Veganos, remédios e acusações de “hipocrisia”, por Robson Fernando de Souza


Um dos contra-argumentos mais comuns entre carnistas para tentarem desqualificar o veganismo como “hipócrita” ou “sem sentido” é o uso eventual, ainda que inevitável, de remédios pelos veganos. Segundo eles, “dizemos” respeitar os animais – ou, segundo muitos, “ter pena” – mas seríamos hipócritas porque usamos medicamentos, todos os quais foram um dia testados em animais. Tantas dessas pessoas, aliás, dizem que é por isso que deveríamos exaltar, e não criticar, as pesquisas científicas em animais não humanos. Outros tantos nos dizem, em função disso, que deveríamos “morar no mato” ou nos suicidar se realmente prezamos pelos animais. Um argumento que acaba pegando veg(etari)anos novatos, mas tem falhas sérias.
Nos acusar de hipocrisia por defender os animais mas consumir medicamentos sempre parte da premissa de que o veganismo só seria válido se fosse adotado a 100%. Mas não percebem os acusadores que esse veganismo absoluto não existe. Mesmo a pessoa mais vegana da cidade grande acaba tendo que usar, por exemplo, o sabonete líquido daquele hotel, que pode ter glicerina animal na composição, ou a toalha de papel de uma empresa que faz testes em animais. E também andar num ônibus dotado de pneus que possuem como ingrediente ácido esteárico de origem animal. Isso sem falar nos próprios medicamentos.
A pessoa é vegana quando, além de ser vegetariana estrita, já se esforça em boicotar o máximo possível de produtos com ingredientes de origem animal e empresas que realizam ou subsidiam testes de segurança in vivo. Embora precise ter o compromisso de evitar aquilo que for possível e usar alternativas no lugar, não precisa – nem pode, na verdade – ser 100% livre desses produtos, tal como alguém só é vegetariano quando suas refeições possuem 0% de carnes.
Aliás, um dos objetivos do veganismo, ainda que seja secundário perante o grande objetivo da libertação animal, é justamente tornar possível uma vida 100% vegana. Não é dando ouvidos a quem nos chama de “hipócritas” que o veganismo absoluto vai ser possível um dia, mas sim continuando o boicote vegano e amplificando as formas coletivas e políticas de mobilização, para que os laboratórios parem de torturar animais, a biotecnologia crie modelos superiores  e éticos de pesquisa biomédica e a indústria corte seus negócios com a pecuária e pesca que lhes fornecem matérias-primas.
Retomando a questão dos remédios, os carnistas falam como se houvesse uma opção que permitisse ao ser humano o abandono dos mesmos. Ignoram que medicamentos são algo inexorável, inevitável, para qualquer pessoa. Veganos têm amor pelos animais, mas também por sua própria vida. E sabem que não tomar medicamentos nas horas em que eles se fazem necessários é entregar-se a sofrimento intenso e duradouro e, em muitos casos, também pôr sua vida em risco.
Além disso, não se enxerga no meio carnista que, muito embora seja impossível mesmo veganos não tomarem remédios em algum momento da vida, o vegetarianismo estrito, como parte integrante do veganismo, diminui ou mesmo evita a necessidade de medicamentos para diversas doenças. Diabetes tipo 2, problemas cardiovasculares, alergias, diverticulite, demência, câncer, obesidade etc. podem ser prevenidos, ou pelo menos ter sua probabilidade diminuída, por uma alimentação vegetariana bem balanceada.
E paralelamente às acusações de “hipocrisia” ou “falta de sentido”, o meio carnista ainda vem tentar nos convencer de que, como todo remédio é testado em animais e por esse e alguns outros motivos a vivissecção vem sendo essencial no salvamento e prolongamento de vidas humanas, deveríamos agradecer aos cientistas vivisseccionistas, e não criticá-los por torturarem animais. Em outras palavras, deveríamos ou prestar honras à experimentação animal ou simplesmente nos abster de criticá-la, nos calar, visto que não teríamos moral para criticar aquilo que possibilita a existência de inúmeros medicamentos que nos salvam a vida.
Mas esse também é um ponto argumentativamente frágil. E uma analogia com os produtos “made in China” pode elucidar o porquê dessa fragilidade.
A grande maioria dos produtos eletroeletrônicos que consumimos hoje em dia, como celulares, computadores, lâmpadas fluorescentes e tantos outros, é produzida na China. E naquele país há um império de superopressão trabalhista. Salários ridiculamente baixos, jornadas de trabalho exorbitantes, férias minúsculas, repressão de greves, censura de reivindicações, mais-valia imensa para o empresariado etc. são aspectos que estão por trás do celular que usamos – seja o mais barato celular à moda antiga ou o mais sofisticado smartphone –, das diversas peças do computador que nos serve todos os dias, do despertador que nos acorda…
E muitas pessoas são contrárias a esse regime semiescravo e gostariam que ele não existisse, que a China fosse uma democracia onde o povo realmente fosse senhor de seus próprios direitos e das decisões políticas, que lá os trabalhadores fossem respeitados e gozassem de amplos direitos. Mas ainda assim não podem boicotar os produtos produzidos naquele país, visto que hoje a dependência da China por parte das necessidades tecnológicas das pessoas é comparável à de petróleo por parte da energia automotiva e da produção de plásticos e óleos.
Mas nem por isso deixam de expressar seu desejo crítico em solidariedade misericordiosa aos trabalhadores chineses. É de se perguntar então: os defensores da experimentação animal e acusadores dos veganos, sendo adeptos da máxima “Os fins justificam os meios”, defendem também a exploração trabalhista chinesa em prol da satisfação tecnológica dos ocidentais? Costumam chamar os opositores dessa superexploração de “hipócritas” ou dizer que a queixa deles “não tem sentido” ou “não tem moral”? Dizem-nos para agradecer aos empresários das multinacionais e aos ditadores do Partido “Comunista” Chinês pelo acesso aos eletroeletrônicos ou então morar no mato?
Não há hipocrisia em ser um vegano sem ser 100%. Nem em assim se denominar e, por outro lado, usar remédios quando a necessidade obriga. O que há aí é o esbarro nos limites do veganismo, o que, no entanto, não é algo que nos esmoreça na luta pela libertação animal. Para aqueles pontos que o veganismo não consegue alcançar sozinho, há diversas outras formas de mobilização.
Na impossibilidade de sermos 100% veganos, por que não podemos ser, digamos, 70% veganos, mantendo nossa atenção para evitar o que for possível de produtos com ingredientes sujos e empresas que testam em animais? E o que nos impede de compensar a impossibilidade do veganismo 100% usando de ativismo sociopolítico contra a escravidão animal? E por que não há a mesma pressão conservadora contra aqueles que criticam o regime trabalhista chinês? Isso os carnistas estão desde já convocados a responder.

3 comentários:

  1. Quando optei pelo veganismo também tive esses mesmos questionamentos, principalmente quando vamos ao supermercado e nos deparamos com rótulos que dizem, "esse produto foi feito em equipamentos onde se processam leite e ovos". Eu me sentia perdida e não conseguia me chamar de vegana por causa desses produtos e outros. Além dos produtos mencionados acima, canetas, mobília, caixas, entre tantos outros que fazem uso de ingredientes de origem animal nos mostra que ser 100% vegano ainda é um ideal, que acredito eu será alcançado no futuro. A sociedade se tornou dependente desses produtos, e somente podemos fazer uso daquilo que temos opção de escolha. Não há opções para esses produtos citados. Não há opções para vários tipos de remédios. E o bom senso nos diz que temos que fazer uso deles quando adoecemos. Foi preciso eu ler um livro do ativista americano e vegano Erik Marcus confirmando que é impossível ser 100% vegano para eu me sentir melhor. No entanto, eu acho mais justo me identificar como "near vegan" (quase vegan) do que dizer que sou vegan. Fazendo isso, eu evito desentendimentos com carnívoros. Precisamos sim estar preparados para as críticas e falta de informação por parte daqueles que nos cercam. Adorei o artigo e vou compartilha-lo.

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  2. Gostei da matéria, e de tudo que o amigo Robson Fernando de Souza escreve, pois tem a propriedade de colocar os argumentos em alto nível, sem paixões e de tal forma que mesmo os que contestam nossos argumentos se sintam respeitados. Tenho me deparado quase que diariamente com questionadores do veganismo, e sei que os que são iniciantes no mesmo se sentem tolhidos e talvez até mesmo desanimados. Por isso fico feliz sempre que tenho algo assim pra repassar em minhas páginas nos sites sociais, na certeza de que poderão ajudar a estes. Continue sempre assim amigo Robson....

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  3. O mundo é cheio de contradições...essa é a verdade...quantos veem cenas de abates e comentam " Que dó"...mas quantos deles deixam de comer carne por isso? Não adianta sentir dó e continuar consumindo carne. Enquanto houver consumo de carna haverá abates....porque o mundo é movido pelo dinheiro...os "grandes" seguem por onde mais dá lucro......

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