Cientistas fazem macacos ter Aids pela primeira vez: vitória ou derrota?, por Sergio Greif

Vírus HIV: após modificação, macacos contraíram aids pela primeira vez (Thinkstock)
Há algo de tolo e irracional na ciência tal como a entendemos hoje.
Após 30 anos do início da pandemia de AIDS em todo o mundo e milhões gastos em pesquisa, finalmente cientistas comemoram a noticia . . . não de que conseguiram a cura para a doença em seres humanos, mas que conseguiram criar a doença em outros primatas.
Historicamente, primatas sempre foram os “modelos” escolhidos para pesquisa de AIDS e, no entanto, jamais qualquer desses animais inoculados desenvolveu a doença. Centenas de chimpanzés, macacos Rhesus e primatas de outras espécies, milhões de animais de outras ordens, vários anos e recursos gastos. . . e tudo o que sabemos sobre a AIDS não tem nenhuma relação com essa pesquisa, mas da observação clínica de seres humanos. Ainda que o vírus se reproduzam no organismo de chimpanzés, seu sistema imune sempre acaba por vencê-lo. Primatas não-humanos não adoecem de AIDS, eles não deveriam ser considerados “modelos”.
Qualquer criança entende que um modelo é uma miniatura ou réplica de algo. Os engenheiros chamam de modelo as maquetes de edifícios, Os plastimodelistas chamam de modelo as réplicas de trenzinhos e aviões, os dioramas e artefatos militares que imitam exatamente cenas de guerra. Esses são modelos. Se algo não é uma réplica nem uma miniatura ou uma cópia, nem mesmo as crianças ousam chamar de modelo. Crianças sabem disso, engenheiros sabem disso . . . mas cientistas que adotam o termo “modelo animal” utilizam o termo para se referir aos animais que eles utilizam em pesquisas, apesar de abertamente (e contraditoriamente) admitirem que esses animais não são miniaturas nem réplicas de seres humanos, não se parecem em nada com seres humanos e nem desenvolvem suas doenças.
Uma infinidade de recursos aplicados e milhões de animais mortos em pesquisas sobre a AIDS e finalmente o que temos não é a cura, mas animais que estão desenvolvendo uma nova doença. E isso é motivo para comemorar?
Vejamos:
O que os vivissectores até agora fizeram não foi buscar uma forma de destruir um vírus, mas sim uma forma de criar um novo vírus. Toda vez que um vírus que coloniza determinado hospedeiro entra em contato com um novo hospedeiro duas coisas podem acontecer: Ou ele morre por não conseguir colonizar o novo hospedeiro ou ele consegue colonizar o novo hospedeiro, e possivelmente sofre mutações para se adaptar à nova situação. Aliás, essa é a principal razão porque novas doenças surgem.
Vírus são organismos altamente adaptáveis e propensos a mutações. O que fizemos investindo milhões em pesquisa em modelos animais foi estimular essa mutação dos vírus, quando os forçamos a entrar em contato com novas espécies.
No caso da pesquisa em questão, os cientistas não se limitaram a fazer isso. Eles hibridizaram o DNA do HIV com o DNA do SIV, o vírus da imunodeficiência em símios. Um novo vírus foi criado em laboratório, e ele contém elementos de ambos os vírus. Possivelmente uma nova doença não apenas para macacos, mas também para seres humanos.
Os cientistas comemoram, mas eles não estão mais perto de obter a cura para a AIDS, nem sequer de entender a forma como a doença se comporta em seres humanos. Eles comemoram seus próprios feitos, mas isso diz mais respeito aos seu próprio ego e não ao avanço real da ciência. Estamos agora mais próximos de termos uma nova doença (caso esse virus fuja do controle) do que de extinguir uma doença existente.
Doenças não são sintomas, Se engana quem crê que um macaco inoculado com um novo virus é um modelo de doença que incide naturalmente em seres humanos. Ainda que os sintomas possam se manifestar de maneira semelhante (e nesse caso isso sequer ficou demonstrado) uma doença é muito mais do que seus sintomas. Temos de entender porque que alguns seres humanos lidam bem com o vírus e outros não, e isso nenhum animal poderá nos dizer. Há milhões de pessoas que tem de lidar com o HIV diariamente e enquanto isso cientistas gastam recursos e tempo inoculando animais com doenças.
Sim, a ciência moderna não está acima da tolice e da irracionalidade.

Sérgio Greif - biólogo formado pela UNICAMP, mestre em Alimentos e Nutrição com tese em nutrição vegetariana pela mesma universidade, ativista pelos direitos animais, vegano desde 1998, consultor em diversas ações civis publicas e audiências públicas em defesa dos direitos animais. Co-autor do livro "A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo" e autor de "Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável", além de diversos artigos e ensaios referentes à nutrição vegetariana, ao modo de vida vegano, aos direitos ambientais, à bioética, à experimentação animal, aos métodos substitutivos ao uso de animais na pesquisa e na educação e aos impactos da pecuária ao meio ambiente, entre outros temas. Realiza palestras nesse mesmo tema. Membro fundador da Sociedade Vegana.

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