Zoológicos: balcão de negócios


Quinze anos atrás, quando entrei no mundo dos primatas não humanos, comecei a me desiludir dos zoológicos, que até esse momento tinha em alta estima. Pessoas particulares, circos e criadouros comerciais faziam parcerias com zoológicos públicos, a maioria, e privados no Brasil. Essas parcerias levavam à entrega aos zoológicos, ou ao envio por parte deles, de chimpanzés adultos para reprodução em comodato, como se fossem objetos. As crias que nascessem dessas uniões eram divididas entre os proprietários de cada um dos progenitores.
Era comum ver mães chimpanzés que perdiam os recém-nascidos, com poucas semanas ou até dias do nascimento, e estes eram entregues a humanos, que os criavam órfãos para depois negociá-los com outras instituições e pessoas.
Existia um conluio intenso entre circos especialmente e zoológicos. A medida que íamos resgatando chimpanzés em nossos Santuários afiliados ao Projeto GAP no Brasil, íamos descobrindo a história de cada um. Hoje temos muitos órfãos que estão conosco, que têm mães e pais também conosco, porém, desconhecem sua relação filial.
Esta prática disseminada no Brasil, e também no mundo, acabou aqui devido ao nosso trabalho de denúncia constante, mas continua na maioria dos países, onde os Zoológicos são um Balcão de Negócios. Recentemente um Zoológico da Inglaterra enviou vários gorilas ao Zoo de Belo Horizonte para reproduzir os mesmos entre si, envolvendo altas somas de recursos dilapidados pela instituição pública brasileira, com fins obscuros.
Agora a notícia vem de Argentina. As girafas são animais que os zoos perseguem intensamente para ter em suas coleções, já que a criançada, devido ao marketing eletrônico, as tem popularizado extraordinariamente.
O Zoológico particular de Bubalcó, na Província de Río Negro, sul da Argentina, – já famoso por manter sequestrado o chimpanzé Toti que foi permutado com o Zoológico de Córdoba e tem a possibilidade de ser libertado através de um Habeas Corpus impetrado pela representação do Projeto GAP no país irmão – negociou com o Zoológico de Santiago do Chile a permuta de uma girafa recém-nascida no Zoológico de Buenos Aires, que era de sua propriedade, já que o pai estava em comodato para reprodução no Zoológico portenho.
Uma série de contratos, como também eram feitos no Brasil anos atrás, foram assinados entre o Zoológico Argentino e o Chileno, já que nesses contratos aparecem os valores de cada animal. em dólares, para que a permuta possa ser claramente avaliada. Os dois tigres brancos, que Bubalcó se dedica a reproduzir para trocar por outros animais, sabendo do interesse dos zoos nesse tipo de animal incomum, tiveram um valor atribuído que corresponde ao valor da girafinha de nome Lara, de 1 ano, que vivia com a mãe em Buenos Aires.
Ante a insistência do Zoo de Bubalcó e sua total irresponsabilidade de separar uma girafa bebê de sua mãe, que o Zoo de Buenos Aires não concordava, devido aos riscos implícitos no traslado em um clima muito frio, com frequência de ventos intensos, Lara foi enviada ao Zoológico de Río Negro, e, poucas horas depois de sua chegada – inexplicavelmente segundo os técnicos de Bubalcó – apareceu morta.
O dono do Zoológico de Bubalcó é uma pessoa rica, que domina muitos interesses e negócios em sua zona de influência; foi Ministro em épocas passadas e agora se dedica a colecionar animais selvagens num Zoológico ignorado, com visitação pública irrisória.
Que um ser poderoso economicamente faça isso é entendível, para aqueles que já conhecem esse filme; Saddan Hussein tinha seu zoológico, Pablo Escobar também e até o falecido Michael Jackson tinha outro. Da cabeça do Ser Humano, que se considera todo poderoso por seu dinheiro ou seu poder político, qualquer coisa podemos esperar. Mas as sociedades devem impedir que essas injustiças sejam cometidas com seres inocentes, que são negociados como mercadoria a seu bel prazer.
Uma razão a mais para acabar com os zoológicos como diversão pública, fechá-los para visitação e convertê-los em Centros de Resgate, que contribuam positivamente com todos os animais deste Planeta, que é de todas as espécies que nele sobrevivem.


DR. PEDRO A. YNTERIAN

Microbiologista e empresário, o cubano naturalizado brasileiro Pedro A. Ynterian chegou ao país há mais de 30 anos e sempre foi um admirador de animais, em especial dos primatas.

Sua vida mudou completamente em 1999, quando comprou em um criadouro comercial Guga, um bebê chimpanzé de 3 meses de idade, com a ideia de criá-lo no apartamento que morava em São Paulo. Em pouco tempo ele percebeu que ter um chimpanzé como pet não fazia o menor sentido e esse foi o primeiro passo para a montagem do primeiro Santuário dos Grandes Primatas no Brasil, localizado em Sorocaba.

O resultado foi o grande envolvimento na questão de proteção e defesa dos direitos dos grandes primatas e a filiação ao movimento internacional GAP – Great Ape Protection. As atividades de denúncia, resgate de animais vítimas de maus-tratos e divulgação de informações ganharam muita notoriedade e desde setembro de 2008 o Brasil foi eleito como sede do Projeto GAP Internacional, tendo Dr. Pedro como seu presidente.

No Brasil o GAP tem quatro santuários afiliados, entre os quais o de Sorocaba, que juntos abrigam mais de 80 chimpanzés, entre outros animais resgatados de maus-tratos em circos, zoológicos e outras atividades comerciais.

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