A estratégia do dedo na cara é um tiro no pé da conscientização vegetariana, por Robson Fernando de Souza

Imagem antipedagógica em circulação no Facebook literalmente deda a cara dos onívoros, causando-lhes mais repulsa contra vegetarianos do que consciência da necessidade de abandonar os alimentos de origem animal. Fotomontagem: Divulgação

A imagem acima, em circulação no Facebookresume aquilo que se deve evitar em termos de conscientização de onívoros em torno do assunto Alimentação e Ética. Ela traz literalmente um dedo apontado à cara do leitor, perguntando “Você come carne?” e dizendo em seguida, com muitas imagens de atrocidades em granjas industriais e matadouros, “Então saibas que és responsável pela morte desses animais e pela forma que são tratados em vida”. É uma estratégia que atira no pé do movimento veg(etari)ano e cria mais repulsa da parte dos onívoros do que interesse pela nossa causa.
Essa é aquela que eu chamo “estratégia do dedo na cara”, em que se faz o que a figura mencionada faz: apontar o dedo na cara dos onívoros; estigmatizá-los; chamá-los ou insinuar-lhes o atributo de cúmplices ou coautores do crime de crueldade contra animais; imputar-lhes a imoralidade, o caráter desviado, a responsabilidade direta; plantar-lhes a culpa e a vergonha.
Inocentemente essa tática tenta convencer os consumidores de carne de que sua alimentação precisa ser repensada e, assim, formar novos vegetarianos. Mas a consequência prática não é nada que corresponda à expectativa dos donos dos indicadores em riste. Ao invés de conquistar mais pessoas para a ideologia dos Direitos Animais, ela tende a repelir os onívoros que leem a pérola autoritária.
Isso porque é natural que as pessoas, ao serem dedadas no rosto e submetidas a acusações cuja lógica não compreendem plenamente, se sintam muito menos esclarecidas e conscientizadas do que ofendidas, agredidas e discriminadas. É ligeiramente similar a cristãos acusarem pessoas sem religião de “pecadores”, “imorais” e “condenados ao inferno por não aceitarem Jesus” a partir de uma lógica que só faz sentido aos olhos da cristandade.
Acusar, dedar a cara, chamar implícita ou explicitamente de imoral e criminoso não são meios de educar ninguém. Naturalmente a consequência, ao interlocutor, desse meio de tentar divulgar o vegetarianismo será a autodefesa, a rejeição à ideia apresentada, a reação irada, o questionamento do temperamento do “conscientizador”. Em outras palavras, isso formará novos reacionários, e não vegetarianos. Vai formar pessoas que generalizam a todos os veg(etari)anos os defeitos de alguns, como a arrogância, o autoritarismo, o proselitismo ofensivo, a sensação de superioridade sobre os onívoros e a antidiplomacia, e por tabela os odeiam.
Que o digam muitos lacto e ovolactovegetarianos, que são pressionados e mesmo hostilizados por alguns veganos que querem que parem logo de consumir alimentos de origem animal. Embora haja talvez bastantes deles a divulgar a imagem aqui criticada, detestariam ser alvo de um dedo-na-cara por parte de veganos. Odiariam ser acusados de cumplicidade com o abate de vacas leiteiras aposentadas, bezerros, galinhas retiradas da “linha de produção” de ovos e pintinhos machos e com o confinamento de fêmeas tratadas como máquinas de produção. Isso poderia fazê-los desistir do veganismo, por lhes inspirar a impressão de que este induziria aos adeptos a arrogância.
Figuras como essa, que tentam conscientizar de maneiras nada adequadas, deveriam ser tanto evitadas como criticadas – nesse último caso, pelo lado onívoro e pelos veg(etari)anos que discordam de seu uso. Elas fazem mais mal – para os dois lados e também para os animais não humanos – do que bem. Descartadas elas, o novo caminho a ser adotado é o da diplomacia, do questionamento, da didática, da compreensão dos motivos do outro lado para ainda comer carne e do trabalho dialético em cima desses motivos.

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