Será que é vegano mesmo?, por Leon Denis



Na prática do veganismo estudar faz uma grande diferença. Essa é a tese que defenderei nesse artigo.

Veganismo é um modo de vida, fundado em 1944 na Inglaterra. E de lá pra cá seu conceito continua o mesmo. Veganismo é a busca diária de abolição de todo tipo de consumo que tenha em sua base algum elemento que venha dos animais não humanos, seja diretamente de seus corpos desmembrados, secreções deles extraídos ou “serviços” a eles impostos. Ou seja, na alimentação, na vestimenta, no entretenimento, no estudo e produção cientifica, e na relação com os animais “de estimação”.

A adoção do modo de vida vegano deve vir indiscutivelmente acompanhada de muito estudo. E necessário que se leia em especial, Ética Animal (um ramo da Filosofia), Etologia Cognitiva, Nutrição vegetariana; em complemento, Biologia, Historia, Ciência Política, Direito, Neurociência, Antropologia, Psicologia Social, entre outras áreas do conhecimento que ajudam na construção de uma consciência animal mais sólida e convicta dos ideais éticos que está a defender.

A dieta do vegano é o vegetarianismo. E nesse quesito não há desculpas para se alimentar de proteína animalizada. A dieta vegetariana formada por legumes, verduras, frutas, oleaginosas, sementes, ou seja, tudo que é vegetal. Com exceção da B12, ela nos oferece tudo o que precisamos. Hoje convencionou dizer que a dieta vegetariana é cara. Quando algumas pessoas fazem essa afirmação, geralmente elas estão se referindo a alguns produtos industrializados feitos de fontes vegetais que simulam um antigo produto animalizado que ela era viciada. Por exemplo: salsichas vegetais, hambúrgueres, queijos vegetais, algo totalmente dispensável. Dizer que a dieta vegetariana é cara tendo como referência produtos industrializados é agir com má-fé. Porém, essas mesmas pessoas alegam também que a dieta exclusivamente de vegetais, também é cara, e apontam para as oleaginosas e grãos integrais. Vamos fazer um exercício: quanto você e sua família gasta (ou gastava) por semana ou por mês com carnes, ovos, leite e derivados? Quando se trata de gastar um valor absurdo com proteína animalizada, não é caro. Mas quando é pra comprar comida de verdade, vinda da terra, aí tudo fica caro. Isso é agir de má-fé e não condiz com a genuína prática do modo de vida vegano. Não temos aprimoramento moral na troca de alimentos industrializados de origem animal pelos industrializados de origem vegetal.

Quanto ao vestuário, em hipótese alguma precisamos usar uma roupa ou utensílio de origem animal. Seja em qual clima for, temos um vestuário de fonte vegetal. No entretenimento, a abolição é fácil e tranquila. A decisão de não ir, de não entrar em ambientes que usam animais não humanos para entretenimento é individual e balizada pela convicção ideológica vegana. Não precisamos para nos divertir, para ter um lazer individual, com amigos ou em família, ter que frequentar espaços que usam animais não humanos. O vegano, aquele que estuda a história dos zoológicos, dos parques aquáticos, dos circos, das touradas, das rinhas, de todas as formas de uso, não sente em momento algum vontade ou necessidade de frequentar lugares de confinamento e tortura. A exposição de animais humanos e não humanos sempre acompanhou a história da humanidade. Os expostos eram e continuam sendo vistos como “produtos exóticos”. Não há dignidade nem respeito, apenas um produto exposto atrás de uma vitrine.

O vegano é aquele que sabe que os animais que temos como companhia não devem ser comprados, pois não são coisas, produtos, mas pessoas, cada qual com sua singularidade, seu modo de ver e agir no mundo. Veganos que estudam a vida animal vêem além da espécie, ao olhar, enxerga o indivíduo membro daquela espécie. A única forma aceitável de ter a companhia de um animal não humano é pela via da adoção, do acolhimento, mas com condições de fornecer alimentação e um ambiente o mais confortável possível. Pois já basta a tortura do mesmo não estar entre os seus pares.

E a ciência? Veganos se defrontam com a ciência especista em duas situações: como estudante de algum curso que utiliza os animais para “estudos” e “pesquisa”. Quanto a esse ponto, cabe ao vegano fazer objeção de consciência, se negar a tais aulas, a participar de tais pesquisas. Para ter firmeza dessa decisão é preciso estudar tudo sobre métodos substitutivos à experimentação animal. Estudar muita Etologia e Neurociência focada na mente dos animais, para entender o porquê é inaceitável os usos dos animais na ciência. É necessário ter claro que as universidades são instituições que, para manterem seu status de a única detentora e transmissora da verdade, irão desmoralizá-lo como aluno e aluna que está indo contra seu arcaico método de ensino e pesquisa especista. Se depois de muita luta, o objetor vegano não conseguir a dispensa de participar das aulas com animais, não sobra outra opção a não ser mudar de área. Sim. Pois um vegano, pelo principio que funda o veganismo não frequentará essas aulas. Sua vontade e desejo de se formar num determinado campo do conhecimento não pode, por uma questão de coerência ética, estar acima da vida dos animais usados ali para a aquisição de um conhecimento que todos nós já sabemos qual é.

A segunda situação é no dia-a-dia, nos usos que se faz de tudo que permeia a vida humana em sociedade. É sabido que temos ingredientes de origem animal em quase tudo: pneus, tinta da casa, aparelhos eletrônicos, produtos de limpeza da casa, em uma infinidade de objetos usados todos os dias pelos cidadãos. Esse é o único ponto onde o vegano não consegue se livrar 100% dos usos dos animais não humanos, mas isso, de longe, não significa que não podemos buscar abolir dia-a-dia esses produtos. Degrau por degrau buscando aprimorar-se moralmente. Buscando fontes substitutivas. Não poder fazer tudo não significa não fazer nada. É possível ser vegano na alimentação, no vestuário, no entretenimento, na companhia de outras espécies, e em muitas formas de nos servimos dos bens produzidos pela ciência. Para isso é preciso estudar muito, sem preguiça e subterfúgios.

Analfabetismo funcional animalista não deve fazer parte do modo de vida vegano. Somente estudando Ética Animal, nas suas mais variadas vertentes; Etologia Cognitiva para entender a senciência que define nossa animalidade; e a história de todas as formas de opressão, o vegano terá uma base firme para não se deixar levar por interesses supérfluos humanos em detrimento do interesse maior dos outros animais que é viver, e viver a partir do seu bem próprio, a seu próprio modo e com os seus pares.

Segundo o historiador grego Diógenes Laertios, uma vez perguntaram a Aristóteles se havia muita diferença entre uma pessoa educada e uma sem educação, e o filósofo teria respondido: “Tanto quanto os vivos diferem dos mortos”. Fazendo uma analogia para o que vem acontecendo com o “veganismo” no Brasil hoje, poderíamos dizer que, a diferença entre os veganos que estudam, que se fundamentam teoricamente seu modo de vida, que não colocam desejos supérfluos humanos acima de uma vida digna dos animais não humanos, e os “veganos” que não estudam: Aristóteles responderia, a diferença entre os vivos e os mortos.

Pois é isso que nos parece, que os “veganos” que defendem ideias como: “Vegano pode trabalhar no açougue e em redes de fast food”, “Vegano pode comer alimentos que contem traços de leite e ovos”, “O meu veganismo defende que essa lei (bem-estarista) é um passo para a abolição”, “O meu veganismo se cala para que outras causas sociais falem, gritem, pois a causa animal é secundaria diante das lutas humanas”, “Defendo ditadura e intervenção militar sim, e o que isso tem a ver com meu veganismo?”, “O meu veganismo é para os animais mesmo, não defendo os humanos, são escrotos”, “Sou vegano pelos animais, pela ética, pelo respeito aos animais, esse papo de compaixão é pra bem-estarista”, “Sou vegano e O ser humano que maltrata animais tem que se f…”; estão tão mortos quanto os animais que eles especistamente legitimam o uso e o assassinato.

São “veganos” que estão eticamente mortos. Não aprenderam nada sobre o que é veganismo, que mantém desde 1944 o termo, o conceito e sua aplicação inalterada, pois defendem ideias e práticas que ferem o modo de vida vegano e legitimam o status de coisas dos animais. Como se dizer vegano ou vegana e não estudar aquilo que se diz ser? Como é possível dizer que defende os animais não humanos por motivos éticos, sem ler as obras de Ética Animal e de Direitos Animais?

Essa é a cultura típica do brasileiro. Somos culturalmente avessos aos estudos. Estudos sérios, que exigem tempo, disciplina, leitura de obras densas. É inimaginável para qualquer vegano que estuda as bases da ideologia que o define, defender qualquer uso dos animais não humanos. Em hipótese alguma um vegano – que tem muito claro a situação degradante que os animais são levados a viver para sustentar desejos fúteis humanos – legitima o especismo. Qualquer forma de uso de um animal não humano é especismo. Cultura essa que não permite a busca de conhecimento, pois já se satisfaz com informações oriundas de blogs e redes sociais. Confundem informação (que na verdade mais desinforma) com conhecimento. Ter conhecimento, como disse Tom Regan, exige uma “disciplinada paixão”, é dedicar-se há horas e horas de leitura de obras sérias.

Ser adepto do modo de vida vegano é estudar até o fim da vida. Durante toda a construção de sua biografia de modo eticamente genuína, o vegano não se furta aos estudos da condição animal. O vegano sabe que é a partir dos estudos, da fundamentação teórica que seu modo de vida, seu ativismo, sua prática diária terá muito mais chance de ser coerente, de ter o fim almejado alcançado. Pois só entendemos o que acontece na prática, a partir da reflexão sobre essa prática, seja ela especista ou abolicionista. Para entender o movimento dialético da realidade é preciso estudar e compreender o processo que ele se dá. Estudar o modo de vida vegano leva a compreensão de que veganismo é razão e empatia, e não dicotomias somatofóbicas. Que veganismo é principio da não violência (ahimsa), e isso significa, não ser violento no pensar, no dizer e no fazer, na relação com pessoas humanas e não humanas. Fazer discurso de ódio é ir pela contramão do que é o veganismo. Veganismo é crítica e autocrítica, é aprimoramento moral.

“Veganos” que defendem, nas mais variadas situações, algum uso dos animais são veganos mesmo? Será que é vegano mesmo ou um morto nos termos da pedagogia aristotélica?


*Leon Denis é ativista e atleta vegano pelos direitos animais, membro fundador da Sociedade Vegana no Brasil.

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