O cheiro da carne, por Ellen Augusta Valler de Freitas

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Quando estudante de Biologia, trabalhei durante meses com preparação de esqueletos de animais mortos para pesquisa arqueológica. Era bolsista e fui voluntária nesse trabalho.
Na Zooarqueologia, esses ossos servem de comparação na identificação de espécies encontradas em sítios arqueológicos. A preparação consistia em cozinhar os corpos em panelas, retirando carnes e peles. Nunca me espantei com isso, nunca tive nojo, nunca fui hipócrita pois comia carne na época, e sabia que era a mesma coisa. O cheiro que exalava era o mesmo das cozinhas ao meio dia, ‘carne-de-panela’.
A luta interna era existencial. Lidar com animais que sequer conhecia – um tucano, uma coruja das torres. A dor da existencia, a morte. A maior parte era oriunda de tráfico, de mortes violentas, atropelamentos, zoológicos, uma história que começava nas mãos humanas e acabava nas mãos humanas. Nesse contexto, eu estava trabalhando como voluntária e refletindo, enquanto os demais faziam cara de nojo. ‘Por que tu vai trabalhar justamente com isso?’.
Em todo o meu curso de Biologia nunca peguei um animal vivo, nunca trabalhei com vivisecção, tive sorte de não ter tido aulas desse tipo. Certa vez apareceu uma oportunidade para bolsa, que só fui descobrir o que era quando entrei na sala de neurociências. Na metade do corredor, regressei, pois vi ao meu redor milhares de gaiolas. Disse a mim mesma que não iria compactuar.
Esse trabalho na área de Zooarqueologia me ensinou muito sobre como existe um limite mínimo ou inexistente entre o que as pessoas colocam na boca e o que apodrece em suas tripas, ou ali mesmo, nos cemitérios.
A carne tem cheiro de cadáver, o cadáver tem cheiro de carne.

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