Nosso canibalismo moderno


Há algum tempo venho pensando sobre nossa relação com os outros animais.
Estou convencido, hoje, de que apesar de a história ter enfatizado o abismo criado entre nós e eles[1] (e chamá-los a todos simplesmente “animais” indistintamente já denota um preconceito arraigado), a despeito de sua aparência, comungamos com eles características e sentimentos fundamentais. Trocando em miúdos, uma postura especista – de discriminação com base na espécie –  não se sustenta.
Em outros tempos, a medida que os europeus conheciam novos povos, aquelas pessoas “exóticas” diferentes eram muitas vezes classificadas separadamente do restante da humanidade do “mundo conhecido”. Quando digo separadamente quero dizer que havia um debate para saber se essas pessoas eram ou não seres humanos[2].
Podemos ainda pensar naqueles seres humanos que eram classificados como “monstruosos”[3], coisa que hoje, ao menos em meios minimamente esclarecidos é impensável, quer dizer, ninguém recusa reconhecer a humanidade a um exemplar da espécie humana unicamente pelas suas diferenças anatômicas: a monstruosidade, de um conceito para deformidades físicas, hoje, se tornou uma metáfora para a deformidade moral.
O filme de David Lynch, O homem elefante, dá uma mostra de excepcional beleza de como a maldade por trás dessas separações e classificações, no caso dos monstros humanos, operava. Talvez algo parecido ocorra em relação aos animais: o fato de distingui-los radicalmente de nós faz com que nos tornemos insensíveis ao seu sofrimento silencioso.
Há autores, como Mary Midgley[4], James Rachels[5], Peter Singer[6], Richard Ryder[7], Tim Ingold[8] ou Stephen Clark[9] que, já há alguns anos vêm tentando argumentar contra essa separação radical. Pode-se dizer que todos eles, em alguma medida, pactuam da ideia de que, depois das teorias de Darwin, impossível sustentar aquela separação e, assim, como consequência lógica de sabermos que temos parentesco próximo, que partilhamos muito da mesma condição que os outros animais, uma nova ética na relação com eles deveria se impor.
Sem discordar disso, é preciso reconhecer que, seja como for, não foi o que aconteceu desde Darwin. Na verdade, de sua teoria da evolução foram feitos os usos mais diversos, ela sendo usada para justificar tanto posturas belicistas quanto pacifistas, tanto uma ética predatória e de competição quanto uma ênfase na cooperação e na solidariedade[10].
Vejo com frequência muitas pessoas que estão convencidas da necessidade de se levar os animais moralmente em conta, mas que não conseguem transpor suas conclusões do pensamento à prática. Isso, certamente, se deve a hábitos arraigados: é difícil mudar um costume, e esse fator cultural, na hora de fazermos as análises desse tipo de situação, deveria ser levado em conta[11]. Plutarco, em seu texto seminal notou: “é mais difícil abandonar algo que contraria nossos costumes do que algo que contraria a natureza”[12].
Talvez, não seja tão simples para as pessoas comuns fazerem deduções lógicas e então agirem em conformidade com tal. O que não deve ser um motivo para que o trabalho teórico deixe de ser feito, mas, ao contrário, é um motivo para que ele seja complementado.
Para além de bons argumentos (que sobram), estratégias criativas e simpatia são bem vindos. A arte, que há muito sabemos não poder ser isenta (e essa é uma asserção de fato e não de valor), certamente tem muito que contribuir, justamente por dizer aquilo que não pode ser dito de outra forma e produzir nas pessoas efeitos que não se pode alcançar de outros modos.
Deixo então para vocês um breve poema, “Canibalismo atual”, daquele que talvez seja o principal poeta brasileiro vivo, Affonso Romano de Sant’Anna:
CANIBALISMO ATUAL
Affonso Romano de Sant’Anna
No futuro
Ergueremos um monumento
ao animal desconhecido.
Por ora, dissecamos suas entranhas
em laboratórios e açougues
afiando nossas lâminas
na pedra de seus rins.
No futuro um remorso monumental.
Agora, insensíveis, racionais,
nos refestelamos sobre as vísceras das presas.
No futuro se envergonharão de nós,
de nós que nos julgávamos modernos
– modernos canibais.
SANT’ANNA, Affonso Romano. Poesia reunida (1965-1999). v.2. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 155-156.
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[1] THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural: mudanças de atitude em relação as plantas e aos animais (1500-1800). Trad. João Roberto Martins Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
[2] Cf. INGOLD, Tim. Humanidade e animalidade.
[3] Cf. FOUCAULT, Michel. Os anormais: curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo: Martins Fontes, 2001;  DAVIDSON, Arnold. The horror of monsters. In: SHEEHAN, James; SOSNA, Morton (Ed.). The Boundaries of Humanity: Humans, Animals, Machines. Berkeley:  University of California Press, 1991. p. 37-64
[4] MIDGLEY, Mary. Beast and man: the roots of human nature. London: Routledge, 1979.
[5] RACHELS, James. Created from animals: the moral implication of Darwinism. Oxford: Oxford University Press, 1990.
[6] SINGER, Peter. Todos os animais são iguais. In: GALVÃO, Pedro (Org.). Os animais têm direitos? Trad. Pedro Galvão. Lisboa: Dinalivro, 2010. pp. 25-49.
[7] Cf. entre outros, Todos os seres que sentem dor merecem direitos humanos.
[8] INGOLD, Tim. Humanidade e animalidade.
[9] CLARK, Stephen. The political animal. London: Routledge, 2002.
[10] Cf. CROOK, Paul. Darwinism, war and history: the debate over the biology of war from the ‘Origin of Species’ to the First World War. Cambridge: Cambridge University Press, 1994. FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999. PICHOT, André. A sociedade pura: de Darwin a Hitler. Trad. Maria Carvalho. Lisboa: Instituto Piaget, 2002.
[11] TAYLOR, Choë. Foucault and the ethics of eating. In: Foucault Studies. n. 9, Sept. 2010. p. 71-88. Disponível em: http://rauli.cbs.dk/index.php/foucault-studies/article/view/3060. Acesso em 20/03/2013.
[12] PLUTARCO. Sobre comer carne. Tradução do francês disponível neste blog.

LUIZ FELIPE M. CANDIDO - ANDA


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