Ativismo e a necessária coerência



(Foto: Divulgação)

Por ativismo entendem-se todas as manifestações de instituições formais ou de grupos independentes, ou mesmo de indivíduos sem nenhum vínculo, que decidem defender uma causa, manifestando-se publicamente, seja através de protestos, passeatas, campanhas e, principalmente, nas ações diárias. Visam sempre a mudança de uma prática social.
As motivações são bastante diversificadas e podem abarcar desde o direito ao uso pelas mulheres de topless na praia, até manifestos contra corrupção, defesa aos indígenas, violência contra a mulher, abusos com as crianças, perseguição quanto à opção sexual, a ampla defesa do meio ambiente, defesa da fauna e flora, protestos contra o consumismo, contra a crueldade, contra a exploração em todos os sentidos. Enfim, engloba toda e qualquer situação que envolva injustiça, segregação e discriminação.
Um grupo ou filosofia que se pretende sólido precisa trabalhar, desde cedo e sempre, no sentido de clarear aos envolvidos (e futuros envolvidos) quais as suas crenças, quais os seus propósitos, quais os comportamentos e atitudes esperados, anunciar a postura cotidiana, o que estão dispostos a enfrentar para obter os resultados almejados. E, é claro, delinear que resultados são estes, quais os objetivos a serem alcançados e em quanto tempo e de que forma serão encaminhados. Coerência entre discurso e ação é o que se espera, principalmente de ambientalistas ativistas!
A recente questão da prisão, na Rússia, dos 30 ativistas do grupo Greenpeace, senão a maior, uma das maiores entidades em prol da preservação ambiental do planeta, ocupou as manchetes internacionais por mais de mês. Felizmente, todos poderão responder o processo em liberdade. Eles foram presos em território russo por defender o Ártico, chamar a atenção do mundo para a devastação ambiental, preservar os ursos, combater a exploração de petróleo.
Aqui no Rio Grande do Sul, o retorno de Ana Paula foi noticiado em primeira mão pela RBS e, para surpresa de muitos, a manchete anunciava que a bióloga seria recepcionada pela família com um churrasco! Imediatamente, os comentários na própria matéria e em todas as redes sociais tratavam da incongruência. Gozação, crítica, demonização do ativismo. A contradição ficou evidente! Como assim? Defende a uns animais e a outros, sacrifica e come? Frases irônicas como: “Salvem os bovinos dos ativistas” foram replicadas e a discussão ficou mais séria em algumas páginas.
Eu defendi e torci pela libertação da Ana Paula e dos outros 29! Quem acompanha o blog sabe quantas bandeiras chamando à assinatura da petição foram expostas. O trabalho deles, em prol dos ursos e demais animais do Ártico, é louvável! AGORA, preservar os ursos e festejar com churrasco é uma ODE À MORTE!! Juro que não entendo! Não são todos animais? Qual a diferença? Porque a uns os humanos denominaram ‘de corte’? É isso??? INSANIDADE HUMANA!!!”
Coloquei este comentário no grupo da entidade. O que se seguiu foi surpreendente! O que se esperava um debate amplo, ficou enfrentamento e contestação, o que demonstra o quão pouco a questão de Missão e Visão está sendo trabalhada entre os integrantes dessa instituição. A primeira resposta foi do moderador: “Eu também defendo os animais! sou ambientalista! mas não sou extremista! também como carne! sou contra os crimes que cometem contra os animais! sou a favor da sustentabilidade! sou contra a extremistas! amiga, abraço ecológico.
Realidade terrível que precisa ser amplamente debatida
Tenho todos os comentários, mas não vou me deter a isso, quero ir mais longe, o que não foi possível lá no grupo, mesmo que alguns outros amigos tenham também tentado instigar a reflexão.
Este tema tem sido debatido entre os encontros dos dirigentes da entidade? Os resultados das reflexões tem sido disseminados entre os integrantes?
O que é “extremista”? O que é “sustentabilidade”? Matar animais, ainda que sejam os considerados “de corte” é ou não é crime? Um ambientalista pode fazer distinção entre os animais? Quem determina quais são os destinados a viver e quais os que devem morrer, os que devem servir como pet e os que devem ir para laboratórios, servir aos experimentos científicos? Toda a questão animal está em xeque! E é hora de todas as entidades que ainda não se posicionaram, esclarecer em que acreditam e por quem, efetivamente, lutam. Coerência naquilo que defendemos.
Lembro que, por ocasião da realização do 1º Fórum Social Mundial, que aconteceu aqui em Porto Alegre-RS-Brasil, foi memorável a invasão do Greenpeace na franquia do McDonals da Praça da Alfândega, no centro. Gritavam palavras de ordem contra o aquecimento global, contra os “bifes” do McLanche Feliz, os agrotóxicos, os transgênicos e contra o confinamento dos bovinos!!! O que aconteceu??? Vários outros grupos e personalidades no mundo inteiro estão revisando seus hábitos, por compreender a rede que entrelaça todas as ações humanas e consequentes mudanças climáticas.
A confusão que pode ocorrer por falta desse posicionamento claro começa a ser sentida em vários grupos e manifestações. O que move um ativista? Tem ele claro por o que está lutando?
Como o número de adesões a diversas causas que intentam modificar para melhor esta nossa vida consumista e destruidora aumenta a cada dia é imprescindível que as organizações se posicionem sobre seus princípios norteadores e que os indivíduos, cada um, e cada vez mais, se informem sobre aquilo que defendem. As origens, as implicações, os caminhos (e descaminhos). As consequências. As causas. As ações possíveis e necessárias.
De nada adianta, como já se viu, gritar no manifesto anti-crueldade com os animais, por exemplo e, depois, ir comemorar com um bife!É imperiosos que se reflita sobre isso!!

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