Sobre as diferenças entre anti-especismo e ecologismo

Intervenção na natureza por preocupação com o bem dos animais, independentemente de se o dano é de origem natural ou produto de práticas humanas: implicação de reconhecer que os animais merecem respeito.
É bastante comum que, quando deparadas com os argumentos e reivindicações da ética animal, as pessoas pensem que estão diante de argumentos e reivindicações ecologistas ou ambientalistas (utilizarei esses dois últimos termos como sinônimos). Esse texto visa oferecer um panorama dessas duas posições (ética animal e ecologismo) com vistas a mostrar que essa crença comum é equivocada. Por mais estranho que isso possa parecer à primeira vista, ética animal e ecologismo não apenas não são a mesma coisa, como possuem pressupostos totalmente diferentes e, além disso, antagônicos. Esse texto trata de explicar por que isso é assim. Assim sendo, a meta desse texto é adentrar nas seguintes questões:
“ética animal é uma forma de ambientalismo/ecologismo?”
“ética animal é compatível com ambientalismo/ecologismo?”
“ética animal e ambientalismo/ecologismo são complementares?”
“ética animal e ambientalismo/ecologismo são opostos?”
Ética animal: a rejeição do especismo
O que estou a chamar de ética animal ou anti-especismo? É a reivindicação de que todo ser senciente (isto é, todo ser capaz de ter experiências: sentir dor, prazer, cheirar, ouvir, enxergar,  enfim, todos os corpos nos quais há alguém “lá dentro”) merece igual consideração, independentemente de espécie, e que as razões para essa obrigação é a preocupação com o próprio bem dos seres sencientes, e não, alguma outra coisa. Existem duas características marcantes da ética animal.
A primeira é a rejeição do especismo: assim como o racismo e o sexismo são discriminações (ou seja, são tratamentos desfavoráveis injustos), o especismo também é, e, como as outras discriminações, deve ser rejeitada. Isso é assim porque as razões para existir o dever de dar igual consideração a alguém são totalmente independentes de raça, gênero e espécie (e, muito importante, também é independente do nível intelectual e das capacidades de alguém, o que torna o inteligentismo e o capacitismo também discriminações, e, portanto, perspectivas injustas). Isso é assim porque alguém necessita de consideração porque é passível de ser prejudicado ou beneficiado. Alguém não necessita de consideração porque pertence a esta ou aquela raça, gênero, espécie, tem essas ou aquelas capacidades ou habilidades cognitivas, mas sim, simplesmente porque é passível de ser prejudicado ou beneficiado. É isso que faz existir a obrigação de considerar o bem de brancos e negros, homens e mulheres, adultos e também de bebês, por exemplo. Mas, também faz existir a obrigação de considerar o bem de seres sencientes de outras espécies. Por que? Porque, para existir a possibilidade de alguém ser prejudicado ou beneficiado, basta que o ser em questão valorize alguns estados em detrimento de outros. E, para isso acontecer, basta que o ser em questão seja senciente, pois todo ser senciente valoriza sensações positivas e desvaloriza sensações negativas. Especistas, assim como os racistas, estão a discriminar (ou seja, desfavorecer injustamente) quando dizem: “o bem de fulano não deve ser considerado porque ele pertence ao grupo x e não o grupo y”. Isso é injusto porque as razões que mostram por que há a obrigação de respeitar os membros de um grupo (no caso, a possibilidade de alguém ser prejudicado ou beneficiado) estão presentes nos membros do outro desfavorecido.
Deveres diretos e indiretos na ética animal
A segunda, é que, como vimos, a ética animal defende que temos de respeitar o bem dos seres sencientes por preocupação com o próprio bem dos seres sencientes, e não alguma outra coisa. Assim, por exemplo, a reivindicação presente na rejeição do especismo não é apenas que consideremos o bem dos animais não humanos porque maltratar animais não humanos pode ser uma escola para maltratar humanos; não porque comer carne tem impactos ambientais negativos; não porque comer carne pode ser prejudicial para a nossa saúde; não porque a experimentação animal pode ter problemas metodológicos, mas sim, porque práticas que prejudicam os animais não humanos são injustas (já que jamais as aceitaríamos se fôssemos nós as vítimas de tais práticas), e, a razão para serem injustas é que violam o bem-estar, a integridade física, causam a morte, enfim, causam dano a estes animais.
Assim sendo, um ponto central da ética animal é a defesa de que os seres sencientes são objeto de obrigações diretas, e não, apenas indiretas (ou seja, a obrigação surge da preocupação com o seu próprio bem, e não, com o bem de alguma outra coisa, como os seres humanos ou o meio ambiente). E, outro aspecto importante dessa característica é que, todo o restante de objetos aos quais é possível existirem obrigações, que não os seres sencientes, fazem surgir apenas obrigações indiretas ao bem dos seres sencientes. Por exemplo, é possível que eu tenha o dever de não rasgar uma caixa de papelão, mas não porque tenho obrigações para com o “bem de caixa” (já que a caixa não tem um “bem”), mas sim, porque algum ser senciente poderia precisar dela (por exemplo, um animal poderia precisar dela para dormir). Podemos dizer então que a ética animal é sencientocêntrica, isto é, uma perspectiva que mantém que só é possível existirem obrigações diretas perante a seres sencientes.
Ecologismo: a defesa (especista ou não) de entidades naturais
Vejamos agora as características do ecologismo. É verdade: ecologismo e ambientalismo são termos usados para se referir a muitas posições bastante distintas entre si. Assim sendo, vou especificar a qual posição refiro-me com o termo. O que estou a chamar de ecologismo é uma posição que afirma que existem obrigações diretas (isto é, obrigações que surgem da preocupação com o  próprio objeto que será atingido pela ação e não com alguma outra coisa) para com pelo menos algumas entidades não sencientes. Que entidades são essas varia muito de acordo com cada perspectiva ecologista. Alguns exemplos comuns são: ecossistemas naturais, processos naturais, equilíbrio natural, todos os organismos vivos, comunidades bióticas, etc. Cada teoria ecologista incorpora uma ou várias entidades não sencientes destas como objeto de deveres diretos. Uma coisa que é comum a todas as perspectivas ecologistas é que o meio ambiente (isto é, aquilo que circunda os indivíduos) natural (seja lá que aspectos desse meio ambiente, dependendo da teoria) é visto como objeto de obrigações diretas.
De acordo com essa definição é possível ver que ela não engloba a perspectiva comum de que o meio ambiente deve ser preservado porque os humanos ou os animais não humanos precisam dele enquanto recurso. Não chamo essa perspectiva de ecologista porque, nesse caso, a obrigação de preservar o meio ambiente é vista como um dever indireto aos animais, humanos ou não humanos.
Deveres diretos e indiretos no ecologismo
Nesse tipo de perspectiva ecologista, bastante comum, há uma outra implicação (análoga e inversa à implicação presente na ética animal): não apenas o meio ambiente é objeto de deveres diretos, mas, os deveres diante dos seres sencientes são sempre indiretos à preocupação com o meio ambiente. Assim, por exemplo, a prática comum dos ecologistas, de defenderem membros de espécies ameaçadas de extinção não se dá por preocupação com o bem daquele animal que pretendem proteger, mas sim, em preservar a espécie (ou seja, existir aquele formato específico de animal). Nesse tipo de perspectiva, os deveres perante aos seres sencientes são sempre indiretos.
Ecologismo e especismo antropocêntrico
Contudo, a maioria das perspectivas ecologistas combina ecologismo com especismo antropocêntrico: os deveres perante aos seres sencientes são sempre vistos como indiretos à preservação das entidades naturais (meio ambiente, equilíbrio natural, espécies, etc.), exceto se estivermos a falar de humanos, que, então, são vistos como objeto de deveres diretos (e, geralmente, como objeto de deveres diretos mais fortes do que os deveres perante a entidades naturais). Assim, por exemplo, ecologistas defendem não socorrer ou até mesmo assassinar animais não humanos, se isso fomentar o equilíbrio natural (entendido como um número aproximado de populações de diferentes espécies), mas, normalmente não defendem que se faça a mesma coisa com seres humanos. A maioria das posições ecologistas é, então, especista, e, por esse motivo mesmo, deveria ser rejeitada.
Já, da perspectiva da ética animal, os deveres perante às entidades não sencientes (incluindo o meio ambiente, espécies, equilíbrio natural, etc.) são sempre indiretos ao bem dos seres sencientes. Isto é, teríamos a obrigação de não extinguir um ecossistema ou uma espécie, deixar um processo natural acontecer, ou preservar o meio ambiente somente na medida em que isso for benéfico para os seres sencientes. Algumas pessoas podem achar que essa disputa é como “procurar fio de cabelo em ovos”, já que, poderia-se pensar que preservar as entidades naturais é sempre bom para os seres sencientes, e que respeitar o bem dos seres sencientes é sempre bom para as entidades naturais. Mas, como pretendo discutir em outras postagens, nada poderia estar mais longe da verdade. Por exemplo, os processos naturais, (devido à maneira que acontecem, e não, devido à  interferência humana), tendem a maximizar o que é de ruim para os animais não humanos (mais notadamente, o número de animais que nasce apenas para sofrer e morrer de inanição). Assim sendo, essa disputa não tem nada de trivial. Voltaremos a esse ponto em postagens futuras.
A ética animal, como vimos, é anti-especista, e o é também quando defende que preocupações com o equilíbrio natural, espécies ou ecossistemas não trunfam o respeito que é devido aos seres sencientes, humanos ou não humanos. Quase todos nós já aceitamos esses prossupostos quando humanos poderiam ser as vítimas. Pouquíssimos de nós achariam correto, por exemplo, praticar uma chacina de humanos com vistas a fomentar o equilíbrio natural (por exemplo, se há uma disparidade entre o número da população de humanos e de outras espécies, um ecologista não-especista teria de defender chacinar os membros da espécie maios populosa, com vistas a trazer à tona uma situação de equilíbrio). A maioria de nós também rejeitaria a idéia de que é errado socorrer humanos que são vítimas de câncer, malária, deformidades, desastres naturais, ou qualquer outra desgraça natural, apesar de que, prestar tal socorro é intervir nos processos naturais, coisa que é condenada pela maioria das posições ecologistas. O senso comum moral, assim como a maioria das posições ecologistas, contudo, é especista: defende que os animais humanos estão acima, e os animais não humanos estão abaixo, das supostas obrigações perante às entidades naturais.
Que posição devemos adotar?
Pelas razões apontadas no início, devemos rejeitar posições especistas. Com o que devemos ficar então? Com a posição que diz que temos deveres diretos para com seres sencientes (humanos e não humanos) e somente deveres indiretos para com as entidades naturais? Ou, com a posição que diz que temos deveres diretos para com as entidades naturais e apenas deveres indiretos para com seres sencientes (humanos e não humanos)? Se a opção mais adequada for a primeira, temos de reconhecer que o dever de preservar entidades naturais vai até apenas o ponto onde isso é benéfico para os seres sencientes (e, como os processos naturais causam muito mais mal do que bem aos seres sencientes, teríamos que reconhecer então o dever de socorrer os animais vítimas desse processo, como já fazemos quando os humanos são vítimas da morte por inanição, desastres naturais, doenças, etc.). Se a opção mais adequada for a segunda, por outro lado, teríamos de então defender, como faz o ecologista Pentti Linkola, a chacina de seres sencientes, humanos e não humanos, com vistas a preservar o equilíbrio natural. Em postagens futuras, veremos que existem fortes razões para se rejeitar esta última concepção. Nesta outra postagem, encontram-se algumas dessas razões.
Posições híbridas
É verdade, não necessariamente existem só essas duas opções. Alguém poderia defender, por exemplo, que tanto os seres sencientes quanto as entidades naturais devem ser objeto de deveres diretos (e, também, indiretos). Nesse caso, uma teoria assim (vamos chamá-la deposição híbrida) teria de estabelecer um guia para sabermos como agir em casos onde os supostos deveres perante a esses dois tipos de entidades conflitam (como, por exemplo, no caso dos processos naturais maximizarem o sofrimento dos animais). Haverá sempre uma obrigação que pesa mais do que a outra? Se sim, por que? Ou, nenhum dos princípios tem prioridade automática e a decisão deve ser determinada por outros fatores (por exemplo, ver qual das duas coisas – bem-estar de seres sencientes e preservação de entidades naturais – uma situação contém mais e contém menos, e compensar aquela que tem menos)? Antes de tudo, temos de investigar que possíveis razões existem para este ou aquele tipo de entidade ser ou não objeto de obrigações diretas.
Como não argumentar a favor desta ou daquela posição
Não vou adentrar nessa questão no presente texto, mas pretendo que esse seja um dos assuntos das próximas postagens. O que gostaria de apontar agora é que temos, aparentemente, três posições candidatas (ética animalecologismo e posição híbrida), mas que as razões para se adotar esta ou aquela não podem ser circulares. Por exemplo, não faz sentido alguém atacar a ética animal simplesmente por dizer que ela não inclui entidades não sencientes, pois, isso seria assumir que é verdade que devemos incluir entidades não sencientes. Teria de ser endereçado outro argumento para dizer o porquê de ser assim. Da mesma maneira, não faria sentido rejeitar o ecologismo simplesmente por apontar que ele considera entidades não sencientes e desconsidera os seres sencientes: tem que ser apontado por que devemos considerar os seres sencientes diretamente e apenas indiretamente as entidades não sencientes (um esboço dessas razões se encontra aqui eaqui). Analogamente, não faz sentido defender a posição híbrida simplesmente porque ela reconhece deveres diretos diante de ambos os tipos de objetos, já que isso é assumir de antemão que a posição híbrida está correta (é um argumento circular): teria-se de endereçar um argumento adicional para se mostrar que devemos reconhecer deveres diretos tanto perante a seres sencientes quanto perante a entidades não sencientes.
Em textos futuros, pretendo entrar na discussão desses argumentos, contrários e favoráveis a cada uma das perspectivas. Acredito que há melhores razões para se adotar a perspectiva da ética animal (o que implica socorrer os animais de danos causados pelos processos naturais). Contudo, em postagens futuras, além de adentrar mais a fundo no por que penso que seja assim, gostaria de apontar também que as posições híbridas também implicariam em intervir nos danos causados por processos naturais.
Por enquanto, parece que isso basta para mostrar o antagonismo entre ética animal e ecologismo.
 ANDA

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