O engodo bem-estarista (Dr. phil. Sônia T. Felipe)


Com certeza, conforme queixa-se um ativista abolicionista logo cedo em sua página, é melhor lidar com os carnistas do que com os bem-estaristas. Concordo. 

Os carnistas não enganam a si mesmos. Elas e eles sabem e admitem que comem carnes e tudo o mais que é tirado dos animais. Comem carne porque foram condicionados a isso, e porque vivem sob a intimidação medicinal de que se não comerem carnes e laticínios não terão as famosas proteínas e o bendito cálcio. Então, seguem essa dieta animalizada por medo de adoecer ou de perder as forças. Vivem aterrorizados com a ideia da abolição desses famosos ou famigerados aminoácidos e minerais que, diga-se de passagem, estão muito e fartamente representados na nossa dieta abolicionista vegana. Mas eles não podem saber disso, porque os meios de comunicação de massa não fazem programas responsáveis para mostrar que há substitutivos vegetais para todos os aminoácidos e minerais (ferro e cálcio), até de melhor biodisponibilidade.

Já os bem-estaristas (pessoas que já estão cientes da dor e do sofrimento dos animais e se dizem condoídas com seu tormento) estão sempre buscando pretextos para se manterem no seu bem-estar dietético, fugindo como dá da decisão abolicionista que afetaria todos os seus manjares feitos com carnes, leite, ovos e mel.

Não bastasse a defesa ferrenha do seu bem-estar e sua posição comodista no que se refere a manter no prato todos os alimentos de origem animal, mesmo sabendo que usar animais como matérias alimentares não é eticamente louvável numa sociedade fartamente suprida de grãos, cereais, frutos, frutas, leguminosas, tubérculos e folhas verdes, ainda por cima usam os animais como máscara para suas ações, dizendo que se preocupam com eles, quando apenas sentem é vergonha de comer suas carnes, leites e ovos, mas os comem alegremente quando veem um rotulozinho escrito "orgânico". Acham que há carne feliz, leite feliz e assim por diante. Não há.

Não existe ovo feliz, carne feliz nem leite ou queijo feliz, a menos que tudo isso seja feito sem passar pelo uso, exploração e morte de qualquer animal.

Pode-se usar a palavra carne para designar a de soja, a de caju ou mesmo qualquer outra matéria sólida, tipo pedaços de coco seco (que costumo comer no almoço, pois sozinho ele tem todos os aminoácidos que formam a base da cadeia proteica), ou outros alimentos que se assemelhem, apenas em sua textura, à carne de animais e requeiram mastigação firme. Queijos podem ser feitos, e já o são, tendo por base os leites vegetais e outras matérias amiláceas, ou como são os queijos veganos (mandioquejo) que fazemos com batata baroa e polvilho, óleo e temperos para compor sabores vários que superam de longe o gosto dos queijos feitos com leite de animais.

Do mesmo modo, não existe batom feliz, shampoo feliz, nem analgésico feliz, se tudo continua a ser testado em animais sempre que apresentar novo ingrediente em sua composição. Nada pode ser produzido tendo por base o bem-estar ou a felicidade de seres sencientes, afetados diretamente pelos testes de toxicidade, mutagenicidade e letalidade.

Não há e nunca haverá bem-estar num ser preso em aparelhos de experimentação, enjaulado em laboratórios, por mais que esses sigam as normas internacionais de manejo. Somos todos animais sencientes. E basta imaginarmo-nos sendo sequestrados e levados para um lugar desses, recebendo doses de tudo que é substância que jamais colocaríamos em nossa pele, boca ou estômago voluntariamente. Mesmo que recebêssemos comidinha balanceada, água e temperatura ambiente invariável (bem-estar), onde estaria o bem que teriam surrupiado de nós ao nos confinar nesse local?

Por que ainda há quem pense que falar do bem-estar animal é defender os interesses dos animais? Não é. Quando alguém defende o bem-estarismo está a defender seu bem-estar, esse conforto de continuar com a díaita (palavra grega que designa modo de viver) que não requer a abolição de nenhum uso dos animais para seu benefício, mas inventa a história de que se os animais forem "bem tratados" está tudo legal. Pode estar legal. Aliás, o que não nos faltam são leis bem-estaristas, justamente porque elas não abolem nada, só legalizam, legitimam, reforçam o uso dos animais para tudo que é finalidade. Enfim, a pessoa pode achar legal. Mas não é ético. Nenhum animal nasce para servir a qualquer propósito humano a não ser que o propósito dessa vida seja o de uma vida humana. Então os outros animais que não nascem na configuração humana devem ficar de fora, em paz.

Só os cházinhos da vovó eram felizes e curavam praticamente tudo: de indigestão à insônia, sem jamais terem sido testados em animais. E vovó usava batom, maquiava-se, usava talcos (a que tive a alegria de conhecer nasceu em 1891) e perfumes. E tudo isso jamais havia sido testado em animais. Não se pensava em por substâncias tóxicas em nada que fosse para aplicar no corpo. E quando uma pessoa tinha reação de vermelhidão ou coceira, ela não usava aquele produto e pronto. Hoje, mesmo com milhões de animais sendo mortos para testagem de tudo o que se inventou para maquiar a cara humana, ainda há reações alérgicas e a pessoa também tem que parar de usar aquele produto.

Então, os testes devem sim, ser feitos caso a caso. E para isso não precisa prender as mulheres ou homens em um laboratório, nem forçá-los a ingerir quantidade imensas dos ingredientes tóxicos ou passar esses produtos ou ingredientes nos olhos deles a ponto de deixá-los cegos.

Cada loja deveria ter um testador disponível para cada produto final vendido ali. E se eu quiser um produto, passo lá, uso uma gota dele na pele atrás da orelha (aprendi isso no consultório de uma dermatologista, quando lhe disse que desde há vinte anos nunca usei o tal do filtro solar porque quando o apliquei pela primeira vez tive alergias feias no rosto) e sigo para o cinema, para as compras ou para um lanche. Se não houver reação alérgica nos próximos minutos ou horas, provavelmente esse produto é tolerado por minha pele. Volto no dia seguinte e o compro.

E quanto a substâncias venenosas que poderiam causar estragos fatais no médio e longo prazo? Minha pergunta é: diante das centenas de milhares de ingredientes já conhecidos e testados, por que pensar que precisamos de um tão venenoso que possa produzir câncer? Para quê? Para exibir um tom falso de pele, de lábios, de cílios?

Ora, os animais não têm nada a ver com essas vaidades humanas. Então, quem precisa muito e quer muito usar substâncias esdrúxulas em sua pele, que as aplique por conta e risco, que se ofereça como cobaia das grandes indústrias para testagem dessas substâncias potencialmente tóxicas ou lesivas.

E bem-estarista acha que testando tudo isso nos olhos, pele e estômago dos animais é algo que possa ser feito mantendo o bem-estar do animal. Não é. Só mantém o bem-estar da consciência da consumidora ou do consumidor, que compra tudo isso sem pensar na agonia pela qual os animais passaram para produzir tanta futilidade.

Do mesmo modo que não haverá fim da caça ao elefante (por conta do marfim), enquanto não houver o fim da compra de qualquer joia ou objeto feito com o marfim, a vivissecção não acabará enquanto as pessoas não se conscientizarem de que não é ético manter um papo bem-estarista para justificar o consumo de produtos de beleza ou de higiene que acarretam dor, sofrimento e extermínio de todos os animais usados longe das nossas vistas para testagem.

Se abolirmos o consumo de tudo que é cosmético testado em animais, as empresas logo logo adotarão testagens não animalizadas em cada um desses produtos. Mas, enquanto houver consumidora comprando inconscientemente tudo isso, elas sempre farão corpo mole na busca de métodos substitutivos ao uso de animais para testagem de produtos de todo tipo. Pare a compra. As empresas se moverão. Continue comprando. As empresas se acomodarão. Simples assim. É assim que funciona. Cada um busca o seu bem-estar. E os animais não têm proveito algum do bem-estar nosso.


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Sônia T. Felipe | felipe@cfh.ufsc.br
Sônia T. Felipe, doutora em Teoria Política e Filosofia Moral pela Universidade de Konstanz, Alemanha (1991), fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC, 1993); voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis (1998-2001); pós-doutorado em Bioética - Ética Animal - Univ. de Lisboa (2001-2002). Autora dos livros, Por uma questão de princípios: alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais (Boiteux, 2003); Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (Edufsc, 2006); Galactolatria: mau deleite (Ecoânima, 2012); Passaporte para o Mundo dos Leites Veganos (Ecoânima, 2012); Colaboradora nas coletâneas, Direito à reprodução e à sexualidade: uma questão de ética e justiça (Lumen & Juris, 2010); Visão abolicionista: Ética e Direitos Animais (ANDA, 2010); A dignidade da vida e os direitos fundamentais para além dos humanos (Fórum, 2008); Instrumento animal(Canal 6, 2008); O utilitarismo em foco (Edufsc, 2008); Éticas e políticas ambientais (Lisboa, 2004); Tendências da ética contemporânea (Vozes, 2000).
Cofundadora da Sociedade Vegana (no Brasil); colunista da ANDA (Questão de Ética) www.anda.jor.br; publica no Olhar Animal (www.pensataanimal.net); Editou os volumes temáticos da RevistaETHIC@,www.cfh.ufsc.br/ethic@ (Special Issues) dedicados à ética animal, à ética ambiental, às éticas biocêntricas e à comunidade moral. Coordena o projeto: Ecoanimalismo feminista, contribuições para a superação da discriminação e violência (UFSC, 2008-2014). Foi professora, pesquisadora e orientadora do Programa Interdisciplinar de Doutorado em Ciências Humanas e do Curso de Pós-graduação em Filosofia (UFSC, 1979-2008). É terapeuta Ayurvédica, direcionando seus estudos para a dieta vegana. 


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