O desafio da penetração do veganismo no meio rural brasileiro


Um enorme desafio para o vegano-abolicionismo brasileiro é penetrar nas culturas rurais do interior, historicamente ligadas à pecuária, seja ela de pequenas roças caipiras ou de enormes latifúndios, e a outras atividades de exploração animal, como os rodeios e as vaquejadas. Visto que é inviável simplesmente impor goela adentro dos interioranos, sem conversa, uma alimentação e consumo isentos de produtos de origem animal, vai ser preciso bastante queima de neurônios para se chegar a um consenso sobre como fazer o veganismo adentrar no campo.
Precisaremos de muito senso antropológico para ensinar sobre Direitos Animais para os camponeses e pequenos comerciantes da zona rural brasileira. Até porque muitos deles tiram seu sustento com a produção e comercialização de carne, leite e ovos e não conhecem fontes suficientes de nutrientes para substituir os alimentos de origem animal em suas refeições.
Não podemos simplesmente chegar lá e dizer “Vocês estão violando a ética animal, sejam veganos”, ao estilo urbano das grandes cidades e com linguajar acadêmico. Precisaremos falar na linguagem deles, atentando-se à sua visão de mundo e estilo de vida. E isso incluirá viabilizar no campo uma agricultura diversificada o suficiente para lhes permitir substituir os alimentos animais sem que sobrem lacunas nutricionais.
Também é desafiante a criação de métodos campestres e não industriais de enriquecer vegetais com a vitamina B12 produzida por bactérias que vivem na terra, como, digamos, manter um resíduo de terra ou humo nos legumes colhidos caso isso seja viável. É improvável que os interioranos aceitem depender dos comprimidos de B12 trazidos dos laboratórios das cidades, considerando-se que obtinham todos os nutrientes de sua convencional refeição onívora.
Mas esse desafio poderá se tornar menos complicado à medida que ecovilas anarco-veganas povoem cada vez mais o campo brasileiro. Tais vilas vão se multiplicar conforme o vegano-abolicionismo se funda com outras lutas de esquerda, como o anarquismo, o ambientalismo, o campesinato, a causa indígena, o naturalismo urbanofóbico, entre tantas outras. Quanto mais pessoas lutarem para se libertar do falido modelo civilizacional urbano-industrial-capitalista-individualista e buscar refúgio no alternativo modo de vida veganarquista, rural-silvícola, sustentável e comunitário, mais forte veremos esse movimento prático de ruralização.
Será interessante ver os ecoaldeões refugiados das cidades trocando conhecimento com os camponeses tradicionais, sobre veganismo, agricultura sustentável, permacultura, bioconstrução, ecoespiritualidade, extrativismo florestal, filosofia holística e demais conhecimentos sincréticos que mesclem sabedorias indígenas, orientais e rurais. Daí poderá haver uma maior facilidade em, por exemplo, se desenvolver técnicas rústicas de fortificação de alimentos vegetais com B12.
É muito interessante que essa comunicação entre veganos e interioranos seja discutida desde já. Isso engrandecerá tanto a ruralidade brasileira, que se tornará livre de exploração animal, quanto a carga de conhecimento do meio vegano-abolicionista nacional.

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