O veganismo é um estilo de vida? Um hábito de consumo? Uma filosofia de vida?



Três expressões costumam ser usadas no senso comum para se descrever o veganismo: estilo de vida, hábito de consumo e filosofia de vida. Mas será que o veganismo corresponde a essas interpretações, ou é outra coisa?

É necessário dizer que essas visões sobre o que o veganismo seria acabam por diminuir sua essência ética e política. E por isso mesmo é necessário tanto reafirmar o conceito considerado o mais adequado para o veganismo como mostrar por que os três termos mencionados são impróprios para conceituá-lo decentemente.

O que é realmente o veganismo?

A Vegan Society do Reino Unido, primeira entidade divulgadora do veganismo a surgir no mundo (foi fundada em 1944), define o veganismo como “um modo de viver que busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra animais promovidas por alimentação, vestuário e qualquer outro propósito” (tradução minha).

Como um modo de viver norteado pela ética animal, abrange uma série de práticas que visam eliminar da vida humana toda e qualquer forma de financiamento individual a atividades que usam animais vivos ou mortos como “objetos vivos e móveis” a servir os seres humanos. Também pretende desencorajar atos não exploratórios de descaso para com animais não humanos, como matar animais considerado “pragas” quando é possível deixá-los viver sem que prejudiquem a vida humana. E essa eliminação, por sua vez, tem o objetivo de contribuir para a futura abolição da exploração animal e a consolidação do respeito aos animais como valor ético-moral prevalecente no mundo.

Passa pela evitação do consumo de produtos boicotáveis, alimentícios ou não, que contêm um ou mais ingredientes de origem animal e/ou são de empresas que fazem testes em animais; pelo boicote a entretenimentos que exploram animais; pela opção por meios de afugentar pequenos animais não domésticos sem matá-los; pela rejeição de comprar animais domésticos, adotando-os ao invés quando é viável e desejado adotar etc.

Tentar resumir isso a um hábito de consumo, um estilo de vida ou uma “filosofia” de vida é minimizar esse significado e ignorar aspectos importantes do conjunto de práticas éticas que é o veganismo, como é mostrado a seguir.

Hábito de consumo?
Muitas pessoas acham que o veganismo é nada mais do que um hábito de consumo seletivo que visa a não participação, por parte do indivíduo, nas tradições econômicas e científicas de explorar animais. Mas não é bem isso.

Ser vegan também passa por boicotar locais e eventos que exploram animais para fins de entretenimento e “educação”, como zoológicos, circos com animais, aquários, parques aquáticos do tipo do Sea World (que forçam animais marinhos a apresentações similares a números circenses), rodeios, vaquejadas, touradas, farras do boi, corridas de animais, hotéis-fazenda que realizam passeios de charrete ou montaria, passeios turísticos que exploram animais ditos “de tração”, fazendas simuladas de animais (em shoppings e outros locais) etc.

Também é parte do veganismo, como foi mencionado, evitar matar animais pequenos quando eles podem ser salvos e não ameaçam a vida ou saúde humana. Nesse sentido, o vegan costuma usar repelentes naturais – que não são produtos de empresas que testam em animais -, que protegem a casa de ser invadida por formigas, baratas, ratos, aranhas, escorpiões, cupins, pernilongos etc. E considero como algo vegano também o ato de adotar animais domésticos, quando a pessoa pode e quer adotá-los, rejeitando o tratamento desses seres como mercadoria.

Em resumo, veganismo é bem mais do que um hábito de consumo. Pessoas que estão em transição de se tornarem veganas vão tomar conhecimento disso com o tempo e saberão lidar com essa relativa complexidade, mesmo que inicialmente achem que isso “é muita coisa para fazer”.

Estilo de vida?


Não é difícil confundir o “modo de viver” vegano com um estilo de vida. Nesse sentido, vale nos perguntarmos o que é, afinal de contas, um estilo de vida.

Uma definição de fácil compreensão é dada pela Wikipédia em português: “É a forma pela qual uma pessoa ou um grupo de pessoas vivencia o mundo e, em consequência, se comporta e faz escolhas. Há revistas populares e colunas em jornais anunciando padrões específicos de conduta, alimentação, roupas, espaços de esporte, lazer etc.”

O veganismo, se tomarmos sua definição e sua essência ética e política, não é abrangente o suficiente no universo de hábitos e gostos de um ser humano para poder ser considerado um estilo de vida propriamente dito. Por exemplo, não é da definição do veganismo influenciar os gostos das pessoas por algum ritmo musical, a preferência por determinados estilos de roupas, a predileção por um ou mais ramos culinários – considerando que não existe uma única culinária vegana, mas sim muitas culinárias veganas diferentes ao redor do mundo e dentro do Brasil -, a preferência por algum esporte específico etc.

O veganismo, além de ser um conjunto de práticas de cunho ético, é permissível a diversos estilos de vida. A pessoa pode ter um estilo de vida “patricinha/mauricinho” de classe média, funkeiro, afrorreligioso, roqueiro, headbanger, rapper, anarcopunk, straight-edge, new-age, evangélico tradicional, pagodeiro etc. E o boicote a produtos animais não irá diminuir a pertença da pessoa a tais estilos.

Mas acontece de alguns indivíduos vegans acreditarem que o veganismo os influenciou a adotarem determinadas influências culinárias, visões espirituais/religiosas, gostos de entretenimento e alguns estilos de vestuário e crerem que adotaram um “estilo de vida vegano”. É o caso de quem, por exemplo, tem uma vida que passa pelo gosto por trilhas florestais, refeições com substitutos veganos industrializados de alimentos de origem animal (linguiças, mortadelas, pizzas, sorvetes, hambúrgueres etc.) e vegetais não industrializados orgânicos (verduras, folhas, legumes, cereais etc.), evitação de ingredientes como parabenos e glutamato monossódico, idas frequentes a restaurantes veganos, predileção por amizades e relacionamentos amorosos com vegans, gosto especial por artistas que se dizem veganos ou vegetarianos etc.

Isso, porém, não é necessariamente um “estilo de vida vegano” objetivamente falando, algo distinto, por exemplo, do estilo punk, do classe-mediano-urbano-baladinha-top ou do evangélico. Vai da subjetividade de cada pessoa acreditar ou não que determinadas combinações de gostos e de influências externas caracterizam um “estilo de vida vegano” propriamente dito.

Em resumo, veganismo não é objetivamente um estilo de vida. Seus princípios e costumes não são abrangentes o bastante para constituir um estilo de vida específico propriamente dito, embora algumas pessoas acreditem que, por terem determinados gostos, são adeptas de um “estilo vegano”.

Filosofia de vida?

Algumas pessoas acreditam que o veganismo é uma “filosofia de vida”, sendo esse uso do termo “filosofia” algo do senso comum, não diretamente relacionado à área de conhecimento da Filosofia. Nesse caso, o que é uma filosofia de vida? E por que não é adequado dizer que o veganismo pode ser considerado uma?

Pelo que é encontrado no Google, pode-se deduzir que “filosofia de vida” não é uma corrente filosófica, mas sim um conjunto de preceitos morais e conhecimentos vindos da vivência cotidiana (como os ditados populares) que orientam o indivíduo a um determinado conjunto de condutas. A “filosofia de vida”, nesse sentido, tem influências religiosas e não religiosas.

Por exemplo, alguém pode adotar uma “filosofia de vida” baseada em ensinamentos extraídos de livros de religiões orientais e de auto-ajuda, nos conselhos dados e histórias contadas por seus avós e seus pais ao longo de sua infância e juventude, nos “exemplos de pessoas que venceram na vida”, em provérbios bíblicos, em ensinamentos tradicionais judaicos ou afrorreligiosos, em reflexões pessoais surgidas em meditações etc. Respeitar os mais velhos, ouvir mais o coração, saber rir de si mesmo, deixar a casa sempre arrumada para se sentir bem, planejar os compromissos cotidianos para ter mais tranquilidade no dia-a-dia, aprender a gostar de trilhas florestais etc. compõem um exemplo de “filosofia de vida” pessoal.

Assim sendo, a “filosofia de vida” tende a ser algo ou individual, quando é uma combinação personalizada de ensinamentos obtidos ao longo da vida de uma pessoa, ou coletivo, quando é um conjunto de preceitos morais ensinados por uma religião. E em nenhum dos dois tipos o veganismo se enquadra.

O veganismo não é algo que nos ensina a ter uma vida de qualidade, moralmente equilibrada e comungada com a Natureza ou alguma divindade. Mas sim um conjunto de práticas que têm como fundamento a ética animal. E esta, por sua vez, não é um conjunto de preceitos morais antropocêntricos. Mas sim uma teoria do ramo da Ética – dessa vez sendo derivada da Filosofia propriamente dita – que explica objetivamente por que os animais não humanos devem ser respeitados tanto quanto os seres humanos em seus direitos fundamentais, como o de não serem tratados como propriedade, e interesses individuais, como o de quererem continuar vivos e não sofrer.

Fica evidente, assim, que o veganismo não se reduz a um hábito de consumo, nem constitui um estilo de vida, nem é uma filosofia de vida. É na verdade um conjunto de práticas diversas enraizadas na ética dos Direitos Animais e na convicção política de que a exploração animal deve ser boicotada e abolida. Saibamos, então, responder quando alguém usar uma das três expressões de senso comum para tentar diminuir ou distorcer, intencionalmente ou não, aquilo que o veganismo realmente é e defende.

**Robson Fernando de Souza é autor dos blogs Consciência.blog.br e Veganagente e do vlog Canal Veganagente.

Fonte: Veganagente

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