Veganismo e ambientalismo



A produção mundial de animais para alimentação quadruplicou nos últimos 50 anos. Na verdade, o facto de se aumentar a criação de animais para consumo contribui não só para cada vez mais a forma como as pessoas se nutrem ser mais pobre, mas também para o aumento da poluição, aquecimento global, desflorestação, escassez de água, entre outros problemas. Tendemos a preocupar-nos em controlar a electricidade que gastamos, em fecharmos as torneiras, fazermos apagões mundiais durante uma hora, gastarmos menos papel… em suma, sermos mais eficientes no uso dos recursos e assim diminuirmos a nossa “pegada”, mas, curiosamente, esquecemo-nos de examinar o factor mais marcante nesta nossa “pegada ecológica”: aquilo que comemos!

Um relatório da FAO (The United Nations Food and Agriculture Organization) datado de 2005 reporta que mais de 5 milhões de crianças morrem de fome por ano. Estima-se que em 2050 a população mundial humana seja de 9 mil milhões. Este número é extremamente preocupante! Como vamos diminuir a fome no mundo?

A terra disponível para cultivo é uma das maiores dificuldades para a produção de alimento. A Terra não tem terreno ilimitado e nem todo o terreno é fértil. Vários estudos indicam que uma dieta vegana variada requer apenas um terço da terra que é usada nas dietas ocidentais convencionais. Isto significa que não temos terra suficiente para alimentar todos os habitantes do Planeta com uma dieta de origem animal. O facto é que enquanto quase 1 bilião de pessoas não tem comida suficiente, o resto do mundo continua a desperdiçar terra fértil onde poderiam ser cultivados vegetais para alimentação de todas/os, a criar vegetais que vão alimentar animais que posteriormente vão ser mortos para alimentar humanos… Algo está muito errado com esta equação! Estamos a desperdiçar em vez de sustentar.

A população mundial está a crescer de uma forma assustadora e os terrenos viáveis para cultura não estão a acompanhar esse crescimento. Se queremos evitar a escassez de víveres que cada vez mais se torna um problema real devemos procurar formas mais sustentáveis de utilizarmos os nossos recursos naturais. A exploração e utilização de animais não só não é moralmente justificável como também não é sustentável!

Cerca de 40% da terra para cultivo do mundo está degradada. Prevê-se que se a perda de terra continuar – devido à forma como a usamos – cerca de entre 150 a 360 milhões de hectares deixarão -até 2020 – de ter capacidade para serem cultivados. Este prognóstico deveria ser assustador, mas ainda assim as mudanças necessárias para preveni-lo não estão a acontecer.

Como é que a sua dieta pode ajudar?

O sobrepastoreio é um dos principais culpados pela degradação dos solos e pela desflorestação. As principais causas para a existência deste sobrepastoreio estão directa ou indirectamente relacionadas com a produção e consumo de produtos de origem animal. À medida que os solos vão deixando de estar capazes as pessoas vão procurando novas terras e isto cria um ciclo vicioso de “destruir – procurar – destruir”.

E as florestas?

As florestas estão a ser dizimadas pelas indústrias papeleira, madeireira e petrolífera, mas não só! Estima-se que entre 20 a 30% da área florestal mundial já tenha sido convertida em terreno de criação de animais para consumo ou plantação de cereais para alimentação desses mesmos animais que depois serão consumidos.

Um relatório da FAO intitulado “Livestock’s Long Shadow” diz-nos que em 2010 cerca de 24 milhões de hectares de terreno neotropical que era floresta em 2000 se transformaram em pastoreio de vacas para consumo! Este processo é chamado de “hamburgarização” das florestas. Mudar para uma dieta vegana pode fazer toda a diferença na inversão deste processo de destruição.

E a água?

Estima-se que uma pessoa que come animais é responsável pelo gasto de pelo menos 3 vezes mais água do que uma pessoa vegana. Sabemos também que a produção de animais é a responsável número um pela poluição das águas. O estrume dos animais contém níveis altos de fósforo e nitrogénio que ao chegarem a lagos e rios são responsáveis pela morte de inúmeros peixes e outros animais marinhos, já para não mencionar as descargas ilegais que tantas vezes são feitas directamente para estes cursos de água. A própria amónia da urina destes animais pode ser responsável pelo fenómeno das “chuvas ácidas”.

Pense nisto:

– Continuar a manter os animais e os alimentos de origem animal como as fontes principais de alimentos para a população humana do planeta é condenar milhares de milhões de pessoas à fome;

– Criar animais para serem transformados em carne ou para gerarem ovos e leite é um grande erro de economia alimentar. Os animais que são explorados com fins alimentares consomem muitas mais calorias do que aquelas que se produzem em forma de carne ou outros alimentos animais;

– Se os terrenos agrícolas actualmente usados na criação de animais fossem usados na produção de vegetais, gerariam uma quantidade substancialmente maior de alimentos para consumo humano do que actualmente geram, permitindo alimentar um número muito superior de humanos do que actualmente permitem fazer – e de modo ética e ecologicamente mais correcto;

– A produção de vegetais poderia, com alguma facilidade, gerar uma quantidade de alimentos completos, de muito mais fácil, menos dispendiosa e de mais eficaz produção e distribuição. Poderia ser suficiente para alimentar todos os humanos que existem na Terra, tanto os famintos como os não famintos, gerando alimentos mais baratos, mais acessíveis, de mais fácil produção e mais saudáveis.

Sabia que:

São usados cerca de 2000 litros de água para produzir um quilo de carne, enquanto são usados apenas cerca de 50 litros de água para produzir um quilo de trigo?

A exploração de vacas, porcos, ovelhas, galinhas e outros animais com fins alimentares tem tido efeitos preocupantemente importantes no aquecimento global?

10% da emissão de todos os gases nocivos, incluindo cerca de 25% das emissões de gás metano (que é considerado um dos mais potentes gases que tão nefastamente influencia o aquecimento global), provêm da exploração pecuária?

Se estima que, todos os anos, cerca de 13 mil milhões de toneladas de dejectos sejam produzidos pelos animais explorados na indústria pecuária?

Na América Central e na América do Sul, imensas florestas tropicais de enorme importância ecológica, com uma enorme diversidade de espécies animais e vegetais que nelas habitam, têm extensas áreas dizimadas e desflorestadas para darem lugar a pastagens para vacas que serão transformadas em carne e a plantações de soja para alimentar estes animais?

Uma área de terreno com as mesmas dimensões de sete campos de futebol é destruída a cada minuto que passa. 55m2 de floresta tropical podem ser destruídos para serem usados na produção de apenas cerca de 125g de “carne”;

Tome nota:

Cada vegano, pelo simples mas importante facto de ter uma dieta exclusivamente à base de produtos vegetais, ”salva” cerca de 3.000m2 de floresta por ano, que já não serão destruídos e convertidos em explorações pecuárias.

Em jeito de conclusão, a questão que se coloca é: se a exploração e produção de animais é uma das actividades mais poluentes, cruéis, ambientalmente catastróficas e humanamente insustentáveis do Planeta, pode realmente intitular-se ambientalista e comer animais? Importa reflectir e, eventualmente, mudar a forma de ver e viver o ambientalismo. Se realmente nos importa a deterioração do Planeta, assumamos essa nossa preocupação por inteiro, em vez de nos deixarmos ficar pela metade.

A Terra é de todos. Não acredito em tal coisa como “fazer a minha parte”. Fazer a minha parte é ir até à máxima extensão do possível para respeitar quem aqui habita. Não é porque não podemos fazer tudo que não devemos fazer tudo o que nos é possível fazer. Pense nisto.

Rita Silva
Activista em defesa dos direitos dos animais, Presidente da ANIMAL, Coordenadora Ibérica da Cruelty-Free International
www.animal.org.pt
www.crueltyfreeinternational.org

Fontes: Vegan Society; FAO; ONU;

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