Desafios do modo de vida vegano, por Sonia T. Felipe



1. A paz e não-violência para os animais é o objetivo final buscado pelo vegano e vegana. Qualquer benefício pessoal que possa resultar dessa nova forma de viver é consequência da atitude vegana, não sua finalidade.

2. A justiça social e ambiental são meios para que se alcance a paz e não-violência para todos os seres vivos. A defesa da natureza e sua preservação implica no cuidado atencioso de todas as formas de vida, e na abstenção de tudo o que implica escravização de animais.

3. Os direitos fundamentais animais precisam ser defendidos com a mesma tenacidade com a qual se defendem os humanos.

4. A saúde humana precisa ser assegurada sem a exploração de animais e sua submissão a experimentos.

5. A higiene, limpeza e beleza humanas não podem ser obtidas às custas da vida, do bem-estar e da desfiguração de animais.

6. A pele e a preservação da intimidade do corpo humano não devem ser protegidas às custas da tortura e morte de quaisquer animais.

7. Os nutrientes para o organismo humano devem ser assegurados por alimentos estritamente vegetais, descartando-se a hipótese de usar animais para prover matéria alimentar humana.

8. Da mente humana devem-se erradicar as ideias, conceitos e argumentos que justificam e fomentam o uso de animais. Se não se usa matéria animal para comer e vestir, também não se a usa para falar.

9. Os produtos à venda no mercado mundial devem ser desmontados em sua composição, para que se possa ter ciência dos ingredientes que compõem a alimentação, o vestuário, adornos, cosméticos, material de limpeza, higiene, e todos os produtos da indústria química, das tintas aos componentes high tech, do lazer aos esportes.

10. Aos jovens se deve dizer a verdade sobre a exploração e escravização dos animais. Dos mais velhos se deve cobrar a indiferença em relação ao fato de terem se deixado levar pela propaganda no que diz respeito à melhor forma de prover as necessidades da família.

11. À tradição alimentar e moral animalizada devemos dar um adeus. Desassinar o contrato de expropriação da vida animal é nosso desafio.

12. Dos governantes não há o que esperar na defesa dos direitos fundamentais dos animais, pois a maior parte deles é eleita pelo agronegócio. Via de regra, todo governo é movido pelo capital. Quando se trata de atender à vida em desgraça, especialmente se a desgraça afeta milhões de indivíduos, os governos não sabem o que fazer. Isso vale para a desgraça dos milhões de humanos abatidos por forças às quais não podem fazer frente, tanto quanto para a de bilhões de animais abatidos por forças igualmente avassaladoras.

13. Para tornar-se vegano num mundo animalizado são necessários todos os anos restantes de nossas vidas. Quando nos damos conta de que algum produto ou serviço é oferecido às custas da escravização ou morte de animais, tal produto ou serviço precisa ser dispensado para sempre.

14. O dever positivo direto de respeito aos direitos animais não nos autoriza a negociar unilateralmente nosso padrão de vida contra o direito deles de terem sua vida boa.

15. Ser vegano não é algo estático, de fato não é sequer um estado de ser. É um movimento contínuo, uma luta contínua, não contra alvos externos, mas contra alvos internos. É uma maneira de passar a limpo os arquivos mentais que nos conduzem intuitivamente em nossas escolhas diárias. Ser vegano implica em abrir mão das intuições morais herdadas da tradição e pôr no lugar delas um princípio ético do qual não se abre mão na hora de comer, de ir para a cama, de divertir-se e de instruir-se.

16. Surpresas estão reservadas para os que se tornam veganos. Por detrás de cada dobra de tecido alimentar ou do vestuário, de cada item ou componente dos objetos de uso diário esconde-se a história da exploração, sofrimento e morte de animais não-humanos. Ser vegano é ter disposição para examinar tais pregas e alisá-las uma a uma. Enquanto já nos despregamos de dez ou quinze itens que antes constituíam nosso consumo diário, há quem sequer tenha se despregado de um ou dois deles, carne e laticínios, por exemplo.

17. Vivendo no mesmo plano terrestre dos outros humanos e tendo sido formatados na mesma matriz cognitiva e moral deles, precisamos aprender a olhar para o que eles ainda não fazem, como se fôssemos nós quem ainda não houvéssemos feito coisa alguma. Em vez de apontar para o outro, precisamos apontar para nossas práticas. Se somos coerentes, outras pessoas farão dela um espelho. Se fracassamos, quem mais tem a perder com nosso fracasso são os animais. É preciso abolir a ética animalizada antropocêntrica e em seu lugar construir um modo de vida com base numa ética genuinamente animalista.

* Trecho final da apresentação de abertura da Sociedade Vegana em São Paulo, março de 2010, proferido pela filósofa Sônia T. Felipe.

Leia a apresentação na íntegra aqui.

ANDA

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