O que é matar?


Uma reflexão sobre a vida plena e o ideal “não mate!”
Dedicado ao Movimento Não Mate
Introdução
Costumamos entender como morte o fim total da vida e como vida o exato oposto disto, o que nos leva a valorar de forma completamente diferente, como fatos de naturezas completamente diversas, o assassinato e todas as formas de opressão.
Um exemplo: recentemente, em uma rede social, um conhecido publicou uma foto de um jovem parente segurando um peixe recém-pescado nas mãos, com um comentário de que esta “experiência em família não tem preço”. Respondi então mostrando o preço que o peixe pagou: ser perfurado por um metal sentindo extrema dor, ser puxado para fora de seu habitat por este mesmo furo dolorido, ficar certo tempo fora da água – o que equivaleria para nós a ficar dentro da água, com toda a angústia de não respirar – ser manipulado por seres estranhos até ser jogado de volta para a água com toda a dor e desespero resultantes desta experiência. Sua tréplica foi reafirmar que eles não o comeram, ele não foi para a panela, então foi tudo bem para todos.
Diferencia-se radicalmente, portanto, o status de matar um ser ou torturá-lo.
Este texto pretende refletir sobre esta diferença.
Mortificação e vivificação
Aquilo que comumente chamamos de morte diz respeito ao fim da vida, a morte absoluta. A isto podemos chamar de “morte plena” (desconsiderando aqui, dado o tipo de interesse desta reflexão, as considerações espiritualistas). Em seu oposto, normalmente coloca-se a vida. Ou se está vivo ou se está morto. Contudo, como polo oposto da morte plena, podemos idealizar a existência de uma “vida plena” e entre estes polos um contínuo, uma gama de tendências, elementos e atos que nos mortificam ou vivificam.
Vida plena advém da liberdade, termo indefinível mas que inclui poder experienciar  nossas potencialidades específicas até que possamos realizá-las habilmente.
Há, então, o que plenifica a vida e o que plenifica a morte, para além do que gera a morte absoluta, como o assassinato, ou o que gera a vida em senso estrito, como os atos reprodutivos.
Em nossa relação conosco mesmos ou com outros entes, humanos ou não-humanos, é necessário conceber que tudo o que nos/os leva em direção contrária à vida mais plena – tudo o que diminui a liberdade – nos/os mortifica. Também é, em suma, matar (ou suicídio).
Matando animais
Quando pensamos eticamente em nossa relação com os animais, é preciso ter como princípio que tudo aquilo que fazemos que os impede de ter uma vida mais plena, livre, de gerir a própria vida, de viver de acordo com seus próprios hábitos, os mortifica. Não matá-los inclui não prendê-los, não torturá-los, não debicá-los, não engaiolá-los, não enjaulá-los, não acorrentá-los, não adestrá-los, não isolá-los, não paralisá-los, não testá-los, não pescá-los, não montá-los, não chicoteá-los, não tosquiá-los, não reduzi-los a exposições em zoológicos, a objetos de entretenimento, a produtos comercializáveis, a matérias-primas…
Não se pode reduzir, portanto, a ética animal apenas a tirar vida ou não. (Aí, no conceito de morte, encontra-se novamente e de outro modo trabalhadas as diferenças entre ovolacto-vegetarianismo e veganismo e entre bem-estarismo e abolicionismo animal).
O veganismo, assim, com todos os seus aparentes “nãos”, é na realidade um sim, pois não matar não é um não. É, em essência, um sim, um sim para a vida e para tudo o que a vivifica.
Esta é uma importante mudança de ponto de vista para a posição vegana: deixar de ser o grupo negador e assumir-se como grupo vivificador.
Plenificando a vida humana e sua relação com as demais vidas
Na escolha de nossas intenções e ações, de nossos princípios, devemos estar atentos ao que nos mortifica ou vivifica, ao mesmo tempo em que sondamos quais de nossos atos mortifica ou vivifica outros entes, humanos ou não.
Em humanos, que é sobre quem se pode falar com maior conhecimento de causa, a liberdade que torna a vida mais plena é maximizada pelo desenvolvimento de uma mente desperta (atenta) e de emoções educadas, ou seja, pelo aumento da possibilidade de se ter relações honestas, bem intencionadas e diretas conosco mesmos e com os demais entes eles-mesmos (não apenas naquilo que possuem para nos servir). Em suma, autoconhecimento e criação de verdadeiros vínculos.
Um ente atento e liberto vive uma vida mais plena – seja na relação consigo mesmo, seja na relação profunda com o restante do mundo (dimensões inseparáveis). Um ente cuja percepção de mundo é embotada, que é dominado por padrões mentais doentios, dominadores ou que está de alguma forma preso está mortificado, mais perto da morte absoluta.
Um ente cuja vida é mais plena permite que a vida dos demais também o seja. Não depende da servidão dos demais para a própria realização, ou seja, ser livre não significa opor-se aos limites e virtudes da coexistência. Não se trata da defesa de uma liberdade total e individualista em que apenas a vontade do indivíduo isolado importa, mesmo que destrua a liberdade dos demais. O verdadeiro ente liberto, liberta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário