Tudo que existe tem vida, por Nina Rosa


Quando acreditamos nessa possibilidade, o mundo se enche de relações, o tempo todo, onde quer que estejamos. Se acreditamos na comunicação extra-humana, nossa vida fica imensamente rica, mas nossa responsabilidade e trabalho também crescem.
Sim, porque se uma flor caiu do arbusto no cimento escaldante, e ali pertinho tem um canteiro de grama onde ela poderia estar melhor, ou se determinada pedra demonstra querer mudar de lugar, ou certa árvore pede ajuda, não há como não atender – se estivermos atentos ao nosso redor e se confiarmos na própria intuição. Felizmente esses seres têm alma coletiva, pois assim, fazendo por um, fazemos pela espécie, do contrário não haveria tempo hábil para “atender a todos”.
É uma alegria esse relacionamento fugaz, sem compromisso formal, mas muito solidário. São amizades que fazemos, silenciosamente, discretamente, por onde passamos.
Até agora falamos dos reinos da natureza sem falarmos dos animais, pois esses são hors concours, dão luz e propósito a nossas vidas, e, por amá-los e respeitá-los, sentimo-nos responsáveis por proteger todos eles, a ponto de querermos – e trabalharmos – para mudar o mundo.
Mas e se falarmos dos outros, considerados coisas ou objetos? Sinto que também com eles podemos nos relacionar. Ao limpar e lustrar uma mesa, estamos nos comunicando (consciente ou distraidamente) com ela, e, por tabela, com todos aqueles que participaram de sua confecção, desde a árvore ou outra matéria-prima, ao desenhista, artesão ou operário, ao transportador, vendedor, e assim por diante durante toda a sua transformação.
Porém, ao sentarmos a uma mesa, para comer ou estudar, quem de nós lembra dela, ou dos inúmeros apetrechos que usamos para nosso conforto?
A quase infinita oferta de produtos gera a desvalorização do que temos ou vemos. Mas na verdade, cada peça tem sua origem, história e “vida”, dependendo dos caminhos que percorreu e das mãos pelas quais passou. Se não percebemos isso, ficamos apenas a utilizá-las, e nos privamos da interação.
Se ao contrário, praticamos a atenção, essas relações podem enriquecer ainda mais nossa vida interior e, como acréscimo, tornar nossa existência aqui na superfície da Terra bem mais aconchegante, pois estaremos sempre rodeados por energias solidárias, que, em silêncio, nos reconhecem e nos inspiram à gratidão por tudo o que existe.

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