animais e ainda contém elementos de origem animal beiram o ridículo. As pessoas defendem abertamente nas redes sociais produtos fúteis como bolachinha recheada, coisas absolutamente desnecessárias e com muitas opções na concorrência que não realizam testes e possuem ingredientes veganos. Aparentemente é impossível entender o porquê de tamanha ignorância, mas pensando mais profundamente, percebe-se a grande influência da propaganda na mente de pessoas manipuláveis e sem senso crítico.

Quando você ouvir aquele otário que repete sem parar “I love bacon” para provocar os veganos, não fique com raiva. Ele é apenas um idiota manipulado por algo que aconteceu há décadas atrás, mas como é um imbecil, jamais irá na origem para saber por que ele precisa tanto se auto afirmar através de uma provocação meio retardada, uma frase clichê.

A Revista Galileu publicou estes tempos uma matéria muito interessante intitulada: ‘A “moda do bacon” foi orquestrada pela indústria de carne de porco nos EUA’

Foram as grandes indústrias que fizeram as famílias acreditarem que era saudável comer ovos e bacon no café da manhã. Até hoje há matérias no Google, falsas, sobre a dieta do bacon para emagrecer.

Edward Bernays, sobrinho de Freud, é conhecido como o pai das Relações Públicas e Publicidade/Propaganda modernas e ajudou a inculcar na cabeça das pessoas, que este ‘alimento’ era necessário.

Nos últimos dez anos, a propaganda massificada a favor do bacon fez as pessoas acreditarem que esse é um alimento indispensável na alimentação.

E não é. Carne de animais são completamente desnecessárias e não apenas em termos de saúde ou sabor. A maior razão para não comer animais é que eles são indivíduos que possuem dignidade. Eles não são objetos.

Mas e quando o sujeito é “vegano” e mesmo assim insiste em usar produtos testados em animais? Como entender esse paradoxo? Os testes realizados em animais são tão cruéis, exploratórios e degradantes quanto a morte e exploração de animais para consumo. As cobaias são mantidas de formas inimagináveis (há ampla literatura e fotos sobre o assunto), sendo usadas como objetos de pesquisa, de testes de produtos dos mais variados tipos, para depois serem descartadas e mortas, assim como o animal que vai para o abatedouro. Então, o que há de vegano em parar de consumir animais mas seguir usando produtos testados? Não há nada.

Está na hora de ter um pouco mais de senso crítico antes de comprar produtos testados. Procure saber como são os testes. A maior parte dos veganos deve saber, suponho. Portanto, relembre. E reassuma o compromisso com os animais. São testes doloridos, cruéis, e mesmo os que porventura não o são, exploram a vida, a dignidade do animal, que não pediu para estar ali, à disposição dessa praga, chamada humanidade.

“Comer animais”: ler vegano é parar de recomendar



Em 2011, o livro “Comer Animais” de Jonathan Safran Foer chegou ao Brasil e despertou alguns debates acerca do vegetarianismo como uma forma de salvação da humanidade. Li a obra pela primeira vez naquela mesma época e me pareceu fantástico o banho de conhecimento que estava chegando até mim – na época ainda um feto no mundo vegetariano. Depois de uma conversa com minha namorada (que deixou claro que não tinha gostado tanto assim do livro), decidi reler e confesso que não mais recomendarei a obra com tanto fervor.

Safran Foer possui um tipo de linguagem muito interessante e que realmente cativa os leitores – ainda mais aqueles que estão chegando empolgados em um novo universo de “salvação de animais” –, mas isso não é suficiente quando se fala em exploração animal, direitos animais e qualquer outro tema que circule nessa atmosfera abolicionista. Até porque o grande problema do livro todo não está na linguagem, mas sim na mensagem pouco-ou-quase-nada abolicionista. Apesar de deixar claro todo o crime que está envolvido no “processamento animal”, ele flerta demais com o bem-estarismo e por momentos permite-se ser levado por ele para sombras escuras demais.

Há diversos momentos em que o autor deixa clara a própria impressão de que o grande problema das granjas industriais está na forma com que os animais são abatidos, não no fato de eles serem abatidos. Safran Foer elogia pequenas produções norte-americanas que trabalham com modelos humanitários e chega até mesmo a parecer concordar que uma vida sem stress pode justificar a ida ao matadouro. Mesmo assim, diz que não dará carne para seu filho.

O que não fica claro é o real motivo pelo qual ele tomou essa decisão. Há momentos em que parece ser ambiental (“montes de merda são jogados no mundo”), em outros parece apenas saúde (“doenças que vem da carne”) e até mesmo políticos (“USDA e suas artimanhas legais”)… Por alguns ele parece mais alinhado com a abordagem abolicionista (“os grãos da produção alimentariam a humanidade faminta”), mas ainda assim parece uma escrita que trabalha mais com uma declaração de culpa do que um algo que possa ser usado pelo ativismo.

Um dos pontos que mais incomodou na segunda leitura (após alguns anos de veganismo) foi a ausência de críticas ao modelo ovolactovegetariano. Mesmo quando o autor diz que é possível viver saudavelmente com uma dieta vegetariana e deixa claro que a crueldade contra animais está longe de ser uma exceção no processo, Safran Foer resume sua crítica à crianção industrial e ao abate de animais “de corte”.

Nisso, deixa de lado ou quase ignora a situação excruciante de vacas leiteiras, de porcas reprodutoras, de vitelos, de galinhas poedeiras, e de tantos outros animais que são usados para a produção de bens de consumo. De uma maneira bem crua, não seria tão errado dizer que Safran Foer investiu anos de pesquisa para escrever pouco mais de 200 páginas para reforçar o que Paul McCartney já havia dito – deixando de lado o que ele também deixou…

“Se as paredes dos matadouros fossem de vidro, o mundo seria vegetariano [mas mantenham as paredes da indústria de laticínios concretadas, por favor!]”

Comer Animais pode ser um excelente cartão de visitas para quem está deixando de comer animais. Pode ser uma obra boa no sentido literário e favorecido pela facilidade com que o autor se conecta ao leitor. Mas está bem longe de ser um guia para quem é (ou tem algum desejo de ser) abolicionista.

Cid Moreira, Júnior Lima e outros famosos estão no Calendário Veg, projeto para ajudar os animais



Para ajudar, basta comprar o seu calendário.


Giulia Gayoso (atriz), Cid Moreira (jornalista), Júnior Lima (músico), Nina Rosa (ativista), Cazé Peçanha (apresentador), Anajú Dorigon (atriz), Juninho Sangiorgio (músico), Paulo Victor Guimarães (fisiculturista), Sonia Abrão (apresentadora), Eduardo Jorge (político) e Rodrigo Lima (músico) estão no Calendário Veg 2018. Há ainda um último nome que ainda está para ser confirmado.

O Calendário veg é um projeto dos fotógrafos Fabio Stachi (site), Patricia Costa (Facebook) e Rachel Siqueira (Facebook).

A ideia é simples: vender calendários com fotos muito bem produzidas de celebridades vegetarianas e doar 100% do lucro para ONGs que cuidam de animais. A versão 2018 beneficiará o Santuário das Fadas, do Rio de Janeiro, e a Comunidade Crer-Sendo, também do Rio de Janeiro.

Para ajudar, basta comprar um ou mais calendários. É um ótimo presente de natal. O calendário custa R$ 40,00 + R$ 7,50 de frete (compre aqui).