A vaca louca e o boi verde, por José Otavio Carlomagno, engenheiro agrônomo


A doença da vaca louca: todo mundo já ouviu falar dela, mas pouca gente sabe do que se trata. Outra coisa, todo mundo deve ter notado que há alguns anos fez-se um barulho muito grande nos países europeus, pessoas que comeram carne de gado com a doença morreram, mas de repente o barulho cessou e pouco se tem falado sobre essa doença. Em 2010 houve um surto no Canadá e alguma notícia surgiu na mídia, mas logo em seguida não se ouviu mais falar sobre o assunto. Vou tentar resumir o que é a doença e mostrar o que ela tem a ver com o desmatamento no Brasil.
O nome ‘vaca louca’ se deve aos sintomas que a doença produz nos animais. Tecnicamente a doença se chama Encefalopatia Espongiforme Bovina, traduzindo: doença que dá aspecto de espoja a tecidos nervosos dos bovinos. Este aspecto de esponja somente é visível ao microscópio óptico. Essa doença já foi observada em humanos, gatos, ovinos, cabras, camundongos. É uma doença esporádica e cada espécie atacada tem um agente patogênico específico apesar, porém todos apresentam similaridades e podem se tornar variantes em outras espécies, por esse motivo o agente que causou a doença em bovinos também a causou em humanos que consumiram a carne bovina infectada.
Na década de 1980, quando foram relatados os primeiros sintomas na Inglaterra e França, não se sabia ao certo qual é o agente causador da doença. Pensou-se, de início, que o gado atingido tinha ingerido herbicida, pois este produto causa distúrbios neurológicos em mamíferos, depois se pensou em bactéria, vírus, até se chegar ao príon que é uma proteína que pode se replicar de forma autônoma, não tem os componentes de uma célula, nem DNA, é somente uma molécula de proteína. Mas ainda não se tem certeza absoluta de que o agente patológico sejam os príons.
Como já disse antes, a doença é esporádica, mas por que virou epidemia na Europa? Os bovinos são herbívoros, isso todo mundo sabe, mas na Europa, por falta de espaço ou outro motivo, a maioria do rebanho é criada em condições de confinamento total ou parcial. Daí os animais não mais pastam, pois são alimentados com rações. As rações são balanceadas e após estudos decidiu-se acrescentar proteínas de origem animal às rações, a fonte mais barata dessas proteínas são os próprios restos de carne e farinha de ossos de bovinos, inclua-se aí cérebro de bois e vacas que eram portadores da doença Encefalopatia Espongiforme Bovina. Desse modo a disseminação da doença foi rápida e atingiu nível de epidemia, inclusive com morte de seres humanos que consumiram carne de animal doente e adquiriram a doença.
O ser humano tem ideias fantásticas, principalmente quando se trata de afrontar a natureza. Pense bem, transformaram os bovinos, ovinos e caprinos, que são animais herbívoros, em carnívoros e canibais, pois comem na ração restos de animais da mesma espécie. Não digo essa ironia por achar que a natureza se vinga, porque não é isso, a natureza não se vinga e nem pratica justiça, piedade, nada disso, não é necessário ser doutor em alguma coisa para saber que dar carne a herbívoro é um completo absurdo, mas a ganância sempre fala mais alto. Sempre há quem defenda esse tipo de procedimento, ou também lotar um aviário com 11 aves por metro quadrado, num ciclo de 45 dias e na ração acrescentar doses cavalares de hormônio de crescimento e antibióticos, para que as aves cresçam sem doenças. Uma boa propaganda na tevê encobre tudo.
O Brasil não teve problemas com a doença da vaca louca: o rebanho brasileiro é criado a pasto, há muito pouco confinamento de gado de corte no país. Somente a pecuária leiteira usa mais rações e concentrados na alimentação do rebanho.
Na década de 1980, estimava-se que o Brasil atingiria 200 milhões de cabeças de gado bovino somente em 2015, com uma taxa de abate de no máximo 17%. Em 2001 o país tinha 157 milhões de cabeças, pois bem em 2010 o Brasil já possuía 205 milhões de cabeças com taxa de abate de 21,5%. É o segundo maior rebanho do planeta, só perde para a Índia. Esse incremento se deve ao crescimento das exportações para Rússia, União Européia, China e USA. Na Europa o boi brasileiro passou a ser chamado de ‘boi verde’, criado de maneira ‘natural’, a pasto, sem rações, somente com um pouco de hormônio contrabandeado do Paraguai, mas isto não faz mal.
Segundo o INPE, no período de 2001 a 2010 foram desmatados na Amazônia Legal aproximadamente 157 mil km² de desmatamento raso, em que a terra fica totalmente nua para o plantio de lavoura ou grama, sendo que os estados campeões de desmatamento foram Mato Grosso, Pará e Rondônia, responsáveis por 60% da área desmatada. Coincidentemente foram nesses três estados que o rebanho de ‘boi verde’ aumentou vertiginosamente, tanto que Mato Grosso tornou-se o segundo maior exportador de carne bovina, só perdendo para São Paulo.
Os europeus estão comendo nossas florestas, estamos exportando nossas florestas para os estadunidenses comerem-na na forma de hambúrguer. Por isso quase não se fala mais em vaca louca, eles têm a Amazônia para desmatar e colocar o ‘boi verde’, evidentemente com ajuda dos lacaios patrícios nossos, que não vêem problema em de depredar tudo, sujar a água para a população dos países ricos desfrutar a carne do ‘boi verde’. Isso me faz perguntar: será que algum dia o Brasil vai perder o complexo de colônia, de quintal dos ricos? Viva o Brasil, viva o boi verde.

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