Não temos que "andar pelados", nem "comer folha de alface" por sermos veganos! (Dr. phil. Sônia T. Felipe)


Ontem postei um vídeo mostrando a tosquia de ovelhas para extração da lã que cobre e protege seus corpos. Alguns comentários ensejam o texto de hoje.

E quanto aos comentários "agora vou ter que andar pelado", se nem lã posso continuar a usar, realmente, poupe-me! Há centenas de tecidos e materiais compostos sem derivados de animais. E eles são muito mais confortáveis e higiênicos do que a lã animal.

Se alguém acha ainda que dependemos da lã das ovelhas para nos aquecer, está muito atrasado. Está tão atrasado no conhecimento do que existe no nosso tempo que precisa fazer algumas paradas de leitura antes de prosseguir sua biografia.

Seguir pensando que tem os mesmos limites que os seus bisavós tiveram, em um tempo onde não tinha nada a não ser o corpo do outro animal para aquecer os humanos, é andar literalmente para trás e querer ser "tataravô de si mesmo", quer dizer, pensar com a cabeça limitada de quatro gerações antes da atual.

Isso vale para "vestir lã de ovelhas", "comer carnes", "ingerir laticínios". Tem gente que nasce em um tempo que lhe dá toda liberdade para se livrar do peso moral de ser injusto com os outros animais, mas escolhe exatamente continuar a ser isto: injusto. Escolhe. Não é forçado não. Escolhe. E quer ser estimado por sua escolha, pois acha que essa escolha é a única forma de "honrar a tradição". Há tradições que são verdadeiras "traições" dos humanos para com os animais.

Nossos avós, bisavós e tataravós foram forçados pela miséria do seu tempo a fazer essas coisas. Mas o trabalho deles, a inteligência deles nos deixou como legado o conhecimento dos alimentos ricos em proteínas, minerais e vitaminas, todos de origem vegetal, que nos fazem dispensar o consumo de alimentos animalizados. O trabalho das gerações anteriores e também os da nossa própria geração inventou tecidos para agasalhar e aquecer que nunca antes na história humana haviam sido inventados.

E tudo isso existiria para que nos fixemos nos padrões morais antigos, do tempo em que não havia "escolha" possível, nem para comer, nem para se divertir, nem para se vestir ou enfeitar-se?

Nossa responsabilidade, hoje, advém justamente da "liberdade para escolher". E ela não nos diz que se a temos então devemos seguir "vivendo como os nossos pais", porque então não fazemos uso da liberdade de escolha, seguimos uma moral imposta por eles a nós.

A liberdade nos diz que se não escolhemos o que poupa outros animais da dor e do sofrimento, respondemos por essa dor, tormento e morte deles em nossas biografias. A liberdade não é fazer só o que queremos, muito menos fazer com prazer o que nos condicionaram a fazer. É também fazer o que devemos. E devemos aos animais a libertação do jugo ao qual os condenamos.

Se não tivéssemos recursos para seguir uma dieta vegana saudável, nos vestirmos sem causar danos ou roubar dos animais o que o corpo deles produz para eles, e nos divertirmos sem usar seres inteligentes de outras espécies como objetos dessa diversão, então estaríamos em uma era bem escura, fria, miserável e moralmente limitada, como o foi a dos nossos antepassados. O fato é que não estamos nessa era. E somos a primeira geração da era na qual essa verdade veio à tona.

Não temos mais desculpas para seguir fazendo aos animais o que vimos fazendo há milênios. A era da escassez material acabou. Não se justifica mais agora a mesquinharia moral. Estamos na era do desperdício, da mesquinharia moral. Desperdiçamos nossa oportunidade de nos tornarmos éticos em relação aos seres que não podem se defender de nossas ações. E desperdiçamos as vidas de trilhões de animais, com nossa voracidade de tomar de seus corpos, vivos ou mortos, tudo, tornando tudo isso mera mais-valia, como se fôssemos os únicos seres dignos do sopro do viver. Não somos.
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Sônia T. Felipe | felipe@cfh.ufsc.br
Sônia T. Felipe, doutora em Teoria Política e Filosofia Moral pela Universidade de Konstanz, Alemanha (1991), fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC, 1993); voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis (1998-2001); pós-doutorado em Bioética - Ética Animal - Univ. de Lisboa (2001-2002). Autora dos livros, Por uma questão de princípios: alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais (Boiteux, 2003); Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (Edufsc, 2006); Galactolatria: mau deleite (Ecoânima, 2012); Passaporte para o Mundo dos Leites Veganos (Ecoânima, 2012); Colaboradora nas coletâneas, Direito à reprodução e à sexualidade: uma questão de ética e justiça (Lumen & Juris, 2010); Visão abolicionista: Ética e Direitos Animais (ANDA, 2010); A dignidade da vida e os direitos fundamentais para além dos humanos (Fórum, 2008); Instrumento animal(Canal 6, 2008); O utilitarismo em foco (Edufsc, 2008); Éticas e políticas ambientais (Lisboa, 2004); Tendências da ética contemporânea (Vozes, 2000).
Cofundadora da Sociedade Vegana (no Brasil); colunista da ANDA (Questão de Ética) www.anda.jor.br; publica no Olhar Animal (www.pensataanimal.net); Editou os volumes temáticos da RevistaETHIC@,www.cfh.ufsc.br/ethic@ (Special Issues) dedicados à ética animal, à ética ambiental, às éticas biocêntricas e à comunidade moral. Coordena o projeto: Ecoanimalismo feminista, contribuições para a superação da discriminação e violência (UFSC, 2008-2014). Foi professora, pesquisadora e orientadora do Programa Interdisciplinar de Doutorado em Ciências Humanas e do Curso de Pós-graduação em Filosofia (UFSC, 1979-2008). É terapeuta Ayurvédica, direcionando seus estudos para a dieta vegana. 


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