Como tratamos os “nossos” animais



Enquanto defensores dos animais sentimos que já sabemos tudo acerca de como devemos manter e viver com os “nossos” animais. Na verdade, ainda não é muito o que sabemos acerca desses animais maravilhosos com quem partilhamos a vida: os cães e os gatos. Muitos de nós acreditam que basta colocar comida e água a um cão ou um gato, dar alguns passeios com o cão, que um gato facilmente se acomoda desde que haja um espacinho, que devemos levá-los ao veterinário quando estão doentes e brincar com eles quando temos tempo. Assim, parece que já fizemos “a nossa parte” ao têrmo-los adoptado, e é bem melhor que estejam connosco do que na situação em que os encontrámos, certo?

Pois bem, gostava então de analisar simples e brevemente o que acabo de escrever:

1 – Não existe tal coisa como fazer “a nossa parte”. A nossa parte é fazermos o máximo possível todos os dias da nossa vida, e o que quer que façamos continuará a não chegar;

2 – Não é necessariamente verdade que os nossos pequenos estejam melhor connosco do que estavam antes ou do que estariam se estivessem com outra pessoa. Pensarmos assim é o que *nos* faz sentir bem e *nos* conforta pensar.

Adoptar alguém (o mesmo se aplica à adopção de crianças) deve ser, em primeiro lugar, um acto de altruísmo. Adoptar para cuidar, para proteger, para acompanhar, para respeitar. As responsabilidades da adopção são demasiado importantes para serem descuidadas e uma má adopção pode significar a ruína na vida de um indivíduo. Adoptar um animal implica aceitar *todas* as consequências que possam advir dessa decisão, ou seja, todos os imprevistos e todas as boas e más surpresas. Para sempre! Não imaginaríamos fazer nascer ou adoptar uma criança e depois passá-la para os cuidados de outra pessoa se ela ficasse doente, implicasse despesas, se nascesse/entrasse um novo membro da família, se chorasse ou falasse muito alto, ou se trabalhássemos muitas horas. Se seria socialmente reprovável fazê-lo com um humano, porque é então tão melhor tolerado se for com um cão ou um gato? Será o especismo também um empecilho na vida dos cães e dos gatos? É, mas não tem que ser assim!

Os cães e os gatos conforme os conhecemos (domesticados) dependem imensamente de nós. Um cão deve ser passeado *pelo menos* três vezes por dia, deve ser exercitado, estimulado, acompanhado, e jamais deve ficar mais do que 6 horas sem urinar. Privar um animal daquilo que lhe é fisiologicamente natural (urinar foi apenas um exemplo) causa-lhe sofrimento/desconforto e é – ainda que não seja sempre propositado – uma forma de crueldade. Não é verdade que os gatos em qualquer canto se acomodam. Um gato precisa de explorar, de arranhar, de poder esconder-se se quiser, etc. Ambos precisam – tal como os humanos precisam – de estímulos e de uma vida social; com outros animais e com humanos.

Manter animais em transportadoras, “boxes”, espaços apenas com cimento, quartos fechados ou outros espaços semelhantes, não é protegê-los, nem faz de nós melhores apoiantes dos animais. Pelo contrário, perverte a essência da Causa, retirando-lhe dignidade.

Posto isto, é urgente começar (e já começamos tarde) a mudar a forma como “executamos” aquilo a que chamamos protecção dos animais. É urgente que façamos um esforço para mudarmos a ultrapassada forma como os vemos e cuidamos deles. Conforme disse no início, ainda sabemos pouco acerca das características dos outros animais, mas o que sabemos hoje é muito mais do que sabíamos há 60 anos. Assim, não é aceitável que continuemos a usar as mesmas fórmulas, infraestruturas e “mindset” dessa altura.

Mudar é extremamente difícil e implica muito trabalho. Implica sobretudo vontade e uma enorme dose de humildade para reconhecermos que o que estamos a fazer não está a funcionar e que pode, realmente, melhorar. Se reconhecermos isto o primeiro passo estará dado!

O exemplo deve partir de nós. Não é demais relembrar que não é porque não conseguimos fazer/mudar tudo que devemos esmorecer e abster-nos de tentar. Os nossos queridos companheiros agradecem e a Causa engrandece.

Este artigo foi escrito em Português de Portugal e sem recurso ao Acordo Ortográfico.

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