Paulistanos dão nova chance a cães com histórico agressivo

Cláudia e Lex: ele matou a antiga dona, com quem viveu por uma década (Foto: Ricardo D’Angelo)


No último dia 12, o comerciante Itamir da Silva pulou o muro da casa da mãe, na Vila Maria, na Zona Norte. Queria saber como ela estava, pois não dava notícias fazia algum tempo. Acabou sendo morto pelos sete SRDs (quatro deles mestiços de pit bull) da idosa, que havia falecido de causas naturais. “Os cães não comiam fazia dias e estavam estressados”, conta o delegado José Antônio do Nascimento. Um deles foi baleado por um PM durante a ação de salvamento do rapaz e outro morto no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) por ter problemas graves de saúde. Os cinco restantes passam agora por um processo de ressocialização e poderão estar disponíveis para adoção em breve. Mas quem toparia uma missão dessas?

Por incrível que pareça, alguns tutores aceitam animais com histórico agressivo, sem grandes dramas. A corretora de imóveis Cláudia Pequeno faz parte dessa turma. Ela assumiu o risco de cuidar do pit bull Lex que, em 2013, matou a farmacêutica Bárbara de Oliveira, de 35 anos, sua tutora desde que ele era filhote, com quem tinha boa relação. A vítima estava sozinha com o cão na casa em Itapira, interior de São Paulo. Não se sabe o motivo do ataque. Lex, de 12 anos, foi parar primeiro no CCZ local e em seguida em um abrigo.

Após quatro meses, Cláudia, atenta ao caso desde o início, percebeu que o animal não estava sendo bem tratado e levou-o para morar em um hotelzinho em Cotia, onde vive até hoje. Por causa de uma doença, encontra-se quase cego. Todos os fins de semana, a protetora vai visitá-lo e também a Snow, outro pit bull em situação parecida, ajudado pela moça desde 2009. Ele atacou sua antiga tutora, mordeu um vizinho e, por isso, levou dois tiros. Sobreviveu e hoje tem pouco contato com humanos por ser bravo. “Só não levo para casa porque não tenho espaço”, afirma Cláudia. “Quis salvá-los para evitar que fossem mortos ou maltratados.”

O gerente comercial André Coelho e a advogada Thaís Petinelli também escolheram deixar para trás o passado de Luna, de 4 anos, mistura de lhasa apso e maltês. Ela teria mordido seu antigo dono no rosto, que precisou levar sete pontos e resolveu se livrar da mascote há quase um ano. Luna se mostra carinhosa, mas continua temperamental. Chegou a atacar a faxineira e o próprio Coelho em situações de stress. Entretanto, não causou grandes danos. “Nesses casos, é preciso ter paciência”, diz Coelho. “Ela deve ter sido maltratada e, por isso, possui traumas.”

A empresária Ana Cecília von Gal é “mãe” de dois cães de passado violento, a rottweiler Danka, que matou um pit bull após uma invasão em um terreno abandonado onde vivia, e o também pit bull Seu Jorge, que ajudaria a treinar cães de rinha. “Sempre confiei neles”, garante Ana. A dupla veio do grupo Pitcão, da cardiologista Patricia Cancellara, responsável pela doação de mais de 300 cachorros. “Cuido de animais de grande porte que sofrem preconceito”, conta. “Eles são apenas reflexo de sua criação.”

O adestrador José Reis, do centro de comportamento animal Floresta dos Cães, em Cotia, ressocializa cães agressivos. Hoje, trata de trinta deles nesse processo, que dura até oito meses. “Acredito que 99% dos cachorros têm solução, mas precisam morar com as pessoas certas, cientes das necessidades de cada raça”, afirma.

Fonte: Veja SP

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