O argumento da tradição

A tradição da escravidão
Um dos argumentos mais comuns utilizados em defesa do especismo é este:
“Muitas tradições e culturas seriam perdidas se déssemos igualdade aos animais. Logo, não devemos dar igualdade aos animais”
Essa objeção é uma tentativa de justificar as práticas especistas. O argumento é o de que, se determinada visão prescreve terminar com uma tradição, então que tal visão tem de estar errada. A premissa da qual se parte neste argumento é a de que existe sempre o dever de se preservar uma tradição, não importando o que terá de ser sacrificado caso opte-se por preservar a tradição.
A maioria de nós não defenderia tal premissa. Vale lembrar que “tradição” é um termo para se referir a tudo o que é praticado há muito tempo. Assim sendo, a escravidão humana era uma tradição, atirar humanos para serem devorados pelos leões também; os nazistas mantiveram a tradição de discriminar, assassinar e torturar judeus por muitos anos, e o mesmo vale para assassinar, estuprar, corrupção, oprimir o mais fraco, fazer guerras, que são práticas que estão no mundo há, no mínimo, muitos séculos. Mas, quando os humanos são as vítimas, quase ninguém argumenta que não se deve acabar com essas coisas só porque elas são tradições. Assim sendo, a maioria de nós já aceita que determinadas tradições devem acabar.
Alguém poderia alegar que, nesse caso, é diferente, pois trata-se de vítimas humanas. Assim, o argumento é agora modificado: defende-se que o respeito às tradições tem maior peso do que o respeito pelos não humanos, e que o respeito pelos humanos tem maior pelo do que o respeito pelas tradições. Mas, se for assim, então o argumento da tradição é circular. Isso acontece pelo seguinte: primeiramente, o argumento da tradição entra em cena como uma tentativa de explicar por que seria correto discriminar os animais não humanos mas não seria correto discriminar os humanos: “é correto porque, no caso dos animais não humanos, respeitá-los faria algumas tradições sumirem”. Mas, quando aponta-se que o mesmo é verdade para o respeito pelos humanos (respeitar humanos implica em abolir determinadas tradições, como a escravidão humana, por exemplo), retruca-se que “ah, mas nesse caso, trata-se de humanos”. Assim, é por esse motivo que o argumento é circular: ele entra em cena para tentar justificar o especismo, mas, sem perceber, já se está assumir o especismo de antemão no argumento.
Mas, e se alguém mantiver que, seja lá se a que espécie pertencer a vítima, as práticas de assassinato, violação, tortura, etc. deveriam continuar, já que são tradições? Como poderia-se explicar o que há de errado com essa posição? Há várias razões que podem ser endereçadas.
Uma delas é perguntar por que se pensa que, só porque algo é praticado há muito tempo, então que necessariamente deve ser objeto de respeito. Parece não haver nenhuma “mágica” no tempo em que algo é praticado que o torne digno de respeito. Imagine que a paz mundial fosse alcançada há um mês atrás. De acordo com essa visão, teria-se de dizer que há menores razões para se manter a paz mundial, já que ainda não é uma tradição, e que deveria-se voltar à guerra, já que é uma tradição bastante antiga da humanidade como um todo. Isso parece realmente absurdo.
Outra razão para se rejeitar o apelo à tradição diz respeito ao que seria necessário provar para realmente existir o dever de manter uma tradição acima de todas as outras coisas. Por exemplo, primeiramente, teria-se de provar que o fato de algo ser tradicional o torna digno de respeito.
Uma maneira de conseguir isso seria mostrar que toda e qualquer tradição é algo bom. Mas, embora isso seja verdade quanto a algumas tradições (por exemplo, a tradição de se discutir argumentos, e de socorrer quem está em necessidade, que, aliás, raramente são praticadas), certamente é falso em relação a outras (seria absurdo dizer que a tradição de estuprar, que vêm sendo praticada desde tempos imemoriais, é algo bom, por exemplo; se duvida, imagine-se sendo a vítima para ver se consegue sinceramente pensar essa prática como algo bom). Assim, embora isso nos dê uma razão para preservar as tradições boas, nos dá igualmente razões para se abolir as tradições ruins.
Outra maneira seria mostrar que, independentemente de uma tradição ser boa ou ruim, ela deve ser objeto de respeito. Mas, isso é ainda mais difícil de se provar, pois não poderia-se mais apontar, como razão para preservar uma tradição, o fato de ela ser algo bom. Mas, então, que motivos alguém teria para preservá-la? Até que se ofereça algum motivo plausível, melhor então rejeitar essa visão.
Mas, supondo para efeito de argumentação, que alguém tivesse realmente mostrado que existem razões para se preservar tradições, sejam elas boas ou ruins (o que, como vimos, é algo bastante difícil de se conseguir). Não seguiria daí que sempre temos o dever de preservar uma tradição. Isso é assim porque o fato de se mostrar que há o dever de se respeitar determinada coisa não mostra que esse dever é absoluto. No caso das tradições que causam dano a seres sencientes, teria-se de pesar o dever de se preservar a tradição contra o dever de não se causar danos aos seres sencientes em questão. E, em se tratando do mal que é causado aos animais não humanos com as práticas especistas, o dano para os animais é, para além de qualquer comparação, infinitamente maior do que o dano de se perder as tradições em questão. Se duvida, pergunte a si próprio sinceramente o que você escolheria: (1) escolher abolir a tradição de se abater animais, e inclusive perder sua empresa, que é uma granja industrial, ou (2) estar você engaiolado na granja industrial, prestes a ter uma vida inteira de sofrimento extremo a cada segundo e depois uma morte brutal. Ninguém sinceramente escolheria a segunda opção, porque todo mundo sabe que o dano, nesse caso, é infinitamente maior do que o dano de se perder a tradição em questão.
Assim sendo, mesmo que fosse provado que tradições são objetos de preservação, ainda assim isso não montaria uma justificativa para haver o dever de sempre se preservar toda e qualquer tradição em todas as situações.
Uma possível objeção seria defender que certo e errado morais (ou seja, certo e errado quanto ao que fazer na prática) são relativos à cada cultura. Esse será o tema de nossa próxima postagem.

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