Eutanásia; mais do que uma injecção



Iniciemos com as definições “oficiais”:

Eutanásia ou “boa morte” é a prática pela qual se abrevia a vida de um doente incurável de maneira controlada e assistida por um especialista.

Occisão é o acto de matar; assassínio.

Abate é a morte/matança por sangria.

A palavra eutanásia aplicada à morte de animais não-humanos, nomeadamente cães e gatos, vulgarizou-se de forma tal, que é utilizada de uma maneira completamente abusiva e nada factual. Generalizou-se, inclusive, no seio do movimento de defesa dos animais, a ideia de que eutanásia é a forma como o animal é morto, ou seja, como se uma injecção de pentobarbital fosse a definição de eutanásia. Isto é falso. Um animal até pode ser morto com um tiro e isso ser considerado uma eutanásia, portanto, não é o método que define a eutanásia, mas sim o que leva à produção da morte desse animal. Administrar uma eutanásia a alguém é aliviar esse alguém de sofrimento que NÃO pode ser aliviado de outra forma, alguém que está absoluta e inequivocamente condenado a morrer, que não tem qualquer hipótese de sobrevivência e que está em sofrimento, sem qualquer qualidade de vida. A eutanásia é, geralmente, administrada através de sedação completa do animal e de seguida uma injecção de pentobarbital que fará com que ele já não acorde. Contudo, e consoante os casos, pode ser administrada através de outros métodos.

Não nos enganemos. Sejamos honestos para connosco e respeitadores da dignidade daqueles cuja morte por vezes temos que decidir. Tirar a vida a alguém é uma das decisões mais penosas que pode existir. É algo que nos perseguirá para o resto da vida e que requer muita ponderação, de preferência mais do que apenas uma opinião médica, e, acima de tudo, consciência do acto. Não deve ser uma decisão leviana nem baseada apenas em emoções momentâneas. A regra de ouro da ética deve ter um papel vital (literalmente vital) numa decisão deste calibre. De forma muito simplificada, é importante que façamos este exercício: “se eu estivesse naquela posição o que quereria que me fosse feito?”. Sejamos também muito rectos aquando da aplicação desta regra. Façamos uma introspecção e percebamos o que REALMENTE quereríamos que nos fosse feito numa situação similar.

Infelizmente, os casos com os quais lidamos referem-se a animais que não podem falar por si, não podem dizer-nos se querem ou não que a sua morte seja acelerada, por isso, temos que ser nós, devidamente aconselhados pelo médico veterinário assistente, a tomar essa decisão. Importa que nunca esqueçamos o que estamos realmente a fazer, e a importância que tal passo tem. Aquilo que deve ser um acto de misericórdia não pode, nem deve, segundo o meu ponto de vista, ser banalizado. É esta banalização que encontro com frequência no movimento de defesa dos animais que me preocupa e até assusta. A forma por vezes precipitada com que se trata este tema é chocante e essa visão leva muitas vezes ao término de vidas com potencial.

Indivíduos que, independentemente de termos no momento uma família preparada para si ou não, que independentemente de estarmos assoberbados e a sentir que não vamos conseguir encontrar-lhes famílias ou suportar os encargos financeiros dos seus cuidados ou não, podem vir a ter uma hipótese! Mas, para isso, têm que estar vivos! Matar alguém só deve ser uma hipótese se realmente essa morte for uma eutanásia.

Insisto uma vez mais que se tratem as coisas pelos nomes. Não, não se trata de preciosismo, mas sim de aperfeiçoamento. Quanto mais nos habituarmos a chamar os verdadeiros nomes ao que fazemos, mais aprendemos acerca do seu real significado, das suas consequências e até de nós próprios, e melhores e mais ponderadas decisões poderemos tomar. Sejamos leais aos princípios que advogamos e sobretudo àqueles cujas vidas pretendemos salvar, melhorar, ou até mesmo terminar, para o seu próprio bem.

É preferível salvar uma vida e dar-lhe o melhor possível, a, à força de querer salvar muitas, acabar por não salvar nenhuma. Para aquele indivíduo salvo, o facto de ter continuado vivo valeu tudo! E como se diz: “quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”. Salvemos o mundo inteiro; uma vida de cada vez.

Este artigo foi escrito em Português de Portugal e sem recurso ao Acordo Ortográfico.

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