Desrespeito com animais é uma das marcas da humanidade, por Amelia Gonzalez



Caros leitores, quero dizer que haverá um tom de amargura neste texto. Perdi meu cachorro há dois dias. Ele era pequeno, saudável, lindo, tinha 9 anos e, aparentemente, foi vítima de envenenamento. Digo aparentemente porque não foi feita a necropsia, portanto nada posso comprovar. Mas todos os sintomas da hora da morte levam a essa conclusão. Se foi envenenamento, a hipótese mais provável é que ele tenha ingerido chumbinho, aquele remédio contra rato que é proibido no Brasil mas que se vê fartamente oferecido nas ruas do Centro do Rio onde há camelôs. E que muitos condomínios usam para acabar com os roedores. Matam-se os ratos e mais quem estiver em volta, em nome da “saúde” dos humanos. É bom registrar que já existe tecnologia suficientemente capaz de acabar com as “pragas” urbanas sem causar impactos ao redor.

Uma vez esclarecidos sobre o meu estado de ânimo, sinto-me mais confortável para compartilhar meu pensamento pouco otimista quando li hoje a notícia de que a Nasa acaba de descobrir um sistema solar semelhante ao nosso. Se a humanidade decidir habitá-lo também, provavelmente ele já estará em risco. Em algum tempo (bem, nós não estaremos aqui para comprovar), não sobrará mais meio ambiente para contar história. Porque o homem é assim: não vê obstáculos naturais quando quer preservar sua espécie. Com esse objetivo, flora e fauna estarão sempre servindo como obstáculo.

E não é sempre para preservar a espécie que o homem decide exterminar com animais e matas. Às vezes a atrocidade acontece por um simples capricho, como por exemplo, ter objetos de marfim puro. Segundo a organização não governamental de conservação alemã Pro Wildlife, no ano passado, em apenas quatro apreensões em toda a Europa,foram confiscados 2.972 quilos de marfim. Aumentou muito em comparação ao ano de 2015, quando foram confiscados 554 quilos e 1.043 esculturas de marfim.

Vale a pena lembrar que para obter marfim puro é preciso matar um animal que chega a pesar 7 toneladas e é o maior mamífero terrestre sobrevivente de uma extensa radiação no período eoceno. Come ervas, frutas e folhas de árvores, o que contribui para manter árvores e arbustos sob controle nas savanas. Não costuma ser agressivos contra humanos, a menos que seja invadido e desrespeitado no período do acasalamento, quando libera uma quantidade enorme de hormônio testosterona e, por isso, é capaz de se enfurecer e não suportar, por exemplo, rituais dos quais muitas vezes é obrigado a
protagonizar, já que, para alguns povos, o elefante é um animal sagrado.

Não é difícil imaginar que os caçadores dessa espécie tranquila e calma devem usar métodos bastante invasivos e agressivos para matá-los. Prefiro não investigar a respeito porque já estou suficientemente abalada.

Mas a boa notícia é que a União Europeia deve proibir a exportação de marfim bruto a partir de julho deste ano, segundo reportagem do jornal britânico “The Guardian”. É boa notícia porque a Europa vende mais marfim cru e esculpido para o mundo do que qualquer outro lugar, alimentando um apetite aparentemente insaciável por presas de elefante na China e no leste da Ásia, conta o repórter Arthur Neslen. A Alemanha já proibiu as exportações brutas de marfim com dimensões superiores a um quilo – ou 20 cm de comprimento – desde 2014 e é agora um dos principais intervenientes nas conversações em Bruxelas destinadas a implementar o plano de ação da União Europeia para combater a criminalidade contra a vida selvagem.

“Embora o comércio internacional de marfim tenha sido largamente proibido desde 1990, os vendedores europeus exportar legalmente o marfim “colhido” antes dessa data, sejam crus – presas inteiras, pedaços de marfim ou sucatas – ou trabalhados por escultura, polimento ou gravura”, diz o texto.

Por sorte, esse crime bárbaro contra criaturas indefesas que já estão entrando na lista das espécies em extinção está sendo denunciado por celebridades. Isso colabora para que o mundo inteiro se dê conta do que está acontecendo e, quem sabe, há de pôr alguma dúvida, ao menos, nas pessoas que contribuem para a matança quando decidem ostentar acessórios de marfim.

Não, isso não é bonito, lembra a vencedora do Oscar, Lupita Nyong’o, ao posar com um bebê elefante resgatado de uma armadilha de caçadores. Na legenda da foto, postada no Instagram, a atriz escreveu: “Por ano, 33 mil elefantes são assassinados para que as pessoas possam usar joias e acessórios com o marfim extraído desses animais”.

Nicky Campbell, jornalista apresentador de televisão britânico, também aderiu à causa e decidiu pôr o dedo direto na ferida em recente artigo, perguntando aos leitores se, ao olharem para uma faca ou palito de marfim eles conseguem se lembrar de um animal com o rosto cortado, sangrando até a morte, para enfeitar aquele objeto.

“Elefantes choram, choram e demonstram empatia. Isso não é Disney. É ciência. Qualquer biólogo irá dizer-lhe porquê, e qualquer etólogo e cientista irá enviar-lhe artigos que são uma revelação total sobre a vida desses animais (eles foram para mim). Isto (o marfim) não é bonito.”, escreveu ele.

Leonardo DiCaprio, Arnold Schwarzenegger, Jared Leto, Kate Middleton, Susan Sarandon, Kathryn Bigelow, Kristin Davis e outros também decidiram abraçar a causa. Isso pode ser bom.

Fato é que a verdade mais óbvia, conforme Campbell lembra muito bem, é que o marfim só tem valor verdadeiro para o elefante. Somente a vaidade e a ganância dos humanos é que deu a ele um valor financeiro.O jornalista termina seu artigo com uma frase esperançosa, dizendo que a humanidade há de mostrarque somos melhores do que isso. Ele acredita que vamos conseguirrecuperar os elefantes e desvalorar o marfim.

Já eu, por causa do trauma que passei com a perda do meu cão, aparentemente vítima da ignorância humana, confesso que hoje não tenho muita esperança numa conscientização sobre a importância de se acabar com o comércio de marfim em respeito à vida dos elefantes. Vai ser preciso ter lei a respeito e, mesmo assim, sempre haverá alguém a burlá-la. Assim são os humanos.

* Jornalista, editou o caderno Razão Social, no jornal O Globo, durante nove anos, e nunca mais parou de pensar, estudar, debater e atualizar o tema da sustentabilidade, da necessidade de se rever o nosso modelo de civilização.

Fonte: G1

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