Rodeio é crueldade e sofrimento, por Raquel Bencsik Montero



O rodeio é uma prática que, indubitavelmente, causa sofrimento aos animais submetidos a ela, e por isso, em nada se assemelha com  cultura ou esporte.
Existem laudos oficiais, destacando-se os laudos da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo e do Instituto de Criminalística do Rio de Janeiro, atestando o sofrimento e os maus tratos causados aos animais pelas várias práticas do rodeio.
Nos rodeios são utilizados bovídeos, equinos e caprinos. Todos estes animais são expostos ao desafio da dominação do homem que participa do rodeio, chamado peão.
Em estado normal esses animais são calmos e não ficam pulando. Assim, estando o animal em estado normal é impossível de ele, animal, ficar pulando com o peão em cima dele, como acontece no rodeio.
Dessa forma, o homem altera a natureza do animal por meios artificiais para que o animal pule na arena. Esses meios artificiais são vários;

·        sedém - espécie de cinta, de crina e pelo, que se amarra na virilha do animal e faz com que ele pule. Um pouco antes do animal entrar na arena, o sedém é puxado com força, comprimindo ainda mais a região onde está amarrado, causando enorme dor. Nessa região existem órgãos, como parte dos intestinos, bem como a região do prepúcio, onde se aloja o pênis. Portanto dizer, os defensores do rodeio, que o sedém provoca apenas cócegas, é sórdido. 
Aliás, mesmo que o sedém cause apenas cócegas, ainda assim haveria maus tratos. Cócegas é uma sensação particular, irritante, que provoca movimentos espasmódicos. Portanto, mesmo que apenas as cócegas fossem causadas, por si só já caracterizam os maus-tratos. 
E esse sofrimento não dura apenas oito segundos, como afirmam os defensores do rodeio. Oito segundos é o tempo que o peão deve permanecer no dorso do animal, porém, deve-se lembrar que o sedém é colocado e comprimido tempos antes do animal ser colocado na arena, quando ainda no brete, e também tempos depois da montaria. Além disso, há declarações de peões que dizem treinar de 6 a 8 horas diárias, portanto, todo este tempo o animal estará sendo maltratado.

·        Esporas - esporas são objetos pontiagudos ou não, colocados nas botas dos peões, servindo para golpear o animal na cabeça, no pescoço e no baixo-ventre. Todos esses golpes contribuem para que o animal corcoveie de forma intensa. E quanto mais golpes com as esporas, mais pontos são contados na montaria. Portanto, as esporas machucam o animal, normalmente provocando cortes na região cutânea e perfuraçãPeiteira_odeio_rodeioo no globo ocular;

·        Peiteira - é uma corda ou faixa de couro amarrada e retesada ao redor do corpo do animal, logo atrás da axila. A forte pressão desse apetrecho causa sofrimento e ferimentos ao animal;

·        Polacos - são sinos colocados na peiteira, os quais produzem um barulho altamente irritante ao animal, o qual fica ainda mais intenso a cada pulo seu;alt

·        Objetos pontiagudos - pregos, pedras, alfinetes e arames em forma de anzol que são colocados nos sedenhos ou sob a sela do animal;

·        choques elétricos e mecânicos - aplicado nas partes sensíveis do animal antes que entre na arena;

·        terebintina, pimenta e outras substâncias abrasivas -  são introduzidas no corpo do animal, antes que entrem na arena. Essas substâncias, em contato com cortes e ferimentos, causam muita dor e ardor;

·        golpes e marretadas - na cabeça do animal, seguido de choque elétrico. São utilizados quando o animal já está velho e não serve mais para o rodeio, de maneira a produzir sua morte;

·        descorna - é o corte do chifre dos bovídeos, para determinadas provas do rodeio. Esse corte é feito com um serrote, sem anestésico, causando muito sangramento e dor;

·        transporte dos animais - para levar os animais para o rodeio, utiliza-se de transportes que proporcionam extremo desconforto ao animal, tendo em vista que os animais ficam em espaços muito apertados. Também, por vezes, quando os animais são colocados ou retirados dos carros, caem e fraturam membros e ossos;

·        brete - é o local onde o animal fica confinado antes de entrar na arena, para a prova do rodeio. É um momento que causa intenso estresse para o animal;

·        prova de laço - consiste em tentar capturar um bezerro, de aproximadamente 40 dias de idade, através do lançamento de um laço. Capturado o bezerro, através do laço, o animal sofre um tranco no exato momento em que é laçado, prejudicando toda a sua estrutura física, fraturando seu pescoço e causando-lhe lesões que podem tanto deixá-lo paralítico como levá-lo à morte.

Assim, é impossível, inadmissível e indefensável, pensar e cogitar que, com tudo isso, o animal não venha a sentir dor, maus tratos, sofrimento.
A professora Júlia Matera, presidente da comissão de ética da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, in Parecer Técnico sobre a potencialidade lesiva de sedém, peiteiras, choques elétricos e mecânicos e esporas em cavalos e bois diz: “A utilização de sedém, peiteiras, choques elétricos ou mecânicos e esporas gera estímulos que produzem dor física nos animais, em intensidade correspondente à intensidade dos estímulos. Além da dor física, esses estímulos causam também sofrimento mental aos animais, uma vez que eles têm capacidade neuropsíquica de avaliar que esses estímulos lhes são agressivos, ou seja, perigosos à sua integridade”.
Em relação às provas de laço, disse o perito veterinário, Dr. José Lincoln Leite de Campos, nomeado pelo MM. Juízo de Jaguariúna, nos autos da ação popular nº 649/01, referindo-se à edição de 2003 do Jaguariúna Rodeo Festival: “(...) quando fugindo da condição que foi imposta a ele, é laçado [bezerro de 40 dias de idade], sofre um tranco, podendo ocorrer danos no seu pescoço, causando lesões leves, graves ou gravíssimas, reversíveis ou irreversíveis, podendo até levá-los à morte”.
Complementando, o médico veterinário E. J. Finocchio, disse para a revista The Animals Agenda: “Testemunhei a morte instantânea de bezerros após a ruptura da medula espinhal. Também cuidei de bezerros que ficaram paralíticos e cujas traquéias foram total ou parcialmente rompidas. Ser atirado violentamente ao chão tem causado a ruptura de diversos órgãos internos, resultando em uma morte lenta e agonizante”.
Sobre as conseqüências dos constantes maus-tratos aos animais de rodeio, Dr. C. G. Harber, médico veterinário com trinta anos de experiência como inspetor de carne da USDA, acostumado a receber animais de rodeio destinados para o abate após 10 ou 15 anos de “trabalhos”, em artigo publicado em março de 1990, na revista The Animals Agenda, disse:  “O pessoal dos rodeios manda seus animais aos matadouros, onde tenho visto gado tão machucado, que as únicas áreas em que a pele continuava ligada eram na cabeça, pescoço e pernas. Tenho visto animais com seis a oito costelas separadas da coluna vertebral e, às vezes, penetrando os pulmões. Tenho visto entre dois e três galões de sangue livre acumulado debaixo da pele solta.”
Fica evidente que sem o uso destes instrumentos e meios, o animal não pula na arena, portanto, só pula porque está sentindo dor, e muita dor. Circunstância que comprova a crueldade que lhe estão aplicando, sob o mito de esporte e cultura.
Cultura é tudo aquilo que contribui para o desenvolvimento intelectual da pessoa, e esporte, toda a prática que contribui para o desenvolvimento físico da pessoa, sendo que, em ambas as situações temos, necessariamente, um desenvolvimento, e desenvolvimento traz prazer e não sofrimento.
Sendo assim, se o que temos com o rodeio é sofrimento aos animais, não temos cultura nem esporte, temos sofrimento dos animais e crueldade por parte daqueles que estão produzindo o sofrimento.
Por isso o rodeio tem que acabar em todo lugar em que ele existe nesse formato, ou pode continuar a existir, mas sem animais, até mesmo porque já ficou demonstrado que o que leva as pessoas para o rodeio não é a prática cruel com os animais, mas sim, os shows. Então, em mais esse aspecto os organizadores do rodeio estão sendo ignorantes e nem precisariam estar sendo criticados, se já tivessem se atentado que para o rodeio ter sucesso bastam os shows, prescindindo da existência dos animais, inclusive dos maus tratos produzidos aos animais.

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