Existem soluções que tornem ético o consumo de alimentos de origem animal?


Nos meios bem-estaristas, fala-se de “soluções” que tornariam o consumo de alimentos de origem animal algo ético. Duas delas são a bem-estarização da pecuária, com a expansão das criações “felizes”, caipiras ou orgânicas de animais, e a substituição da pecuária pela caça.

Abaixo abordo cada uma delas, mostrando que essas “soluções” no fundo não tornam os animais menos escravos ou seres realmente livres. Dois trechos extraídos do livro que venho escrevendo sobre veg(etari)anismo:

Criações “felizes”, caipiras ou orgânicas são uma solução plausível?

Muita gente se pergunta: E se eu passar a consumir “carne feliz”, leite orgânico e/ou ovos caipiras, de fazendas onde os animais vivem soltos e são bem tratados? Ao se ter esse questionamento, parte-se da premissa de que, sendo eliminadas as violências mais chocantes, como espancamentos, privação total de soltura e desmamas forçadas, seria possível haver um consumo “ético” de alimentos de origem animal.

Sob o ponto de vista do bem-estarismo, é razoável que se recorra não mais a qualquer venda de carnes, laticínios e ovos, mas sim apenas às vendas de produtos provenientes de fazendas extensivas que tratem “bem” os animais criados, dê-lhes um mínimo de “afeto”, evite os “maus tratos” comuns às criações em grande escala e os abata com métodos ditos “humanitários”. Mas o olhar abolicionista percebe que a “ética” dessas fazendas é uma farsa. Os Direitos Animais deixam evidente que as violências que se supõe serem evitadas em fazendas pecuárias bem-estaristas não são o problema principal, mas sim somente as consequências mais explícitas daquele que é o fundamento de tudo: a escravidão animal, o ato de tratar animais como escravos, sob propriedade dos seres humanos.

Fundamentalmente falando, mesmo as fazendas bem-estaristas também consideram os animais meras fontes de produtos. Mas como fontes que requerem algum zelo e “manutenção” e devem ser bem cuidadas. Mesmo que haja supostamente um pouco de “dedicação” e “afeto” a eles, no fundo esses animais continuam sendo tratados como nada mais que matéria-prima viva. Não estão ali por caridade, mas sim com um propósito de exploração.

Os animais sob domínio dos bem-estaristas não nascem e existem como fins em si mesmos, sujeitos e senhores de suas próprias vidas, proprietários exclusivos de seus corpos. Não nascem simplesmente para viver uma vida autônoma e dependente apenas da Natureza não humana. Nascem sim com uma função predeterminada, que não diz respeito a seus interesses próprios: a de fornecer alimentos aos seres humanos – em outras palavras, servir aos humanos e serem-lhes submissos ao interesse comercial.

Os pecuaristas bem-estaristas, aos olhos das pessoas menos informadas, parecem reconhecer que os animais que criam desejam viver e não querem sofrer. Mas esse “reconhecimento” não é uma concessão de direitos, e sim apenas uma maneira de “otimizar a produção” e, ao mesmo tempo, cativar consumidores que dizem “amar” ou “respeitar” os animais mas ainda não conhecem o ponto de vista abolicionista.

Os animais em si não têm seu direito de serem livres e autônomos reconhecidos. Pelo contrário, permanecem tendo suas vidas limitadas espacialmente por cercas e temporalmente pela idade “de abate”. Continuam impedidos de viver sem que outros lhes imponham o espaço que devem habitar e o limite de tempo no qual serão obrigatoriamente mortos.

Ressalte-se também que, sendo criados por pecuaristas interessados em vender suas carnes, peles, vísceras e/ou secreções, não estão livres da vontade deles de acabar com suas vidas quando estiverem na idade “de abate” ou tiverem passado de sua “vida útil”. A “carne feliz” não existiria se não houvesse em criações bem-estaristas o encaminhamento dos animais ao abate, ainda que este seja feito de formas supostamente indolores ou “com menos dor possível”. De qualquer jeito, com ou sem causação de sofrimento explícito, abater é matar, e matar é negar de forma violenta que a vítima continue viva. É recusar-lhe o atendimento de dos interesses dos animais de viverem o máximo possível e continuarem vivos e fisicamente íntegros.

E além disso, a produção de leite “orgânico” e ovo “caipira” não difere da produção de leite e ovos convencionais no que se refere a matar suas “produtoras” quando elas tiverem passado da idade “produtiva”. Nem se priva de eliminar os machos recém-nascidos que, não tendo serventia aos criadores, são vistos como “peso morto”. Sustentar todas as fêmeas “aposentadas” e os machos “sem serventia” até que morressem de morte natural oneraria o caixa da fazenda com gastos com alimentação, água, infraestrutura física e combustíveis e, assim, inviabilizaria a lucratividade das criações de animais soltos. Por isso a vida animal nesses ambientes é vista como tão “descartável” quanto a vida dos animais confinados em granjas e fazendas industriais.

Algumas pessoas, incluindo gente novata no veganismo, ainda se esforçam em argumentar que haveria uma espécie de pacto entre os senhores e as crias: o criador lhes proviria proteção contra predadores e condições confortáveis de bem-estar, em troca do leite, dos ovos e também da carne dos criados. Porém, essa linha de raciocínio acaba não fazendo sentido, uma vez que os animais criados não puderam escolher entre aceitar ou recusar esse “pacto” e aqueles que dizem protegê-los de predadores naturais nada menos são do que seus próprios futuros predadores ou matadores. Em suma, tal “pacto” é algo unilateral e imposto e não provê qualquer proteção verdadeira, logo não pode ser considerado realmente um pacto nem ter qualquer suposto benefício reconhecido.

Observando-se a pecuária pautada no “bem-estar animal” sob o olhar abolicionista, percebemos que ela tenta convencer os consumidores de que seria possível fazer os animais os servirem em “melhores condições”, mas no final das contas não sai do seu propósito essencial, aquele que acompanha desde as fazendas “felizes”, orgânicas ou caipiras até as mais violentas fazendas-fábrica: obrigar animais não humanos a servirem os humanos, mediante clausura em uma propriedade, sem que possam aceitar, recusar ou se defender. Em outras palavras, escravidão com bem-estarismo também é escravidão, e não se torna ética apenas por parecer visualmente mais aceitável.



E a caça em ambiente natural seria uma solução?

Muitas pessoas se perguntam se, já que a pecuária, mesmo em sua variante bem-estarista, e a pesca não são éticas em nenhuma ocasião, valeria a pena obter carne de animais caçados em ambientes naturais. Partem da premissa de que pelo menos os animais caçados não estariam sendo escravizados como na pecuária e estariam sendo mortos no pleno esquema ecológico da relação de predação. Estaríamos agindo como outros animais, caçando para obtermos nossa alimentação, logo, não estaríamos faltando com a Ética nem tratando os outros animais como nossa propriedade. Mas essa visão sobre a caça como “alternativa” à pecuária também tem problemas éticos, assim como severas limitações ambientais e de demanda alimentícia.

No aspecto ético, a caça como suposta alternativa é na verdade uma versão terrestre e em menor escala da pesca, trazendo consigo todos os problemas inerentes a esta. Não dependemos mais, enquanto sociedades modernas, da caça, e matar animais em meios silvestres implica considerar que os ambientes naturais são meras fontes de matéria-prima, uma jazida de carne a serviço dos seres humanos, tal como a pesca trata os rios, lagos e mares como meras “minas” de carne branca. E também, sendo uma forma de assassinato de animais desprovida de uma necessidade extrema (como autodefesa e preservação da vida humana), caçar ante a existência de alternativas que não demandam morte animal é tão antiético quanto pescar e mesmo criar animais para abate.

Já as questões ambiental e de demanda alimentícia se combinam: é absurdo acreditar que a caça poderia satisfazer uma demanda de bilhões de seres humanos sem promover danos ambientais extremamente severos, extinguindo em pouco tempo a fauna “caçável” e causando desequilíbrios ecológicos catastróficos. Ainda mais numa realidade, como a atual, em que as extensões de ecossistema de fauna abundante estão bastante reduzidas em comparação com alguns séculos atrás e cada vez mais espécies de animais de médio ou grande porte estão ameaçadas de extinção ou mesmo sendo extintas. Se a caça nos moldes atuais, que atende a uma demanda muito baixa – e cada vez menor – de carne, já vem ameaçando severamente uma quantidade mais que considerável de espécies animais, uma caça em larga escala para fins de alimentar populações modernas extinguiria a grande maioria dessa fauna em pouquíssimo tempo.

Portanto, não existem alternativas alimentares éticas que envolvam morte proposital de animais.

VEGANAGENTE - Robson Fernando De Souza

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