Como os veganos podem superar o debate do Abolicionismo contra o Bem­-estarismo


Durante anos me silenciei a respeito do “debate do Abolicionismo contra o Bem-estarismo”, por acreditar que meus escassos tempo e energia enquanto ativista seriam melhor empregados de outras formas. Mas eventos recentes me levaram a testemunhar a profunda ira, incerteza, culpa, cansaço e desespero que essa questão desperta em veganos – cujo comprometimento e compaixão nunca deixam de me surpreender e inspirar. Por isso eu não poderia, em sã consciência, deixar de tocar nesse assunto e de compartilhar minhas reflexões.
Muito tem se escrito sobre o conteúdo da questão – as ideias e argumentos específicos que compreendem cada posicionamento. De fato, praticamente tudo que tem se discutido em relação ao “debate” é baseado em conteúdo, e haveria uma pressão para se conseguir mais conteúdo para trazer para um “debate” que se encontra em um impasse desde que surgiu. Então não vou defender um posicionamento aqui, mas sugerir uma nova forma de pensar a questão – um reenquadramento que eu espero que ajude a liberar um pouco da energia que tem sido gasta nesse impasse, tornando, assim, as nossas vidas mais pacíficas e o nosso ativismo mais eficaz.
O que eu sugiro é voltemos nossa atenção do conteúdo para o processo da questão. O processo é o “como”, mais do que o “o quê”; é a forma como nos engajamos com o conteúdo, como nos comunicamos (por exemplo, podemos ser argumentativos ou cooperativos). E nosso processo é moldado pela nossa consciência. Nossa consciência é nossa mentalidade; são as intenções, princípios e estado de espírito que conduzem nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos e determinam como nos relacionamos com nós mesmos, com os outros e com o mundo. Nossa consciência e nosso processo podem espelhar a cultura especista-carnista que estamos lutando para transformar, reforçando assim, por exemplo, rigidez ideológica, falsa dicotomia, defensividade, assédio moral, auto-justificação e hostilidade. Ou pode refletir os princípios fundamentais do veganismo, tais como compaixão, reciprocidade, justiça e humildade – essência de uma consciência (e processo) “libertadores”, uma forma de ser (e de se relacionar) que é fundamentalmente libertadora e que eu acredito que pode fortalecer significativamente as importantes conversas estratégicas nas quais precisamos continuar a nos engajar.

Equiparando Diferença e Deficiência: fazendo desacordos saudáveis parecerem debates segregadores
Há muitas formas através das quais nós, como indivíduos e como um movimento, incorporamos uma consciência libertadora. Tive o privilégio de conhecer milhares de veganos pelo mundo, e de testemunhar a coragem e convicção com que eles levam suas vidas. Eles se mantêm firmes em seus valores apesar da hostilidade e discriminação com que lidam diariamente, do isolamento que vivenciam, da frustração que sentem ao perceber a irracionalidade evidente nas atitudes e comportamentos dos outros para com os animais, e da dor, tristeza e raiva que sentem com os constantes sinais de brutalidade e injustiça que os cerca. Também tive a oportunidade de testemunhar o desdobramento e florescimento global do movimento vegano. Dadas as dimensões da atrocidade contra a qual estamos, temos muito do que nos orgulhar.
E dadas as dimensões da atrocidade contra a qual estamos, também temos muito trabalho a fazer.
Embora tenhamos conseguido trazer uma consciência libertadora para muitas áreas de nosso ativismo e do nosso movimento – particularmente para as nossas áreas de convergência – muitas vezes trazemos uma consciência não libertadora para nossas áreas de desacordo. Se nossa força está na diversidade – quanto mais ideias e experiências trazemos para nosso movimento, mais rico e multidimensional ele se torna – quando equiparamos diferença e deficiência, quando acreditamos que as diferenças são obstáculos e não oportunidades, estamos tratando nossas diferenças de uma forma que enfraquece em vez de fortalecer a nós e a nosso movimento. Passamos a ver nossos desacordos como debates segregadores e não como conversas construtivas.
O problema central não é as nossas diferenças, e sim a forma como nos referimos a elas. Em outras palavras, embora possa haver diferenças em termos de quão eficazes são certas estratégias para acabar com a exploração animal – algumas podem até ser contraproducentes – não podemos decidir em que abordagens focar nossos esforços se somos incapazes de discutir tais diferenças abertamente. Devemos aproximar nossas áreas de divergência de uma forma que cultive o tipo de diálogo produtivo que nos capacite a explorar completamente os métodos mais apropriados para pôr um fim à terrível maré de brutalidade para com seres não-humanos – que não cessa enquanto estamos discutindo uns com os outros.

Debate contra diálogo: processos radicalmente diferentes
O modelo de debate, embora amplamente aceito para além do mundo acadêmico, também tem sido criticado por muitos intelectuais, pelo menos já desde Sócrates. Geralmente, quando estamos debatendo, buscamos “ganhar” uma “discussão”, “defender” nosso posicionamento, demonstrar que ele é “certo”. Dessa forma, nossa meta é, inevitavelmente, fazer o outro “perder” e demonstrar que o posicionamento dele está “errado”. A meta do debate é, normalmente, não aprender e desenvolver um maior entendimento de um assunto, mas promover nossa própria visão contra um “oponente” que está igualmente empenhado em promover o ponto de vista dele. O ato de debater se baseia em, e encoraja, um pensar dualista: muitas vezes somos levados a escolher entre dois pontos de vista (opostos) e não conseguimos enxergar os muitos pontos de vista alternativos que podem existir. Também podemos deixar de valorizar as nuances do assunto, ou fato de que podem haver interpretações múltiplas e igualmente válidas para a mesma situação.
A meta de dialogar, por outro lado, é compartilhar ideias e tomar conhecimento de perspectivas múltiplas. É compreender e ser compreendido pelo outro, a fim de ampliar o entendimento. Através do diálogo somos encorajados a avaliar nossas próprias certezas, considerar as limitações de nossa perspectiva e contemplar explicações alternativas ou planos de ação para a questão que estamos explorando. O modelo de diálogo reflete muito mais uma consciência libertadora, uma vez que requer curiosidade, empatia e compaixão, e tem como objetivos compreensão mútua e fortalecimento coletivo em vez de criar “vencedores” e “perdedores”.
Além da conscientização gerada por cada modelo, se considerarmos o puro valor prático dessas abordagens para acabar com a exploração animal, podemos perceber como o debate pode ser um sério obstáculo a essa meta. Alcançar nosso objetivo de libertação dos animais depende de desenvolver uma abordagem estratégica que seja compreensiva, complexa, sofisticada e flexível, a fim de atingir uma forma de opressão institucionalizada que é compreensiva, complexa, sofisticada e dinâmica. É improvável que a retórica redutora e dicotômica do debate possa jamais produzir tal nuance e riqueza analítica. Nossa força está nas nossas diferenças.

O impasse do debate: estratégia disfarçada de ideologia
Considerando a natureza problemática do debate, por que continuamos a aplicar este modelo para lidar com nossas diferenças? Uma das razões é que temos confundido ideologia e estratégia, ao acreditar que nossas diferenças são ideológicas e não estratégicas. Ideologia é um termo moralmente carregado, que muitas vezes gera uma mentalidade de “certo/errado”, e é interpretado de forma subjetiva, o que pode levar a deliberações sem limites e, no fim das contas, a um impasse.
Embora diferenças ideológicas naturalmente existam entre veganos, para muitos deles há, muitas vezes, uma falta de clareza em relação aos pontos em comum entre ideologia e estratégia. Por exemplo, ao debatermos se é mais eficaz promover uma reforma institucional do que uma divulgação do veganismo (supondo que são abordagens mutuamente exclusivas, o que não são) estamos muitas vezes supondo que a divergência é puramente ideológica, que se é ou “abolicionista” ou “bem-estarista”. No entanto, a maioria dos veganos de fato compartilha do objetivo da abolição da exploração animal, e quando conseguimos separar a ideologia da estratégia podemos redirecionar a discussão para a melhor forma chegar a esse objetivo sem sermos desviados por argumentações morais.
Quando sobrepomos a ideologia à estratégia, perdemos a objetividade necessária para desenvolver uma análise estratégica intacta. Por exemplo, tratamos teoria como se fosse verdade, defendendo veementemente uma abordagem que não se baseia em qualquer evidência empírica. Exemplos históricos de outros movimentos abolicionistas, como o movimento para acabar com a escravidão africana, são referências úteis, mas que em nada
se aproximam dos dados concretos necessários para demonstrar a eficácia de uma abordagem estratégica para abolir a exploração animal contemporânea. Também não temos quaisquer dados confiáveis que provem que reformas bem-estaristas irão, de fato, resultar na abolição, em vez de, na verdade, minar os esforços empregados neste objetivo. E também tratamos fato como se fosse teoria, rejeitando, por exemplo, o grande número de pesquisas que examinam os fatores motivacionais e comportamentais que influenciam a mudança individual e social. É incrível como Change of Heart, de Nick Cooney, uma compilação de 220 páginas de estudos psicossociais, tem sido às vezes tratada como se fosse mera conjectura.
A análise estratégica é um dos – se não o – esforços mais importantes nos quais podemos nos envolver enquanto veganos. Questionar a forma mais rápida e eficaz de conquistar mudanças para os animais é vital para a nossa missão. Faz sentido perguntar, por exemplo, se as reformas bem-estaristas que aumentam a conscientização sobre a exploração de animais de criação trazem mais benefícios ou consequências. São questões válidas que exigem um diálogo permanente. O modelo de debate, no entanto, não é útil quando se discute a estratégia; nossa preocupação em estarmos certos pode nos impedir de sermos eficazes.

O mito do Grande Debate: “Bem-estarismo contra Abolicionismo”
Outra razão pela qual os veganos empregam o contraproducente modelo de debate é porque muitos de nós acreditamos que exista um “debate do Abolicionismo contra Bem-estarismo” fundamental dividindo nosso movimento, e que estamos, portanto, automaticamente de um lado ou de outro. Em outras palavras, nós compramos o mito do Grande Debate.
No entanto, enquanto há aqueles que procuram debater esta questão, o debate em si é, em grande parte, uma construção. Em um debate, geralmente se supõe que existam (pelo menos) dois lados “opostos”, cada um igualmente empenhado em promover sua posição como certa. E para se empenhar na promoção de um posicionamento, deve-se, geralmente, estar identificado com o mesmo. Um debate é como uma partida de futebol: tem de haver
dois grupos, identificados como equipes, ambos comprometidos a “ganhar” o jogo.
Se examinarmos a história do “debate do Abolicionismo contra o Bem-estarismo”, no entanto, veremos que a grande maioria dos veganos não se vê em um “lado” do “debate”, porque não se identifica com um posicionamento específico – eles não se rotularam e não construíram uma identidade em torno de um posicionamento. Eles simplesmente se veem como “veganos”. Muitas vezes, eles só irão considerar sua posição no “debate” quando forem confrontados com a “escolha” de um “lado”, mas, geralmente, eles não sentem qualquer identificação com seu suposto “lado”, nem percebem aqueles do outro “lado” como em oposição a si mesmos e a seus esforços. A identificação com uma posição tem sido, em grande parte, a província de um pequeno grupo de veganos que construíram uma identidade em torno de sua abordagem estratégica-ideológica e que criaram rótulos para si mesmos e para o outro “lado”. Em nossa analogia do futebol, é como se houvesse apenas uma equipe que tenta ganhar o jogo; o resto das pessoas nem sequer se vê como uma equipe e está simplesmente correndo pelo campo, apenas chutando a bola quando ela entra no caminho.
Na verdade, só porque apenas uma minoria dos veganos tem uma identidade de “equipe”, não significa que a maioria não desempenhe um papel na construção do debate. É inteiramente possível que a pequena minoria tenha desenvolvido uma identidade de grupo coesa, porque sentiu que as suas preocupações, válidas e urgentes, não vinham sendo levadas a sério pela cultura vegana mais ampla. Ambos os “lados” devem se esforçar para neutralizar o mito do Grande Debate.

O mito da Grande Divisão: unidos e divididos, estamos firmes
Um dos perigos de aceitar o mito do Grande Debate é que ele pode nos levar a acreditar no mito da Grande Divisão – que há uma profunda brecha em nosso movimento que prejudica os nossos esforços e mina o nosso ativismo. E embora seja verdade que “o debate” é divisionista e constitui um obstáculo ao nosso crescimento, uma rápida análise da evolução do movimento nos últimos anos demonstra, sem dúvida, que estamos crescendo
exponencialmente em tamanho e força. A fenda não é um abismo.
Também podemos acreditar no mito da Grande Divisão porque, enquanto minorias ideológicas, somos muitas vezes retratados pela cultura dominante como um grupo homogêneo e unidimensional. E, como outros grupos não-dominantes, podemos nos sentir pressionados a apresentar uma frente unificada, a fim de obter poder social. Por isso, é importante que nos lembremos de que não somos menos diversificados do que os não-veganos, e não temos que – nem deveríamos – compartilhar dos mesmos valores, crenças e abordagens. Quando olhamos para nós mesmos através da lente da cultura dominante, podemos temer que, se não estamos unidos, estamos divididos, e transformar isso em uma profecia autorrealizável. Mas podemos ser, e somos, simultaneamente semelhantes e diferentes.

Rotulagem segregadora
Nossa percepção de nós mesmos como fundamentalmente divididos é reforçada, pelo menos em parte, através da construção e apropriação de rótulos para veganos. Embora análise linguística e precisão sejam essenciais para o crescimento contínuo de qualquer movimento social, quando os rótulos são criados e aplicados unilateralmente – quando aqueles que os recebem nem foram participantes no processo, nem consentiram em receber os rótulos atribuídos a eles – o resultado é confusão, frustração e um profundo enfraquecimento da dignidade pessoal e da solidariedade do grupo.
Nada enfatiza mais essa dinâmica que o uso dos rótulos “abolicionista” e “bem-estarista”. Muitos veganos acham esses rótulos ofensivos porque eles são involuntariamente atribuídos ou negados – lhes dizem que eles não são quem pensam ser, ou que eles são quem pensam não ser. Por exemplo, a definição técnica de “abolicionista” é aquele que favorece a abolição de uma prática ou instituição; no caso do veganismo, isso significaria qualquer um cujo objetivo final é a abolição da exploração animal. E mesmo que a maioria dos veganos se veja, sem dúvida, como abolicionista, o termo foi redefinido para se aplicar a um pequeno grupo daqueles que defendem uma ideologia e uma estratégia de abordagem particulares para chegar a esse objetivo. Assim, qualquer um cuja abordagem difira, mesmo que seu objetivo seja a abolição da exploração animal, é rotulado de “bem-estarista”, o que sugere que ele simplesmente procura aliviar, em vez de eliminar, essa exploração. Embora existam, certamente, advogados de proteção dos animais – e executivos de greenwashing do agronegócio – que não almejem a abolição, a grande maioria dos veganos almeja e se sente, portanto, ofendida quando lhe é negado o direito à auto-identificação.
Uma maneira simples de resolver o problema da rotulagem segregadora é escolher termos que sejam mais inclusivos e precisos. Na verdade, é provável que tais termos tenham sido criados originalmente para promover uma maior precisão e que a exclusão tenha sido uma consequência não intencional. No entanto, o processo pelo qual a rotulagem foi implementada é de ainda maior preocupação que os próprios rótulos. Impor aos outros rótulos não solicitados que são incongruentes com seu próprio autoconceito é definir sua realidade. É negar ao outro o direito à sua própria orientação filosófica. Quando nós definimos a realidade do outro, estamos, no fundo, afirmando que sabemos melhor do que ele quais são as suas motivações e metas centrais. Definir a realidade de outro é um processo fundamentalmente enfraquecedor (não-libertador). Sempre que nos nomeamos peritos na experiência do outro, nós tiramos o outro de sua subjetividade, tornando-o objeto de nossas projeções. Nós apagamos o seu ser, projetando sobre eles nossas próprias suposições sobre o seu mundo interno. Este tipo de consciência é antitética para todos nós que nos definimos como veganos. Pense nisso: a nossa defesa se baseia em impedir seres humanos de definir a realidade de outros animais, de rejeitar ou minimizar a senciência e sofrimento de outros seres. Nos esforçamos para compreender a experiência subjetiva dos animais e encorajamos os outros a fazerem o mesmo. Este testemunho de outros seres, validando em vez de definir a sua realidade, é a base de uma consciência vegana – uma consciência libertadora.

Uma consciência vegana de libertação: indo além do debate e cruzando a fronteira
O veganismo se baseia em princípios que formam uma consciência libertadora, e a essência da filosofia vegana é respeitar o valor intrínseco de todos os seres, incluindo os humanos. Não há forma de criarmos o mundo que reflete os nossos princípios se praticamos nossa filosofia de forma seletiva e não de forma holística. Devemos nos comprometer a trazer uma consciência libertadora para nossas vidas diárias, tanto para nossos relacionamentos mais próximos como para nossas interações com estranhos, tanto para com aqueles com quem podemos discordar veementemente como para com aqueles que chamamos de companheiros. Desta forma, estamos dando aos não-veganos o exemplo que estamos pedindo para seguirem, cultivando vidas mais plenas e sustentáveis como veganos e como ativistas, e criando um movimento mais unificado e fortalecido.
Uma consciência libertadora reflete curiosidade – uma mente aberta – em vez de rigidez e defensividade ideológica ou intelectual. O objetivo é buscar a verdade, para aprender e compreender, em vez de estar “certo”. Se valorizamos a curiosidade como um princípio fundamental de uma consciência libertadora, então valorizamos, ao invés de menosprezar, aqueles cuja busca pela verdade possa gerar ideias das quais discordamos. Por exemplo,
James McWilliams foi alvo de duras críticas por mudar sua posição sobre determinadas questões depois de examiná-las mais profundamente. No entanto, independentemente de concordarmos com suas ideias, a abertura de McWilliams a informações que desafiam os seus pontos de vista existentes, e seu compromisso em buscar (e falar) a verdade acima de estar “certo”, refletem verdadeira integridade intelectual.
Uma consciência libertadora reflete compaixão – um coração aberto – em vez de julgamento, humilhação e intimidação. O objetivo é conectar, criar empatia com o outro, fortalecê-lo. O julgamento é sempre constrangedor, pois reflete uma atitude de superioridade e faz com que o outro se sinta inferior, “menos”. E o assédio moral é o uso de agressão para intimidar o outro a fazer (ou acreditar em) o que se quer. Podemos até defender um sistema que pregue a libertação total, mas se nossas ações são condenatórias, constrangedoras e assediadoras, estamos oprimindo em vez de libertar. Além disso, quando praticamos a compaixão nós desarmamos a nossa raiva, e a raiva é um sério obstáculo ao diálogo produtivo. A raiva é uma resposta normal e adequada à injustiça, mas quando deixamos de examinar e processar a nossa raiva, ela pode crescer e se tornar crônica. E quando nos comunicamos partindo da raiva, inevitavelmente projetamos hostilidade. Nossas palavras – faladas ou escritas – ficam carregadas de indignação e sarcasmo. A raiva é uma emoção profundamente distanciadora; ela cria muralhas defensivas em nós mesmos e naqueles com quem estamos nos comunicando. Se o nosso objetivo é sermos ouvidos, precisamos que o outro se abra para nós e sinta uma conexão conosco – sinta a nossa compaixão.
E uma consciência libertadora reflete a coragem de praticar curiosidade e compaixão em nossas interações e em nossas vidas. Qualquer interação que não reflete curiosidade e compaixão é intrinsecamente não libertadora.
Enquanto veganos, estamos pedindo ao mundo algo que nunca foi pedido antes. Estamos buscando uma transformação social radical, uma verdadeira revolução de consciência. Nosso movimento, nossa voz, é fundamental para salvar o mundo. E, embora estejamos fazendo a nossa voz ser ouvida, imagine quanto mais alto nossa mensagem soaria se parássemos de gritar uns com os outros. E imagine o tipo de mundo que poderíamos criar se nos comprometêssemos a falar a linguagem da libertação.

Créditos do texto e fotos: Melanie Joy
Tradução: Isiane de Paula

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