Que mundo mostramos às crianças?



Quando passeio pelas estantes da seção infantil das livrarias, ou me ligo nos programas matutinos da TV aberta, ou mesmo quando passo na frente das lanchonetes fast-foods espalhadas pelos shopping-centers, sempre me vem a seguinte pergunta: “Que mundo estamos mostrando às crianças? Estamos ensinando às nossas crianças o respeito, a tolerância, a compaixão?” Talvez o leitor tente responder ao final desse texto. 

Os livros infantis, por exemplo, estão cheios de lições que acreditamos estar passando aos pequenos leitores. O porquinho age, pensa e fala como um ser humano, vive em uma casa com móveis, usa o computador, faz suas refeições à mesa e anda sobre dois pés, exatamente como um ser humano. Esse porquinho, não raras vezes, pode atender pelo sugestivo e “criativo” nome de Bacon, Torresmo ou algo parecido. Esse animal, que de não humano só tem mesmo a aparência, vem falar aos nossos filhos sobre como viver melhor em sociedade.

Alguns educadores podem alegar que esses personagens fazem parte do universo infantil e que elas se veem retratadas nesses personagens. Pode ser, mas será que esses seres sem espécie ajudam a criança a perceber algo de positivo sobre os animais não humanos? É evidente que não, pois colocam o leitor muito distante das características verdadeiras desses animais. Para a criança, o porquinho que ela viu na história hipotética que citei não é o mesmo que vive no chiqueiro, se chafurda na lama e muito menos o porquinho que ela come no jantar. Este, talvez, ela nunca tenha visto.

Se apresentarmos às crianças os animais, sejam eles humanos ou não, com suas características próprias, formaremos adultos mais respeitosos para com todas as espécies. Precisamos mostrar às nossas crianças que, apesar de não sermos todos iguais em aparência, necessidades, gostos, linguagem e tantas outras coisas, somos todos merecedores de respeito e iguais em nosso direito e vontade de viver. 

Da forma como muitas histórias são colocadas, me parece que ensinamos justamente o contrário. Estamos formando indivíduos especistas que só veem as características humanas como merecedoras de respeito. 

Se sairmos um pouco da literatura e passarmos por outros caminhos, vamos perceber muitos outros absurdos. São ursos tomando refrigerante, o frango sentado à mesa saboreando um ser de sua própria espécie, a vaquinha falando sobre como é gostosa sua própria carne e por aí vai…

Quando essas crianças crescerem e se tornarem adultas, é muito provável que continuarão a não conhecer e a não respeitar as características dos animais e elas passarão isso a seus filhos e assim infinitamente. Até quando? Enquanto o boizinho da história for um humano com cara de boi e a galinha fizer tricô segurando perfeitamente as agulhas em suas asas em forma de mãos, estaremos ensinando valores equivocados sobre os animais. 

Até mesmo histórias consagradas como verdadeiros ícones da causa animal como A fuga das galinhas e Procurando Nemo entram nessa lista de equívocos. Mas vamos analisá-los oportunamente em outro artigo.

Claro que existem também muitos exemplos positivos de como mostrar o verdadeiro valor da vida de todos os seres para as crianças e os jovens e pretendo analisá-los nesta coluna também. Por enquanto, fica a pergunta que não vai calar nunca em minha cabeça: “Que mundo estamos mostrando para as crianças e para os jovens? Que indivíduos estamos formando? Pessoas respeitosas ou egoístas? Que veem dignidade em todos os seres ou somente no que lhes são iguais? Afinal, em que universo colocamos as crianças?”. 

Texto de Luciene Cardoso 

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