Nutricionistas e resistência ao vegetarianismo


Todo vegetariano já teve em algum momento, em qualquer que seja o seu meio, a experiência onde a simples menção ao vegetarianismo gera críticas ou provoca chacotas. Esse comportamento é uma reação típica quando as pessoas são confrontadas com idéias que são pouco aceitas pela sociedade na qual elas estão inseridas. Seja por autodefesa, seja pelo medo do novo ou até mesmo por uma sensação de culpa, o fato é que as pessoas tendem a se opor ou ridicularizar a tudo o que desafie a realidade como elas a conhecem. Isso parece ser especialmente verdadeiro quando, ao invés de um debate individual, as pessoas são confrontadas em grupos.

Entre os profissionais da área de saúde, o que não deixa de ser um grupo de pessoas, a história não é diferente. Bem, na verdade, é um pouco diferente, pois esse meio tem como característica a resistência a opiniões que desafiem o status quo. Como acontece com toda a resistência à mudança, duas partes são prejudicadas: a sociedade, pois ela é privada da informação e prática corretas, e o próprio elemento resistente, pois ele perderá a credibilidade na medida em que a verdade antes condenada vai se tornando evidente.

Historicamente, podemos observar que essa resistência tem um tempo de vida limitado e seus últimos dias são geralmente anunciados quando ela passa a ser reconhecida pela maior parte da sociedade como mera desinformação (ou a falta da informação correta, aquela livre de preconceitos ou censura). Infelizmente para os que vivem nesse tempo em que o preconceito e a desinformação ainda prevalecem ou felizmente por evidenciar o fim daquilo que não serve mais, o fato é que o público vegetariano demonstra não depositar confiança nos profissionais de saúde de uma forma geral. Isso é especialmente verdadeiro para os nutricionistas. O motivo para isso é o despreparo desses profissionais para atender ao paciente vegetariano, que encontra na alimentação a maior expressão do seu estilo de vida.

Não são raros os comentários que evidenciam a falta de confiança que prevalece entre o público vegetariano com relação aos nutricionistas. Pessoalmente, eu recebo pelo menos um depoimento por semana criticando a atuação de outros profissionais, seja por escrito ou durante a consulta na forma de desabafo. Copio aqui trechos de três mensagens eletrônicas que recebi entre os dias 12 e 14 de janeiro de 2009 (em apenas três dias):

– “Consultei vários nutricionistas “comuns” que me disseram ser impossível continuar com a dieta vegan e ser saudável. Não vou abrir mão de meus ideais por opiniões de pessoas mal informadas, você é a minha última esperança!”;

– “O último nutricionista que consultei tentou me convencer a voltar a comer carne e também a dar carne para meu bebê de sete meses. Saí do consultório dele indignada!”;

– “Temo muito ao ir a nutricionistas e endocrinologistas e não entenderem a minha nova opção”. Se você tiver algum depoimento semelhante, eu gostaria de recebê-lo.

O trabalho do nutricionista é o de orientar o paciente para que ele adéqüe a sua dieta de acordo com as suas preferências alimentares. Apesar de o vegetarianismo ser uma opção alimentar plenamente viável e saudável, os profissionais que deveriam estar preparados para orientar o paciente vegetariano são justamente os que tratam de desencorajá-lo. A argumentação é geralmente baseada em mitos que a maior parte dos vegetarianos já aprendeu a reconhecer como tal. Com isso, até mesmo a pessoa leiga que parte em busca de orientação acaba por encontrar um profissional despreparado que, ao invés de oferecer respostas às suas questões e algumas soluções aos seus erros nutricionais, parte para a simples condenação da opção alimentar do paciente vegetariano como um todo. Como resultado, temos a falta de credibilidade que pode ser observada na maior parte do público vegetariano.

Para buscarmos compreender melhor esse cenário, devemos ter claro que (obviamente), os nutricionistas não são pessoas mal-intencionadas que fizeram um pacto para servir à indústria da carne. Ainda que isso não os isente de alguma responsabilidade, o fato é que eles simplesmente estão mal-informados. Essa má-informação é em parte conseqüência da resistência em conhecer e estudar aquilo que é novo ou diferente do que é ensinado na faculdade. A outra parte da má-informação vem justamente da educação recebida na faculdade, que é largamente permeada por informações e materiais produzidos por empresas que têm interesse em promover o consumo de produtos de origem animal. Aceitos e utilizados, esses materiais contribuem para formar um profissional mal-informado. O currículo do curso e a falta de atualização do meio acadêmico sobre o tema da nutrição vegetariana também não ajudam muito. O tema da nutrição vegetariana raramente é abordado e, quando isso é feito, acontece em uma única aula durante todo o curso. Como resultado, o nutricionista sai da faculdade reforçando os mesmos mitos amplamente aceitos pela população leiga quando o tema é a nutrição vegetariana e aqueles que buscam orientação nesse sentido são deixados sem ter a quem recorrer.

Seja por uma falha na educação, seja pelo seu preconceito ou pelo desinteresse, o fato é que os nutricionistas de uma forma geral estão despreparados para atender ao paciente vegetariano. Os pacientes vegetarianos, por sua vez, parecem estar cientes disso, o que não é bom para os nutricionistas, que com isso maculam a credibilidade de toda uma categoria, nem tampouco é bom para os vegetarianos, que ficam sem a orientação que poderia fazer toda a diferença para a sua saúde e bem-estar.

**Dr George Guimarães, nutricionista especializado em dietas vegetarianas.

Fonte: Nutriveg

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