Prática adquirida com o uso da tecnologia



Cursos de diferentes áreas têm apostado cada vez mais no uso de simuladores para fazer os alunos desenvolverem capacidades profissionais

 ADRIANA CZELUSNIAK

Felipe Rosa / Gazeta do Povo / Laboratório de Habilidades Clínicas e Simulação da UPAmpliar imagem
Laboratório de Habilidades Clínicas e Simulação da UP
Divulgação / Anhembi Morumbi 
Uma grande lista de recursos acompanha o cão Jerry (foto), produzido pela empresa norte-americana Rescue Critters para substituir cachorros verdadeiros durante as aulas. Ele é capaz de emitir 24 sons diferentes, similares aos de um paciente canino em um hospital veterinário. O robô possui pulmão artificial e sistema circulatório, no qual é possível aplicar injeções e coletar um líquido que simula o sangue, além de boca e garganta muito próximas do natural, que são usadas para treinamento de intubação.
Quer mais? Os ossos da perna traseira podem ser substituídos por outros com diferentes tipos de fraturas. No Brasil, o cão-simulador ainda não se popularizou devido ao alto custo (um dos modelos é vendido por US$ 3 mil), mas já é usado em instituições como a universidade Anhembi Morumbi, de São Paulo.
Ratos virtuais em uso na PUCPR
Aniele Nascimento / Gazeta do Povo 
A partir deste semestre, alunos de Psicologia da PUCPRencontraram uma novidade no câmpus. Depois de um ano e meio de ensaios, o programa Sniff está em funcionamento no Laboratório de Psicologia Experimental. O uso do software tem a pretensão de substituir os ratinhos mantidos no Biotério da instituição. “Os ratos são os animais mais usados na Psicologia por serem mamíferos inteligentes e de comportamento dócil, além de nos ensinarem pelo condicionamento muitos princípios do comportamento humano”, conta o coordenador do curso,Nain Akel (foto).
Com os ratinhos virtuais, a mesma observação poderá ser feita sem que animais sejam sacrificados no fim do semestre. “Há professores que dizem que a aprendizagem com os animais é mais eficiente. Talvez seja, mas a ética deve prevalecer sobre o gosto ou preferência e vamos aproveitar esse avanço científico.”

Eles parecem videogames desenvolvidos para adultos, mas a sua utilidade está longe do entretenimento. Simuladores têm sido usados em vários cursos superiores para facilitar a dinâmica das aulas e trazer mais realismo aos estudos. Assim como um piloto usa softwares e equipamentos para aprimorar seu desempenho, testar planos de voo e simular falhas mecânicas em um avião, acadêmicos de diversas áreas têm o computador como um aliado à formação. Entre as possibilidades estão experimentar propriedades da Física – como movimento, som, radiação e calor – e até testar procedimentos médicos em animais robotizados. O resultado é um recém-formado pronto para a prática da profissão.
Nas Engenharias, os simuladores são fundamentais, pois, ao lado dos cálculos matemáticos, ajudam a tornar processos mais eficientes, seguros e baratos. O professor de Engenharia Mecânica da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) José Foggiatto mostra como exemplo as análises térmicas e os programas que avaliam a resistência de materiais a partir de testes do esforço a que eles são submetidos. “Não se coloca uma peça em um carro sem antes simular e avaliar a geometria e a tensão”, explica.
A evolução dos simuladores também contribuiu muito para a segurança. Em indústrias, pela automação, um braço de robô pode ser projetado para substituir pessoas na área de soldagem, por exemplo. “Sem o simulador, haveria muita chance de erro na linha de produção. Os robôs podem substituir homens em serviços perigosos e livrá-los de problemas de saúde”, explica Foggiatto.
Humanização do ensino
Em cursos de outras áreas, como Medicina, Odontologia, Veterinária, Enfermagem, Fisioterapia e Educação Física, também há cada vez mais opções de programas de computador capazes de simular procedimentos e reações humanas e animais. Entre as imitações possíveis estão a dissecação, o laboratório e a realidade virtual.
Na dissecação virtual, por exemplo, é possível avaliar uma rã pelos seus sistemas esquelético, muscular e digestivo, em diferentes camadas e níveis de transparência. Laboratórios computadorizados permitem estudos específicos, como analisar a fisiologia dos nervos com o uso do mouse. Já a realidade virtual usa a tecnologia dos jogos para simular procedimentos clínicos.
Segundo Ipojucan Calixto Fraiz, coordenador do curso de Medicina da Universidade Positivo, o uso de softwares simuladores e de peças sintéticas na formação dos médicos representa avanço nas propostas de humanização do ensino. “Os alunos têm atividades no Laboratório de Habilidades Clínicas e Simulação e no Morfofuncional durante os dois primeiros anos de formação, antes de frequentar os hospitais, o que representa o respeito aos futuros pacientes”, afirma.
Investimento
O alto investimento é um dos empecilhos para a disseminação de simuladores modernos em universidades brasileiras. Apesar do custo elevado, a bióloga e mestre em Microbiologia Nagomi Kishino defende que o gasto compensa. “Eles [os simuladores] têm a vantagem de serem usados repetidas vezes. Assim, em um curto espaço de tempo, compensam os gastos com a manutenção de um biotério [onde são criados os animais para pesquisa e ensino]”, afirma.
Resistência é superada com o tempo
Entre os principais objetivos do uso de simuladores na área da Saúde está a substituição de cadáveres e animais nos laboratórios das universidades. Apesar da resistência de professores e alunos em relação à troca, a comprovação da eficiência das novas alternativas tecnológicas sustenta a mudança adotada pelas instituições, segundo João Bizario, diretor de Ciências da Saúde da Laureate Brasil, rede internacional com 11 faculdades no país.
Na Laureate, a oposição foi contornada com a capacitação de docentes, que passaram a conhecer novos métodos de ensino em visitas a outras instituições nacionais e estrangeiras. Com o tempo, os estudantes também desmistificaram a ideia de que precisam trabalhar com cadáveres ou animais e perceberam a importância dos simuladores. “Nossos alunos podem desenvolver competências – como passar sonda, fazer intubação ou aplicação de medicamentos – em robôs que representam o corpo humano completo. Usamos simuladores de alta complexidade para que não atendam um paciente sem ter feito aquele procedimento antes”, explica.
Fórmula 1
Segundo Nain Akel, coordenador do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), se um piloto de Fórmula 1 mentaliza um circuito e pratica manobras usando uma espécie de videogame, estudantes também podem desenvolver capacidades com o uso de simuladores. “Por que o professor precisa usar o rato de laboratório com os alunos se já temos um software eficiente que o substitui?”, questiona.
>>> Confira as opiniões de alunos de diferentes cursos sobre o uso de simuladores na faculdade:
“Não tivemos contato com simuladores, mas você chega às empresas e elas só usam esses softwares. Quem não faz curso por fora tem de aprender na marra. A universidade deveria ensinar as ferramentas que as empresas usam atualmente.”
Leandro Mendes, recém-formado em Engenharia Mecânica.
“Na minha formação tive experiência rica usando ratos, pombas, rãs, peixes e insetos. O aluno precisa mesmo mexer nesses animais? Algumas coisas mudaram. Hoje, na UEL, o insetário [mostruário de insetos], que levava à morte centenas de insetos, não é mais feito, assim como o eletrocardiograma de rãs. Contudo, os professores ainda não têm o costume de oferecer alternativas.”
Nagomi Kishino, bióloga e mestre em Microbiologia.
“Em algumas disciplinas, os simulares podem ser essenciais ao aprendizado. Considero de grande importância o uso ético de animais e cadáveres no ensino. Em Farmácia, temos aula de Anatomia com cadáveres humanos e usamos animais para ensaios pré-clínicos de drogas e medicamentos. Sem o uso deles não seria possível fazer esses estudos.”
Kleber Berté, formado em Farmácia.
“Durante as aulas, não tivemos contato com cadáveres. Só com vídeos, bonecos e peças sintéticas. Se desse para trabalhar com o real, pelo menos nas aulas de Anatomia, seria melhor, pois as peças não permitem ver todos os detalhes. Mas não posso dizer que não aprendi ou que o ensino foi prejudicado por isso.”
Vagner Machado Gueber, recém-formado em Enfermagem.

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