Alimentação vegetariana é possível e saudável para crianças



N​o começo deste mês, foi notícia nos jornais italianos a história de uma criança de 1 ano que pesava como um bebê de 3 meses porque, segundos as manchetes, “os pais impuseram ao filho uma dieta vegana rígida” – do que seria composta essa dieta rígida nenhum jornalista explicou. Depois de receber cuidados e passar por uma cirurgia, devido a um problema congênito no coração, a criança, que vive aqui em Milão, está bem e seguirá para adoção, pois os pais perderam sua guarda.
Tudo nesta notícia me deixa triste: a desnutrição da criança, a falta de bom senso dos pais e, principalmente, a manipulação dos jornalistas. Sim, é verdade que a criança estava desnutrida e que isso é gravíssimo. Porém, a culpada nessa história é a ignorância deste casal – não o veganismo, como as manchetes em má-fé deixaram subentendido.
Tão curioso quanto esse apego da grande mídia em condenar o veganismo sempre que os editores veem uma brecha, é o fato de poucos canais de notícias destacarem com títulão a obesidade infantil. Esse sim um problema real em forte crescimento – a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica diz que 1 a cada 3 crianças de 5 a 9 anos no Brasil está com excesso de peso. É muita coisa!
Leio essa decisão editorial da seguinte maneira: já é normal a criança ser obesa, ter diabetes e colesterol alto porque está sedentária na frente do videogame, comendo açúcar, carboidrato e proteína animal além da conta. Mas uma criança ser vegetariana, mesmo que seu crescimento e peso estejam normais… Ai ai ai. Aí não pode, não dá, é injusto, não é normal, com certeza a criança ficará doente, os pais são fanáticos etc etc.
É verdade que não tenho filho, mas sei que o vegetarianismo infantil é saudável porque tenho um exemplo em família. Meu sobrinho, João Pedro, que completa 6 anos esse mês, é vegetariano desde a gestação. Foram poucas as vezes que ouvi Bia, minha irmã, dizer que ele estava doente ou meio jururu. João é forte, seu crescimento está dentro do esperado, ele tem bastante energia e, principalmente, uma mãe que se preocupa bastante com sua alimentação e sua saúde.
Mas não tem jeito. Alimentação vegetariana para crianças é um tema que sempre vai gerar polêmica. Foi por isso que resolvi confirmar com a pediatra Dra. Laura Ohana, do Rio de Janeiro, se o que vejo em João Pedro é possível para outras crianças.
Samira Menezes: A alimentação vegetariana é saudável para crianças?
Dra. Laura Ohana: A alimentação vegetariana balanceada na infância não somente é possível, como também pode trazer alguns benefícios à saúde porque reduzem o risco de algumas doenças da vida adulta que costumam ter início na infância, como obesidade e diabetes.
Crianças veganas têm uma ingestão menor de gordura total, gordura saturada e colesterol do que crianças onívoras, além de um maior consumo de frutas, vegetais e grãos integrais.
Com escolhas alimentares corretas, crianças vegetarianas apresentam crescimento e desenvolvimento adequados. Aliás, o vegetarianismo é colocado como opção alimentar na infância por sociedades internacionais importantes, como Academia Americana de Pediatria, Sociedade Pediátrica Canadense e Academia de Nutrição e Dietética. 
Samira Menezes: A quais nutrientes os pais de crianças vegetarianas devem ficar atentos?
L.O.: Toda vez em que retiramos alguns alimentos habituais da dieta, devemos atentar para a ingestão adequada de alguns nutrientes.
Um ponto principal é observar se as calorias necessárias ao crescimento e desenvolvimento da criança estão sendo ofertados.
Frequentemente, crianças se sentem facilmente saciadas, o que faz com que nem todas as porções oferecidas sejam aceitas conforme o planejamento inicial. Assim, os pais devem atentar para a oferta de alimentos com boa densidade calórica é importante, de forma que na alimentação da criança vegetariana, todos os grupos alimentares estejam presentes.
Também é importante incluir fontes de ferro, zinco e gorduras essenciais, como ômega-3. Uma forma segura de garantir o ômega-3 é acrescentar linhaça ou chia ou mesmo os seus óleos prensados a frio à dieta da criança.
Samira Menezes: Onde os pais encontram ferro e zinco?
L.O.:O ferro e o zinco estão presente principalmente em feijões, vegetais verde escuros, cereais integrais e castanhas, porém, a sua baixa biodisponibilidade faz com que sejam necessários alguns cuidados para ajudar na melhor absorção desses nutrientes. Como, por exemplo:
  • Deixar os feijões de molho de um dia para o outro, e desprezar esta água antes do cozimento, ajuda na redução do ácido fítico que é um fator que atrapalha a absorção do ferro.
  • Incluir alimentos rico em vitamina C, como frutas, ajuda na melhora da absorção do ferro.
  • Evitar consumo de leites ou outros alimentos ricos em cálcio junto ao almoço ou jantar também viabiliza maior eficácia do ferro ingerido.
Além disso, é importante ressaltar que toda criança até os 2 anos de idade, sendo onívoros ou vegetarianos, deve suplementar ferro prescrito pelo pediatra, sendo essa uma recomendação oficial da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Samira Menezes: E a proteína?
L.O.: A ingestão de proteínas e aminoácidos em níveis adequados é facilmente atingida na alimentação de crianças vegetarianas. As proteínas podem ser encontradas em boas quantidades em alimentos como os feijões, grão-de-bico, lentilha, ervilha, grão de soja e seus derivados como o tofu, o leite de soja, além das castanhas.
Samira Menezes: Qual deve ser a base da alimentação da criança vegetariana?
L.O.: A base da alimentação devem ser os feijões (ricos em proteínas) e os cereais (fontes de energia).
Samira Menezes: O veganismo para crianças não levará à deficiência de cálcio?
L.O.: Não, se os pais de crianças veganas ficarem atentos à ingestão de cálcio.
Esse mineral é encontrado no leite materno, em feijões, castanhas, vegetais verde-escuros (devendo-se priorizar o consumo daqueles que são pobres em oxalato, como brócolis e couve), algumas sementes, como gergelim e chia, e em leites vegetais fortificados.
Além disso, veganas ou não, as crianças devem tomar sol diariamente para garantir uma boa produção de vitamina D.
Entretanto, devido aos baixos níveis de vitamina D na população em geral, a Sociedade Brasileira de Pediatria preconiza o uso de suplemento de vitamina D para todas as crianças a partir da 1ª semana de vida, prescrita por um profissional de saúde.
Samira Menezes: E como fazer com a vitamina B12, que só pode ser encontrada no reino animal?
L.O.: Esse nutriente pode ser adquirido de alimentos fortificados na indústria ou, de forma ainda melhor, com suplementação prescrita por profissional de saúde. Essencial no desenvolvimento do sistema nervoso, a B12 é fortemente recomendada para crianças vegetarianas
ANDA

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