Veganismo: um novo sentido para a vida

Amanda e Vandir cultivam em casa abóbora, abacaxi, hortelã e manjericão que acrescentam à alimentação. (Foto: Éder Azevedo)

Alexandre de Oliveira Legendre, Amanda de Souza Jerônimo e Vandir Souto descobriram no vegetarianismo uma abertura para um modo de vida muito autêntico. Os três são veganos  interessados em fazer uma revolução começando por modificar a si mesmos e acabam contaminando, no bom sentido, as pessoas não com discurso competente mas com a sua atitude diante da vida.
O modo de encarar a vida do vegan busca frear problemas na pauta de gestores públicos e privados, ONGs, instituições internacionais e pesquisadores de todo mundo. Os três integram uma tribo interessada na mudança do consumo desenfreado identificado como um problema da sociedade do século 21. A Terra não suportaria o modelo baseado no consumismo potencializado planetariamente por uma população estimada de 7 bilhões de habitantes e projetada para 9,3 bilhões de pessoas em 2050, números divulgados em 2011 pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Preocupados com a saúde, com a questão ecológica, com consumo integrado à natureza, o vegano cultiva mudanças no seu modo de vida suplantando a célebre frase “você é o que você come”. O vegano defende e propaga a consciência profunda para modificação de hábitos de vida, como a adoção do vegetarianismo.
Para a galera vegan não basta simplesmente não comer carne, é preciso respeitar os animais. Alexandre defende a consciência profunda para modificação de hábitos de vida, como a adoção do vegetarianismo.
Desde 2002, Alexandre desenvolve uma postura diferente a partir da reflexão do mal da padronização da vida que leva a uma crença, de maneira inconsciente, para aceitação de hábitos como verdades irrefutáveis. Doutor em química inorgânica e professor da Unesp em Bauru, ele comenta que “desligou o automático” quando passou a relacionar hábitos assimilados por condicionamento social.
Vandir descreve que o modo de vida Ocidental gera a sensação de que tudo é “normal”, identificada como doença por Roberto Crema, Jean-Yves Leloup e Pierre Weil  no livro “Normose, a patologia da normalidade”, editora Vozes.
O vegano tem um comportamento que não se satisfaz somente com uma dieta vegetariana, que já é bastante diferente para os padrões médios da sociedade brasileira. O adepto abre sua perspectiva de vida para alternativas de consumo. Rechaça produtos que tenham origem animal, como cintos, roupas, calçados e chapéus. Alexandre também cita que não utiliza produtos de higiene, como shampoos testados em animais antes de irem para as prateleiras das melhores casas do ramo. Ele cita que a indústria da moda tem acesso a materiais sintéticos de altíssima qualidade.
Amanda e Vandir  formam um casal adepto do “faça você mesmo”. Eles retiraram de suas vidas produtos de higiene industrializados. O conceito vegano rechaça produtos testados em animais e aqueles que usam gordura animal. Amanda fez um curso e produz desodorante para o casal. Sabonete também só o caseiro, com base neutra de glicerina conjugada com óleos essenciais. Se engana quem imagina que a tribo vegan passa perrengue. Para menstruação Amanda usa coletor menstrual. “É absorvente ecológico”, simplifica.
O professor de química defende o modo de vida vegano tomando como exemplo o que se convenciona admitir como “natural” do ser humano realizar, como andar de carro e voar, por exemplo. Em uma analogia direta, ele argumenta: “O que é natural? Se fala que tudo isso é natural então se está dizendo que usar tecnologia é natural. E se você pode usar tecnologia para o próprio conforto, por que não pode usar para criar um ambiente mais sustentável e evitar o sofrimento de outras espécies?”.
Respeito
O respeito incondicional a outras espécies animais é uma questão muito importante na reformulação de hábitos para um vegano. Alexandre pontua como exemplos para se refletir o sexismo, como privilégios para homens em detrimento das mulheres; o racismo em que a raça branca teria supremacia em relação à negra.  Ele contextualiza que várias violências foram cometidas contra mulheres e negros. O professor de química faz o mesmo paralelo para a relação entre a espécie humana e as demais espécies. “Se você julga que a sua espécie é superior a outra e pode explorá-la das formas mais absurdas possíveis é especismo. Se acha que o sexismo, racismo, homofobia são errados, por que não acha errado quando se trata de um animal?”, questiona.
Ele refuta o argumento de que os animais seriam desprovidos de consciência contrapondo a recente postura divulgada por um grupo de pesquisadores reunidos em uma conferência na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, em julho do ano passado. A “Declaração de Cambridge sobre a Consciência em Animais Humanos e Não Humanos” revê, com base em estudos de vários especialistas, conceitos aceitos até então (leia o texto traduzido).
Alternativas
A condição de vegano é muito confortável para Alexandre. Ele comenta que não encontra dificuldades para se alimentar. O cardápio é variado com frutas, legumes, pimentas, hortaliças e massas preparados pelo professor de química. Ele ressalta que não falta qualidade e sabor pois sempre encontra uma alternativa.  Para garantir a ingestão necessária de vitamina B12, considerada com uma das mais complexas, o vegano  consome algas wakame ou kombu ricas em propriedades vitamínicas.
Cozinha é saúde
Amanda, 24 anos, e Vandir, 35 anos, fazem da gastronomia uma grande descoberta para uma alimentação saudável fugindo dos produtos industrializados como enlatados e embutidos. Ela virou vegetariana com 17 para 18 anos. O período coincidiu com sua mudança de Botucatu para Bauru quando foi cursar História na USC. Amanda comenta que não teve dificuldades.
Vandir modificou sua alimentação para superar uma sensação de que o organismo estava saturado. O início da relação com Amanda facilitou. “A contradição é na família com os pais preocupados. Os irmãos tirando sarro. Cria-se um mito em relação a quem não come carne”, avalia Vandir.
A cozinha é onde começa tudo na casa dos dois. Eles contam que no preparo do alimento está o equilíbrio do organismo. O casal vivencia o uso de especiarias que tornam o alimento mais saboroso. Vandir comenta que o paladar se refina com o uso de condimentos.
Amanda comenta que as “facilidades” nas gôndolas dos supermercados estão fora do cardápio, como os enlatados e embutidos. O casal se adapta a uma alimentação crudívora, um dos ramos do vegetarianismo. O cimento de parte do quintal foi tomado pela produção de abóbora, abacaxi, manjericão e hortelã.
Amanda e Vandir integraram sua casa ao seu conceito de vida. Designer, Vandir mantém uma agência de criação trabalhando home office em um dos cômodos. No que seria a sala, foi transformado em um amplo estúdio com bancadas e armários que formam o que Vandir denomina bióloja. Ali amigos expõem uma produção artesal que reutiliza e dá novo sentido a diversos materiais. Ao invés das latas de tinta ou óleo irem para o lixo, os recipientes são reaproveitados na confecção de bancos. Penas, CDs entre outros materiais viram decoração. A dupla finaliza uma grande tela com a imagem de Krishna, figura central do hinduísmo uma das fontes de inspiração do casal.
Vandir e Amanda também trabalham em coletivo no Grupo de Teatro Solar. Gastronomia, reaproveitamento, arte, criação, ioga, meditação, busca da autorrealização, consciência em expansão, espiritualidade, agricultura familiar, alimentos orgânicos e cultura caipira são estímulos para as escolhas do casal vegano. Para maio, eles planejam uma Feira de Trocas aberta para a comunidade conhecer o espaço, enquanto toma contato com um modo de vida que já faz parte da vida de muitas pessoas em Bauru. A casa de Vandir e Amanda abriga cursos, vivências e outras formas de troca de conhecimento. Na Feira, além dos produto artesanais haverá música, vídeos, sarau, comida, troca de produtos e informações. “Queremos que a sociedade evolua junto. E dar passos todos na mesma corrente”, sugere Amanda.
Vandir nasceu em Capão Bonito (SP) e adotou Bauru quando veio estudar design na Unesp. Amanda e Vandir também são atores e gestores culturais.
Conveniência determina conduta
Toda mudança por mais consensual e óbvia que pareça desassossega o ser humano. Ninguém aceita de pronto abandonar o que se convenciona denominar “zona de conforto” pelo novo ou por aquilo que se associa com o incerto.
Para o vegano Alexandre de Oliveira a resistência humana à mudança está intimamente ligada às incontáveis conveniências admitidas como corretas pelo ser humano. Esse comportamento predispõe as pessoas a não mudarem o modo de vida e de pensamento. “Para você não olhar para dentro e ver o quanto de coisa errada você fez ao longo da sua vida. Por que nós estamos acima de outras espécies e qual é a nossa contribuição aqui?”, questiona.

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